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Ganhar tempo é possível?
Eliseu Alves
Resumo
O trabalho dimensiona a concentração da produção –
tanto a destinada ao autoconsumo quanto a vendida, do ponto de
vista dos estabelecimentos. Verificou-se que 424 mil
estabelecimentos (8,2% dos 5,2 milhões de estabelecimentos
reportados pelo Censo Agropecuário de 2006) foram responsáveis
por 85% da produção declarada . Cada estabelecimento desse
estrato produziu por mês, em média, R$ 24.012,50, equivalentes a
80 salários mínimos. Desses, apenas 22.188 (5,23%)
estabelecimentos produziram 51,34% do valor da produção. Em
seguida, estão os 975.974 estabelecimentos da classe (7.200,00,
36.000,00], em R$/ano, que correspondem a 18,9% do número total
de estabelecimentos e geraram 11,1% do valor da produção
declarada . Os estabelecimentos desse estrato geraram por mês,
em média, R$ 1.360,38, ou seja, quatro e meio salários mínimos.
Finalmente, seguem-se os estabelecimentos da classe [0,
7.200,00], em número de 3,8 milhões (72,96% do total). Geraram
valor de produção correspondente a 4,04% do total, sendo R$
128,13, em média, por estabelecimento/mês, ou 0,43 salário
mínimo (de 2006). Portanto, estamos diante de imensa
concentração da produção e, ressalte-se, não estamos falando de
concentração de renda, a qual, para ser estabelecida, exigiria
conhecimento da renda líquida.
O primeiro
grupo de estabelecimentos pode ser atendido por políticas de
alcance geral, que em geral se somam às tendências predominantes
no mercado, e tem condições de resolver o seu problema de renda
dentro da agricultura comercial na qual já se insere. O mesmo se
dá com o segundo grupo, desde que bem assistido por políticas
específicas.
Já a solução agrícola para a pobreza do terceiro grupo é
bem mais complexa e desafiadora da capacidade dos governantes e
dirigentes públicos de conceber e implementar políticas
consistentes com a extensão e a profundidade do desafio. Engloba
11,3 milhões de pessoas (admitindo a média de três por
estabelecimento), fortes candidatas a optarem pelo endereço
urbano, visto terem plena consciência do custo de oportunidade
da opção de vida rural comparada à da urbana. Em princípio, nada
há, filosoficamente, que recomende evitar tal migração, dado que
aí está em jogo o direito de ir e vir, um dos mais fundamentais
na sociedade contemporânea. Contudo, torna-se recomendável
examinar alternativas de políticas capazes de tornar a opção de
residência no campo mais atrativa às famílias do que a urbana,
oferecendo-lhes perspectivas de progresso pessoal. Para tanto, é
necessária forte dose de política assistencialista. No Nordeste,
residem 47,09% de toda a população rural. De acordo com o Censo
Agropecuário 2006, conforme dados fornecidos pelo IBGE, 47,42%
de todos os estabelecimentos estão lá. A produção por
estabelecimento, naquele ano, correspondeu a R$ 11.578,44 contra
R$ 27.789,50 para o Brasil. Vê-se então que reside no Nordeste
grande parte do desafio da pobreza rural brasileira, e é lá que
se deve concentrar a maior parte das políticas
assistencialistas.
Introdução
A política
agrícola contém instrumentos de alcance geral, como a política
de preços, controle de qualidade, crédito rural – aqui há grupos
mais favorecidos –, exportação, geração de tecnologia, e
preservação do meio ambiente. Esse tipo de política tem a
vantagem de minimizar as distorções das ações do governo. Mas há
os instrumentos de caráter específico, cujo objetivo principal é
segurar a população no meio rural; por isso, visam à agricultura
familiar, aos assentados da reforma agrária e a atender às
reivindicações de terra dos sem-terra. A razão de ser das
políticas específicas é frear a ação do mercado, pela qual os
campos seriam esvaziados muito mais rapidamente. Assim se faz no
mundo desenvolvido como no em desenvolvimento, com a visão de
ganhar tempo para o ajuste do mercado urbano de trabalho. Como
resultado dessas políticas, mantém-se muito mais gente no meio
rural do que este normalmente comporta, na expectativa de que se
minimizem os problemas urbanos.
Há, ainda,
políticas para toda a sociedade, como as de educação,
infra-estruturar e saúde, que são fundamentais, mas,
infelizmente, de qualidade e em quantidade que discriminam o
meio rural.
