O acompanhamento espiritual e os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola

 

* Por Arlene Lúcia Monteiro Klein

 

“A direção espiritual é um tema no mínimo fascinante, sedutor: ajudar os outros a encontrar-se consigo mesmos, com os outros e com Deus para ter uma vida espiritual e humana de qualidade.  É um método informal de educação do ser humano integral, em que todas as nossas faculdades são colocadas a serviço do outro e especialmente do Reino de Deus.” (Frei Patrício Sciadini, OCD)

 

“A alma virtuosa, mas sozinha e sem mestre, é como o carvão aceso que está isolado: antes se vai esfriando que acendendo”. (São João da Cruz)

 

Na conjuntura atual, o tempo é cada vez menor para a realização das atividades diárias; o número de informações a serem absorvidas e utilizadas pelo ser humano é cada vez maior; os valores sociais, familiares e religiosos se perdem em meio a tantas novidades, trazidas pelos ideais do capitalismo e do consumo. Diante de tantas propostas e ideologias, muitas vezes nos sentimos desnorteados e necessitados de orientação.

Quando a necessidade do ser humano se distancia somente do campo material, riquezas, bens e poder; quando ele é seduzido pelo essencial e busca a perfeição, desejando “as coisas do alto”,  a direção espiritual se mostra como um caminho para a harmonia  e liberdade interior.

Importante frisar que, neste contexto, a perfeição consiste na docilidade espiritual, na escuta de Deus, deixando-se moldar pelo Criador.

Com certeza, o maior guia espiritual de todos os tempos é Jesus Cristo – o caminho, a verdade e a vida.

O protagonista da direção espiritual é o Espírito Santo, que anima o ser humano na busca da perfeição, não como uma realidade absoluta, mas como um horizonte, um forte desejo a ser alcançado.

O primeiro manual de direção espiritual é a Sagrada Escritura, em que Deus ensina e conduz o seu povo para uma “terra em que mana leite e mel”,para que todos tenham vida e vida em abundância.”

No acompanhamento espiritual a pessoa se dispõe a descobrir seus dons e carismas, para colocá-los a serviço dos outros, mediante profunda atitude de escuta interior.

Por outro lado, aquele que faz o acompanhamento, na condição de  humilde servidor, tem por missão apontar caminhos, baseados na palavra de Deus, na experiência dos místicos, nas diversas experiências de vida, presenciadas e observadas, que possam servir de orientação para o acompanhado.

Longe de imposições e conselhos, a direção espiritual consiste mais em uma ajuda fraterna, tendo como ponto de partida as experiências, o conhecimento e a liberdade daquele que se dispõe a trilhar esse caminho de descoberta e renascimento.

Desta forma, três são os protagonistas da direção espiritual - Deus, a pessoa e o acompanhante espiritual.

Deus, que gratuita e amorosamente purifica e orienta aquele que busca a realização do seu projeto.

A pessoa, que sai do comodismo, buscando o conhecimento interior, assumindo o seu “eu”, trilhando os caminhos das opções na vida e confirmando-as diante da radical opção de Jesus Cristo na cruz, na esperança da ressureição e da vida plena.

O acompanhante espiritual, sempre vigilante e atento, ajuda a pessoa a perceber como Deus fala e se revela nos acontecimentos de sua vida, animando-a a decidir seus próprios caminhos de amor e serviço. 

Santo Inácio, fundador da Companhia de Jesus, buscou mestres espirituais do seu tempo para ajudá-lo a entender a diversidade de sentimentos que lhe assolavam a alma, a partir de uma grande enfermidade, bem como os desejos que surgiam em seu coração.   E assim, partindo da própria experiência de oração e vida, deixa um tesouro ao patrimônio da Igreja, os EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS.

A riqueza dos Exercícios Espirituais vem sendo partilhada entre os cristãos, religiosos e leigos e não somente entre os Jesuítas, como instrumento de crescimento espiritual, de discernimento pessoal e comunitário.

Os Exercícios Espirituais, na pedagogia do mestre espiritual Santo Inácio de Loyola, tem por finalidade auxiliar aquele que se dispõe a “vencer a si mesmo e a ordenar a sua vida sem se determinar por afeição alguma que seja desordenada.”(...)

A metodologia dos Exercícios se desenvolve entre orações pessoais e partilhas com o acompanhante, em etapas bem definidas, divididas em 04 (quatro) semanas (aqui consideradas como um tempo espiritual e não cronológico), tendo como protagonista principal o Espírito Santo e o exercitante.

O acompanhado começa os Exercícios Espirituais rezando a sua história, sendo convidado a encontrar o Princípio e Fundamento da sua vida.

Na primeira semana, ele é convidado a contemplar o mundo, sentindo-se como parte dele, meditando sobre os pecados sociais e pessoais, na perspectiva de um pecador, perdoado pelo Deus criador e misericordioso.

Na segunda semana da caminhada, por meio de orações contemplativas, o exercitante passa a conhecer mais afetivamente a vida de Jesus Cristo, para mais amá-Lo e Segui-Lo, sentindo-se convidado a participar de Suas lutas e depois, da Sua Glória, começando a eleger os meios e a vida para a qual se sente chamado.

Na terceira semana, o caminheiro é movido a revive a paixão e morte de Jesus Cristo, meditando e contemplando com os sentidos e com tristeza, os momentos cruciais da vida do Mestre, sentindo e partilhando das  Suas dores e dos crucificados do mundo atual.

Na quarta semana, o exercitante é convidado a contemplar, com alegria a ressureição de Jesus Cristo, pedindo a graça de amar a Deus em tudo e em todos, “para maior glória de Deus”, como dizia Santo Inácio.  

Os Exercícios Espirituais, riqueza para os cristãos, nos dias atuais, são um grande instrumento para o crescimento pessoal e comunitário, visando uma vida de amor e serviço.

                                              

*Arlene Lúcia Monteiro Klein, da equipe de Espiritualidade CBFJ

 




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