Para os que desejarem, segue um artigo que escrevi
a partir do que pude ver, ouvir e compreender da Amazônia em recente
viagem a Óbidos, para o Seminário Mudanças Climáticas. ACELERAÇÃO DO CRESCIMENTO X AMAZÔNIA Já estava preocupado antes, mas o que pude ouvir das quase duzentas
pessoas que participaram do Seminário Mudanças Climáticas promovido pela
Prelazia de Óbidos me deixou preocupadíssimo. Mais do que isso: deu-me
segurança para afirmar que os grandes projetos econômicos incentivados a
toque de caixa pelo Programa de Aceleração do Crescimento na Amazônia já
estão, com certeza, acelerando o aprofundamento dos desequilíbrios
socioambientais na região e levarão a região a um desastre
socioambiental incalculável. Ao examinar, por enquanto em mapas, a quantidade de território
amazônico que vai sendo e será coberto pelas águas das barragens para
produção de eletricidade; ao somar a ele a quantidade de áreas já
ocupadas e desbravadas por mineradoras e as que estão em processo de
concessão de alvará para pesquisa mineraria; ao somar, ainda, as áreas
destinadas à pecuária e à soja do agronegócio; ao juntar essas
informações, não restam dúvidas sobre essa parte e, talvez, sobre toda a
Amazônia: se não houver oposição eficaz, ela será totalmente modificada
e depredada dentro de pouco tempo. Quem assumirá as responsabilidades pelos efeitos desse processo sobre
o aquecimento da região e de sua contribuição com o aquecimento global?
Quem responderá as perguntas das próximas gerações, quando quiserem
saber por que foram implementados esses grandes projetos quando havia
possibilidade de gerar energia com fontes alternativas; quando já se
devia diminuir a utilização de minérios; quando já existiam
conhecimentos e possibilidades de produzir alimentos agroecológicos;
quando já se sabia que o planeta exigia a diminuição do plantel de gado,
por ser produtor de metano e ser grande consumidor de água e alimentos
ricos em proteínas? Uma das grandes contradições do tempo em que vivemos é essa: a Terra,
já em desequilíbrio, precisa que as atividades econômicas capitalistas
diminuam seu ritmo, mas as empresas capitalistas, e muitos governos,
teimam em aumentar o ritmo de “destruição produtiva”, visando um tipo de
economia que exige lucros crescentes, que exigem produção e consumo
crescentes. Esse conflito contraditório está absolutamente visível na Amazônia.
Se os grandes projetos de exploração dos recursos da Amazônia – e
praticamente só em benefício de grupos econômicos de fora do bioma -,
serão vazios e ineficazes os compromissos anunciados pelo governo
brasileiro, e estarão fadadas ao fracasso as políticas que anunciam
objetivos de diminuição do desmatamento e de preservação da Amazônia. Se
o governo quiser fazer algo sério deverá partir de um fato já
comprovado: não há possibilidade de acordo entre as necessidades e
direitos da Amazônia e dos amazônidas e os interesses das grandes
empresas capitalistas. Por isso, os amazônidas que desejarem viver, junto com seus filhos e
netos, nesse maravilhoso bioma, bem como as pessoas, igrejas, entidades
e governos que desejarem salvar a Amazônia como parte do que é
absolutamente necessário para criar condições para que a Terra recupere
seu equilíbrio em favor da vida, todos e todas, num grande mutirão
cidadão, deverão lutar em favor de mudanças na visão e nas prioridades
do governo federal e dos governos dos estados amazônicos. Na verdade, todos e todas deveremos aceitar que precisamos enfrentar
criticamente e mudar a civilização capitalista em que fomos criados,
abrindo-nos para outras formas de produção, consumo, outras formas de
convivência entre nós, com os demais seres vivos e com a Terra, mãe de
toda a vida. Os povos indígenas da nossa América nos propõem o bem
viver como caminho alternativo. Seremos capazes de acolher esta
proposta que vem dos que foram sempre considerados os últimos dos
últimos e que foram condenados, durante cinco séculos, ao extermínio?
Diversas religiões e o cristianismo nos avisam: é dos empobrecidos, como
Jesus, que vêm boas notícias. |