O trabalho relata a
enorme concentração da produção em poucos estabelecimentos.
Dimensiona o número de estabelecimentos para os quais se julga
possível uma solução na agricultura para o problema de baixa
renda e o número daqueles que precisam de outro tipo de ajuda.
Há alguma menção ao Programa Nacional de Fortalecimento da
Agricultura Familiar (Pronaf), mas em nenhum momento ele está
sendo avaliado.
Dimensão do problema
No meio rural, quantos
estabelecimentos precisam apenas de políticas gerais, e alguma
ajuda específica, como negociação de dívida e socorro em
adversidades como a compra do excedente em condições ruins de
mercado ou em adversidades climáticas. Pelo censo 2006, 424 mil
estabelecimentos (8,2% do total) produziram vendida a produção
mais o autoconsumo, mais de dez salários mínimos mensais. Eles
geraram 85% do valor da produção total (dos 5,2 milhões de
estabelecimentos). Ou seja, esses 424 mil estabelecimentos podem
ficar na conta das políticas gerais, sendo os maiores problemas
a dívida com bancos e fornecedores e a competição desleal do
mundo desenvolvido. E os outros 4,7 milhões, que têm renda bruta
muito baixa? Estes necessitam de políticas específicas. Como
dividi-los?
A)
Cerca de 976 mil estabelecimentos produziram mais de dois
salários mínimos mensais e até 10 salários mínimos mensais,
salário da época do censo, 18,9% do total e geraram 11,1% de
valor da produção. São candidatos às políticas específicas, que
se assentam na hipótese de que há uma solução na agricultura
para o problema de renda, como crédito rural, extensão rural,
associativismo e cooperativismo, compra pelo governo do
excedente, entre tantas.
B) Restam 3,8 milhões de estabelecimentos, que
devem abrigar 11,3 milhões de pessoas (três por
estabelecimentos) . Somente a solução na agricultura não vai
funcionar. Esta precisa ser complementada pelo programa Bolsa
Família, aposentadoria rural, bolsa escola, transporte rural –
urbano para facilitar o estudo dos filhos e o emprego urbano de
membros da família –, simplificação das leis trabalhistas para o
emprego em tempo parcial na agricultura, estímulo do
agronegócio, porque ele tem grande potencial para empregos
temporários. É aqui que se precisa ganhar tempo de modo que as
cidades adquiram capacidade para abrigar parte dessa população.
Note-se, ainda, que metade desse contingente reside no Nordeste.
É importante
detalhar o grupo (0, 2] salários mínimos mensais para mostrar
que a solução agrícola do problema da pobreza tem muito pouca
possibilidade de êxito. Dos 3,8 milhões de estabelecimentos
dessa classe, 579 mil não informaram nem autoconsumo nem venda
da produção (15,34% do 3,8 milhões). Com a produção anual
(incluindo o autoconsumo) de R$ 643,64, há dois milhões de
estabelecimentos (53,35%), e eles pertencem à classe (0,1/2]. A
residência é basicamente moradia, a atividade de agricultura é
insignificante.
Tabela 1.
Distribuição do grupo de (0, 2] salários mínimos mensais (R$
300,00) em classes, número e porcentagem de estabelecimentos e
produção anual média da classe, por estabelecimento, em reais.

A classe (1/2, 1] contém 612 mil estabelecimentos, com produção
anual por estabelecimento de R$ 2.394,08, equivalentes a oito
salários mínimos no ano, ou seja, 0,67 por mês. Sendo três
pessoas por estabelecimento, por pessoa isso equivale a três
salários mínimos no ano. A agricultura como está tem pouca
relevância. A função principal do estabelecimento é também
moradia. Na classe (1, 2], há 570 mil estabelecimentos, com
produção anual média de R$ 4.902,28, de 16,3 salários mínimos,
ou seja, 1,36 salário mimo por mês, ou o equivalente 0,45 por
pessoa. Esta é uma situação melhor, é verdade; contudo, o
estabelecimento ainda é basicamente moradia. A Tabela 1 mostra
essas situações.
