O
difícil caminho para a autonomia do Povo indígena Mỹky
*
Por Augusto Pereira
O
povo indígena Mỹky
(pronuncia-se Minquí) sofreu
um grave dano ambiental: no final da última seca um incêndio gigantesco
queimou uma grande área de floresta. Preocupadas com isso as pessoas
buscaram recursos na prefeitura e tiveram apoio do Ibama para aumentar a
largura do aceiro que delimita o início da Terra Indígena. Esse foi
apenas o início de grandes dores de cabeça.
Estive em dezembro na Terra Indígena Mỹky,
no município de Brasnorte, no Noroeste de Mato Grosso. Isso é estranho
quando falamos de povos indígenas. A terra não fica no município de
Brasnorte, o município é que se formou em volta da Terra Indígena. Ao
encontrar algumas lideranças Mỹky
já ouvi a conversa indignada sobre a acusação de que eles estão vendendo
madeira.
As lideranças criticavam a Funai que, segundo elas, viu o aceiro e antes
de perguntar o que estava acontecendo, tomou conclusões precipitadas. A
situação dos Mỹky
não é diferente da maioria das TI do estado, rodeadas de fazendas de
gado, soja e retirada ilegal de madeira.
O recurso que conseguiram pela prefeitura foi de 15 mil reais, uma
parcela do montante que a prefeitura de Brasnorte recebe mensalmente na
rubrica do ICMS ecológico.
Nos últimos sete anos o município recebeu R$ 52.109.939,64 e o povo Mỹky
tem recebido apenas 15 mil reais por mês.
O ICMS Ecológico é uma importância paga pelo estado aos municípios que
contém Terras Indígenas ou Unidades de Conservação.
O valor é dado pelo serviço prestado pelo município para o meio
ambiente. O correto é usar uma parcela desse valor para divulgar as
riquezas naturais e culturais e para investir em sua preservação. Ao
invés disso os municípios fazem um pequeno repasse para os indígenas,
como se fosse um favor. Para Brasnorte o ICMS Ecológico é mais lucrativo
que a pecuária ou a soja.
O
que causa estranhamento no comportamento da Funai (acusação de venda de
madeira) é que os Mỹky
acessaram o recurso público a que têm direito, usaram para o bem da
comunidade, decidiram e aplicaram corretamente o recurso. O aceiro
permite o controle de um possível incêndio vindo da fazenda que faz
divisa com a Terra Mỹky.
A
autonomia dessa comunidade indígena nos mostra o quanto ela quer
continuar a manter seu modo de vida, seu orgulho, sua independência.
Conversando com as pessoas parece comum o sentimento de que não querem
ser engolidas pelas cidades nem perder os elementos essenciais da
cultura Mỹky.
Não é a primeira vez que vou até lá, mas nesses dias pude entender muito
mais sobre o jeito de ser deles. Fui fazer um trabalho de comunicação e
registro de alguns aspectos da cultura Mỹky.
Por isso conversei com os mais velhos, brinquei com as crianças,
planejei com os professores e entendi um pouco mais sobre a existência
teimosa de um povo que quase foi exterminado e está em franco
crescimento populacional. Apesar disso, sei que nem arranhei a casquinha
desse fruto.
O
que me surpreendeu nesse momento é como os professores, que são jovens
lideranças, estão aprendendo cada vez mais sobre os processos
burocráticos das instituições responsáveis pelas questões indígenas.
Essas instituições são a Funai, a Funasa, a Seduc, o Ibama e de certa
forma, a prefeitura. Compreendendo o que é competência de cada um, os Mỹky,
assim como outros povos, estão acessando de forma mais objetiva e
propositiva cada instituição.
* Augusto Pereira é Comunicador Social formado em Rádio e TV, atua com
questões ambientais, com foco na valorização das relações comunitárias.
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