O
acompanhamento espiritual e os exercícios espirituais de Santo Inácio de
Loyola
*
Por Arlene Lúcia Monteiro Klein
“A
direção espiritual é um tema no mínimo fascinante, sedutor: ajudar os
outros a encontrar-se consigo mesmos, com os outros e com Deus para ter
uma vida espiritual e humana de qualidade.
É um método informal de educação do ser humano integral, em que
todas as nossas faculdades são colocadas a serviço do outro e
especialmente do Reino de Deus.”
“A
alma virtuosa, mas sozinha e sem mestre, é como o carvão aceso que está
isolado: antes se vai esfriando que acendendo”.
Na
conjuntura atual, o tempo é cada vez menor para a realização das
atividades diárias; o número de informações a serem absorvidas e
utilizadas pelo ser humano é cada vez maior; os valores sociais,
familiares e religiosos se perdem em meio a tantas novidades, trazidas
pelos ideais do capitalismo e do consumo. Diante de tantas propostas e
ideologias, muitas vezes nos sentimos desnorteados e necessitados de
orientação.
Quando a necessidade do ser humano se distancia somente do campo
material, riquezas, bens e poder; quando ele é seduzido pelo essencial e
busca a perfeição, desejando “as
coisas do alto”, a
direção espiritual se mostra como um caminho para a harmonia
e liberdade interior.
Importante frisar que, neste contexto, a perfeição consiste na
docilidade espiritual, na escuta de Deus, deixando-se moldar pelo
Criador.
Com certeza, o maior guia espiritual de todos os tempos é Jesus Cristo –
o caminho, a verdade e a vida.
O
protagonista da direção espiritual é o Espírito Santo, que anima o ser
humano na busca da perfeição, não como uma realidade absoluta, mas como
um horizonte, um forte desejo a ser alcançado.
O
primeiro manual de direção espiritual é a Sagrada Escritura, em que Deus
ensina e conduz o seu povo para uma “terra
em que mana leite e mel”, “para
que todos tenham vida e vida em abundância.”
No
acompanhamento espiritual a pessoa se dispõe a descobrir seus dons e
carismas, para colocá-los a serviço dos outros, mediante profunda
atitude de escuta interior.
Por outro lado, aquele que faz o acompanhamento, na condição de
humilde servidor, tem por missão apontar caminhos, baseados na
palavra de Deus, na experiência dos místicos, nas diversas experiências
de vida, presenciadas e observadas, que possam servir de orientação para
o acompanhado.
Longe de imposições e conselhos, a direção espiritual consiste mais em
uma ajuda fraterna, tendo como ponto de partida as experiências, o
conhecimento e a liberdade daquele que se dispõe a trilhar esse caminho
de descoberta e renascimento.
Desta forma, três são os protagonistas da direção espiritual - Deus, a
pessoa e o acompanhante espiritual.
Deus, que gratuita e amorosamente purifica e orienta aquele que busca a
realização do seu projeto.
A
pessoa, que sai do comodismo, buscando o conhecimento interior,
assumindo o seu “eu”, trilhando os caminhos das opções na vida e
confirmando-as diante da radical opção de Jesus Cristo na cruz, na
esperança da ressureição e da vida plena.
O
acompanhante espiritual, sempre vigilante e atento, ajuda a pessoa a
perceber como Deus fala e se revela nos acontecimentos de sua vida,
animando-a a decidir seus próprios caminhos de amor e serviço.
Santo Inácio, fundador da Companhia de Jesus, buscou mestres espirituais
do seu tempo para ajudá-lo a entender a diversidade de sentimentos que
lhe assolavam a alma, a partir de uma grande enfermidade, bem como
os desejos que surgiam em seu coração.
E assim, partindo da própria experiência de oração e vida, deixa
um tesouro ao patrimônio da Igreja, os EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS.
A
riqueza dos Exercícios Espirituais vem sendo partilhada entre os
cristãos, religiosos e leigos e não somente entre os Jesuítas, como
instrumento de crescimento espiritual, de discernimento pessoal e
comunitário.
Os
Exercícios Espirituais, na pedagogia do mestre espiritual Santo Inácio
de Loyola, tem por finalidade auxiliar aquele que se dispõe a
“vencer a si mesmo e a ordenar a
sua vida sem se determinar por afeição alguma que seja
desordenada.”(...)
A
metodologia dos Exercícios se desenvolve entre orações pessoais e
partilhas com o acompanhante, em etapas bem definidas, divididas em 04
(quatro) semanas (aqui consideradas como um tempo espiritual e não
cronológico), tendo como protagonista principal o Espírito Santo e o
exercitante.
O
acompanhado começa os Exercícios Espirituais rezando a sua história,
sendo convidado a encontrar o
Princípio e Fundamento da sua vida.
Na
primeira semana, ele é
convidado a contemplar o mundo, sentindo-se como parte dele, meditando
sobre os pecados sociais e pessoais, na perspectiva de um pecador,
perdoado pelo Deus criador e misericordioso.
Na
segunda semana da caminhada, por meio de orações
contemplativas, o exercitante passa a conhecer mais afetivamente a vida
de Jesus Cristo, para mais amá-Lo e Segui-Lo, sentindo-se convidado a
participar de Suas lutas e depois, da Sua Glória, começando a eleger os
meios e a vida para a qual se sente chamado.
Na
terceira semana, o caminheiro é movido a revive a
paixão e morte de Jesus Cristo, meditando e contemplando com os sentidos
e com tristeza, os momentos cruciais da vida do Mestre, sentindo e
partilhando das Suas dores
e dos crucificados do mundo atual.
Na
quarta semana, o exercitante é convidado a contemplar,
com alegria a ressureição de Jesus Cristo, pedindo a graça de amar a
Deus em tudo e em todos, “para
maior glória de Deus”, como dizia Santo Inácio.
Os
Exercícios Espirituais, riqueza para os cristãos, nos dias atuais, são
um grande instrumento para o crescimento pessoal e comunitário, visando
uma vida de amor e serviço.
*Arlene Lúcia Monteiro Klein, da equipe de Espiritualidade CBFJ
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