Visão geral
Não se procurará
medir a capacidade de os agricultores remunerarem os fatores de
produção. Por isso, o foco não é na renda líquida nem em medidas
de eficiência, mas sim na renda bruta – valor da produção,
incluído nele o autoconsumo. A vantagem é escapar do
problema de imputações em terra, benfeitorias, etc. Ainda mais
para os estabelecimentos de até dois salários mínimos mensais de
renda bruta, esta aproxima à renda do trabalho, quando a terra,
as benfeitorias e os equipamentos pertencem ao proprietário .
Além disso, se a renda bruta estiver baixa, pode-se imaginar o
que acontecerá com a renda líquida!
Os modelos baseados na
hipótese de existência de uma oferta ilimitada de mão de obra
admitiam que o salário não refletisse o custo de oportunidade de
um trabalhador adicional. Na versão mais radical, a
produtividade marginal do trabalho se supunha igual a zero. A
industrialização foi a proposta que decorreu dessa hipótese. Com
ela e a urbanização consequente, o excesso de mão de obra seria
drenado dos campos até que os salários refletissem o custo de um
empregado adicional (FEI; RANIS, 1961; JORGENSON, 1961; LEWIS,
1954).
Mas aquele mundo não se coaduna com o
Brasil de hoje pelas seguintes razões:
1. O Brasil tem 85% da população urbanizada, sendo essa
urbanização saliente até nas cidades de pequeno porte. No
Sudeste, a urbanização é de 93%; no Centro-Oeste, 90%; Sul; 84%;
Nordeste, 73%; e Norte, 72% (ALVES; MARRA, 2009). Portanto, as
oportunidades de empregos urbanos e os salários aí vigentes têm
forte influência nas decisões dos assalariados rurais, bem como
na mão–de-obra familiar. Ainda os mercados urbanos de produtos e
insumos têm reflexos profundos nas decisões das famílias rurais.
Viver isolado, com regras próprias, no âmbito da família, de
remunerar o trabalho familiar, não tem cabimento hoje.
2. Arranjos institucionais, no nível de família, pelos quais o
resíduo que sobra da venda dos produtos, depois de pagos os
dispêndios monetários, é repartido de acordo com alguma regra,
podem até vigorar, mas têm hoje pequena relevância – são
instáveis. Assim, se o valor acordado for menor que o que se
pode obter no mercado, então o arranjo não tem estabilidade, ou
seja, não evita que membros da família migrem ou procurem
emprego noutro lugar. Portanto, os arranjos familiares de
repartição de renda estão pressionados pelo custo de
oportunidade do trabalho. Também a decisão de manter o
estabelecimento em operação, ou suspender seu funcionamento para
mantê-lo somente como residência, ou, no extremo, vendê-lo,
depende da renda que a família obtém em comparação com
alternativas de mercado.
3. O salário mínimo é referência tanto no meio rural quanto no
urbano. Algumas vezes, como piso de referência; outras, como um
teto legal que tem que ser obedecido. Se seu valor, adicionado
de outros custos, inclusive o risco legal, estiver acima do
custo de oportunidade do trabalho, então o salário mínimo é
forte incentivo à mecanização da agricultura. É o que tem
ocorrido. Além disso, muda o padrão de contratação, quando se
busca trabalhadores de grau de instrução elevado e
especializados.
Inegavelmente, o salário
mínimo tem tido papel muito importante em tornar evidente o
custo de um trabalhador adicional, seja o da mão–de-obra
assalariada, seja o da mão–de-obra familiar. Assim, ajudou o
capitalismo, no sentido de que toda ação tem um custo de
oportunidade, a ganhar espaço nos campos, com presença
dominante, exceto em regiões distantes e muito isoladas.
Os membros da família, na
agricultura familiar, também têm o salário mínimo como
referência nas suas decisões de buscar emprego fora do
estabelecimento e de migrar.
4. O mercado internacional está entranhado em toda a nossa
agricultura. Seu vulto atingiu, em 2009, o valor de R$ 121,6
bilhões, num PIB do agronegócio de R$ 758,1 bilhões, ou seja,
16%. O setor externo impõe padrão de competição em termos de
preço e de qualidade. Ele emite sinais claros de oportunidades
de sucessos e de fracassos, o que obviamente sinalizam os custos
de oportunidades para todos os fatores e produtos, tanto nos
setores exportadores quanto nos que somente abastecem o mercado
interno, porque o trabalhador vai preferir o setor que mais bem
o remunera.
5. Antenas parabólicas já fazem parte da paisagem rural. O rádio
tem ainda muito maior cobertura, tanto das rádios locais quanto
das de longo alcance. Acresce-se aos jornais, a presença do
Ministério do Trabalho – sempre atuante –, alertando sobre os
direitos dos trabalhadores e a presença dos movimentos sociais.
