Por que cotas raciais?

 

* Por Vera Lícia

 

As políticas públicas que visam estabelecer cotas raciais em universidades públicas e outros estabelecimentos de estudo e de trabalho não têm nada a ver com discriminação racial ou preconceito racial, como insistem alguns autores. Tem a ver com justiça.

O mundo viveu políticas explícitas de cotas durante todo o período da escravidão e veladas, depois dela. Só que nestes momentos da história, as cotas eram de 100% para os brancos - no direito ao voto, no direito de estudar, no direito de viver. A política de cotas, democraticamente discutida na sociedade, hoje em dia, é uma questão de ajuste, equilíbrio social, racial e de tratar desigualmente a maioria desigual deste país. E isso é regido pela Constituição Federal em seus diversos artigos.

Será que se as mulheres não tivessem lutado pela igualdade entre os homens elas teriam conquistado o espaço que hoje desfrutam? Para que essa conquista se tornasse verdadeira, as mulheres lutaram por cotas, que até hoje são respeitadas em várias situações, como na determinação que consta na Lei 9.504, em vigor desde 1997, que obriga todos os partidos políticos, em todos os estados, a destinarem, no mínimo 30% das vagas de candidatos às mulheres.

Agora reflitam comigo. Foram políticas públicas, como esta, que criou, reforçou ou expandiu a discriminação da mulher no mercado de trabalho, na política, na vida? Claro que não. Porque o preconceito existe no coração e na mente das pessoas. Não tem nada a ver com ações governamentais. Pelo contrário, estas ações são estabelecidas para impulsionar o crescimento das classes e grupos sociais que sozinhos não tem condições de superar as desigualdades. Não por falta de competência, mas por causa do peso histórico da discriminação que estes grupos carregam até hoje. E as mulheres avançaram. Os negros também. Mas precisamos avançar mais. Com estas discussões, dia após dia. Sem desanimar.

Assim como as mulheres, os negros precisam ser vistos em postos importantes de estudo e trabalho para poderem realmente acreditar que são capazes de virar esta página da história, sem culpa, sem constrangimento. Falta a sociedade brasileira admitir que a discriminação racial ainda existe e que a sociedade como um todo tem uma dívida e precisa pagá-la, mesmo que com processos impositivos, mas que proporcione igualdade de oportunidades para negros, índios, brancos, mulheres.

Isso não é nenhum favor. Isso se faz necessário para equilibrar as relações dentro da nossa sociedade e criar condições de crescimento para todos. As práticas de racismo devem ser combatidas de forma severa de acordo com o que já estabelecem as leis, que se pautam pelo artigo 5º, inciso XLII da Constituição (“a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão”). Já as políticas públicas responsáveis pela igualdade de condições e tratamento entre as pessoas é responsabilidade do Estado e cabe o entendimento e o cumprimento de todos nós.

 

* Vera Lícia Arimatéia é jornalista e economista em Cuiabá e membro do Grucon (Grupo de União e Consciência Negra do Estado de Mato Grosso)

 




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