Logo, quando se toma uma decisão no meio rural, como trabalhador
ou empreendedor, sabe-se o custo alternativo dela para o negócio
e para família.
Em conclusão, os
arranjos institucionais no seio da família, mesmo na agricultura
familiar, estão sempre pressionados, como critério de decisão,
pelo custo de oportunidade de ficar no meio rural ou migrar para
a cidade. Quando empregado pela família, cabe ainda ao
trabalhador optar pelo tempo parcial, com emprego rural ou
urbano.
Ou seja, a família
compara sua renda familiar com as oportunidades urbanas para
decidir em que local viver. Pode migrar para a cidade e manter o
emprego rural. Mas isso tem implicações de longo prazo no
sentido de os filhos perderem os vínculos com o meio rural e não
o considerarem, por isso, como opção de trabalho. Ou, ainda, a
família pode migrar e optar definitivamente pelo mercado de
trabalho urbano, o que a grande maioria faz. Não fosse assim,
não teria havido queda tão substancial do pessoal ocupado no
meio rural, como mostra gráfico seguinte.

Fonte: Alves e Moura (2009)
Assim, migrar é decisão que envolve comparações que a família
faz, visando seu bem-estar. A decisão final pode levar tempo, e
a opinião de amigos que já migraram tem grande peso nela. A
renda que a família recebe ao administrar o estabelecimento
fundamenta sua decisão de ficar no meio rural ou de por o pé na
estrada para a cidade. Alternativamente, pode manter o
estabelecimento como residência, sem produzir nada, ou muito
pouco, optando por trabalhar como assalariado ou viver de bolsa
família. De fato, em milhões de estabelecimentos, 0,6 não
registrou produção nenhuma, e dois milhões deles registraram um
valor de produção menor ou igual a ½ salário mínimo, salário
vigente 2006, ano do censo. Os dois grupos correspondem a 50,1%
dos 5,2 milhões apurados pelo censo. Esses dois grupos
produziram apenas 0,90% da renda bruta (incluindo autoconsumo)
dos 5,2 milhões de estabelecimentos.
Por que estudar esse problema?
Pela simples razão de que a sociedade vem investindo bilhões de
reais na agricultura familiar e na reforma agrária. A questão
não é ser contra tais investimentos – eles têm presença marcante
nos países avançados e lá também é pequeno o sucesso deles em
reter gente no meio rural –, mas sim verificar se há condições
de se opor às forças que favorecem o êxodo rural e o que deve
ser mudado. Concentraremos a atenção na produção. Melhorar a
produção de cada estabelecimento tem que ser o foco de qualquer
programa que busque uma solução agrícola para o problema do
êxodo rural.
Migração rural-urbana
Nossa posição é que o homem rural
migra porque avalia que sua vida melhorará, ou a da sua família.
Assim, o êxodo rural é um sinal de que o meio rural perde a
competição com a cidade.
Migrar para o meio urbano é uma decisão
extrema. Antes se procura aumentar a renda do estabelecimento;
ou se busca emprego em tempo parcial no meio rural ou urbano,
com residência rural. Migram os filhos, permanecendo os pais na
roça. Depois, estes podem migrar, deixando o estabelecimento
abandonado, sem produção, ou vendê-lo. A Tabela 2 relata somente
o final da história. Detalhes estão em Alves e Marra (2009).
Para entender a Tabela 2, convém notar que a
migração equivale, no mínimo, ao excedente de nascimentos no
meio rural vis-à-vis mortes que optou pelas cidades menos o
retorno de citadinos aos campos. O número de migrantes do
período pode, assim, ser maior que a diferença entre a população
rural do período base e a do final. A velocidade de migração é o
número de migrantes do período dividido pela população do ano
base. Os números indicam queda da velocidade de migração
no último período.
Analisando a tabela 2, a seguir, os seguintes
fatos merecem realce:
a. O êxodo rural perdeu ímpeto, mas ainda é expressivo no
Sudeste, pois nesta região existe um mercado de trabalho urbano
poderoso, que oferece muitas oportunidades. Lá, chama a atenção
o pequeno tamanho da população rural apesar da pujança de sua
agricultura. É caso típico de atração das cidades que dominou a
atração da roça. Expressa, claramente, a visão do custo de
oportunidade, urbis versus campo.
b. O Nordeste rural perdeu 1,7 milhões de pessoas. Lá, ainda
vive 47,1% da nossa população rural.
c. A migração rural acelera-se na região Norte. Os mercados
urbanos se desenvolvem, com reflexos fortes na agricultura.
Menos gente nos campos pode significar menor pressão sobre a
floresta, se a pesquisa desenvolver tecnologias que poupem a
terra.
d. No per[iodo 2000 – 2007, quatro milhões de pessoas migraram
em todo o Brasil, mas a redução da população rural foi pequena
em todas as regiões e no Brasil. No Centro-Oeste, houve retorno
de população, embora pequeno.
e. O fato de a população que restou no meio rural ser
pequena, à exceção do Nordeste, explica, em parte, a queda no
êxodo rural. Mas, o mercado de trabalho urbano tem muito poder
na decisão da família rural, como mostram o Sudeste e o
Nordeste. Mas a prosperidade da agricultura também tem grande
poder de reter população no campo, como mostrou o Centro-Oeste.
E o efeito dos programas de reforma agrária e agricultura
familiar? No Nordeste, Sudeste e Norte, eles ficaram em
desvantagem em relação às forças de atração das cidades. Outra
evidência é a queda acentuada da ocupação rural, como já
mostrado
em gráfico. Deve-se, contudo, reconhecer que
parte importante dos estabelecimentos está fora do alcance
desses programas e, portanto, não há como esperar seus
benefícios.
Na seção seguinte, ficará evidenciado, no Brasil e regiões, que
a renda bruta de enorme contingente de estabelecimentos é muito
pequena e, se estes estiverem fora do alcance dos mencionados
programas, não há como esperar efeito deles. Tivéssemos
analisados os diretamente beneficiados pelos programas, outras
poderiam ter sido as conclusões. Mas procuramos pelo efeito
global, ainda não visível. Convém, contudo, salientar que renda
bruta anual inferior a dois salários mínimos mensais sinaliza
grande potencial de migração.
Tabela 2.
População rural do Brasil e regiões de 1991, 2000 e 2007 e
número de migrantes dos períodos 1991–2000 e 2000–2007

Valor da produção anual
Dada
a fortíssima inter-relação entre os mercados urbano e rural, a
grande maioria dos empreendedores rurais – pequenos,
médios ou grandes – tem plena consciência do custo de
oportunidade de suas decisões. Por essa razão, a definição
corrente de agricultura familiar serve apenas para separar quem
vai se beneficiar, ou não, de políticas do governo. Não
representa paradigma de tomada de decisão pela família diferente
daquele da chamada agricultura comercial. E, assim, é melhor
considerar o meio rural como povoado de pequenos, médios e
grandes produtores e de uma população de assalariados, em forte
declínio, para efeito de análise. Há os estabelecimentos sob
administração da família, com mão de obra assalariada ou não – a
grande maioria dos estabelecimentos brasileiros pertence a essa
categoria –, e há também aqueles em que predomina o trabalho
assalariado, administrados pelo proprietário ou por
profissionais. Mas todos eles procuram obter o máximo dos
recursos que comandam, porque é assim que o mercado sinaliza.
Pode haver alguns que se baseiem em modelos sofisticados de
decisão, certamente a imensa minoria. Tentativa–e-erro, imitação
dos bem sucedidos, falências, assistência técnica e uma miríade
de procedimentos movem os agricultores a buscarem o melhor ao
seu alcance. E esse melhor pode significar empregar parte da
mão–de-obra familiar fora do estabelecimento, na roça ou na
cidade, migrar, vender o estabelecimento ou modernizá-lo. É
natural haver demora, porque é preciso avaliar cuidadosamente
cada decisão, sobretudo o risco, aconselhar-se com amigos e
sondar o meio urbano. Mas, persistindo renda baixa, isso
fatalmente implicará em êxodo rural, porque, hoje, a família e
seus membros têm consciência das alternativas a que podem
recorrer. Se o objetivo da política é reter população no meio
rural, não há como escapar de fazer com que cada estabelecimento
produza renda competitiva com aquela que família poderia obter
na cidade.
Pela Tabela 3, dos 5,2 milhões de estabelecimentos, 2,5 milhões
deles estão no Nordeste; portanto, 47,4% do total. Em mil reais,
a produção anual média do estabelecimento nordestino
correspondeu a 11,6; nas demais regiões, os valores são estes:
Norte, 12,9; Centro-Oeste, 62,5; Sudeste, 52,0; e Sul, 41,2.; o
valor para o Brasil é de 27,8. Assim, apesar de o Nordeste
concentrar cerca de 50% dos estabelecimentos, estes produziram
menos da metade da média brasileira. Comparada com a produção do
Sudeste, Sul e Centro-Oeste, a situação fica ainda mais
desfavorável àquela região. Note-se que o Nordeste abriga 47,1%
de toda a população rural brasileira, e a renda média pequena de
seus estabelecimentos aponta para o enorme potencial migratório
daquela região. Esse potencial resultará em migração em massa,
como tem ocorrido. E caso a renda média não suba, a situação
pode até se agravar.
Para facilitar a discussão sobre o grupo mais pobre,
apresenta-se um resumo da Tabela 3 em termo do número de
estabelecimentos, valor da produção até dois salários mínimos
mensais (R$ 3.600,00 por ano), porcentagem em relação ao número
de estabelecimentos da região e em relação à renda bruta da
região e valor médio da produção anual, em salários mínimos
mensais (vmpsm).
Brasil: 3.775.826, 72,96 %; % produção, 4,04%;
vmpsm, 0,43.
Sul: 477.283, 47,43%; % produção, 2,60%; vmpsm, 0,63.
Norte: 360.190, 75,71%; % produção, 11,07; vmpsm, 0,53.
Nordeste: 2.149.278, 87,58 %; % produção, 9,64% vmpsm, 0,35.
Centro-Oeste: 216.215, 68,10%; % produção, 1,66%; vmpsm, 0,43.
Sudeste: 567.751, 61,57 %; % produção, 1,79%; vmpsm, 0,46.
Dos estabelecimentos do censo agropecuário 2006, 3,8 milhões
(72,96%) relataram produção anual por estabelecimento, inclusive
autoconsumo, no valor de 0,43 salário mínimo mensal.
Contribuíram com apenas 4,04% da produção nacional. Destes, 2,1
milhões estão no Nordeste. Em todas as cinco regiões o vmpsm é
bem inferior a um salário mínimo mensal. Sendo assim, o
estabelecimento não tem condições de sustentar sequer um
trabalhador. Dificilmente eles têm acesso às políticas do
Pronaf. Não é simples uma solução agrícola para o problema que
enfrentam essas famílias. Quantos vivem em suas casas? Caso
sejam três por estabelecimento, então são 11,3 milhões de
pessoas. Que fazer? Bolsa família, aposentadoria rural,
facilitar o emprego no meio rural e no urbano, irrigação,
frutas, indústria caseira, facilitar a migração, etc. Por que
não estudar detalhadamente o grupo? Alves et al. (2006)
estudaram cinco amostras de pequenos agricultores, que se
enquadravam no Pronaf, quatro delas nordestinas e uma sulina. Os
autores encontraram 53,4% de estabelecimentos no Sul e acima de
70% no Nordeste com renda líquida negativa, mostrando que há
agricultores – poucos, é verdade –, entre os pobres, em situação
bem melhor. Não foi a tecnologia que explicou a diferença, mas
sim a aplicação ao trabalho. Essa linha de análise precisa ser
aplicada em todo o Brasil.
O estabelecimento cujo valor da produção anual é maior do que
dois salários mínimos e menor ou igual a 10 salários mínimos
mensais (7.200,00, 36.000,00], no ano, tem solução na
agricultura para o problema de renda. Pelo procedimento
anterior,
Brasil: freqüência, 975.974, 18,86%; % produção total, 11,08%;
vmpsm, 4,53.
Sul: freqüência, 357.187, 35,50%; % da produção região, 15,12%;
vmpsm, 4,88.
Sudeste: freqüência, 226.625, 24,58%; % da produção região,
7,83%; vmpsm, 4,60.
Centro-Oeste: freqüência, 71.287, 22,45%; % da produção região,
5,56%; vmpsm, 4,30.
Nordeste: freqüência, 228.076, 9,29%; % da produção região,
12,19%; vmpsm, 4,22.
Norte: freqüência, 92.799, 19,50%; % da produção região, 21,79%;
vmpsm, 4,01.
O grupo dessa classe, que corresponde a 18,86% dos 5,2 milhões
de estabelecimentos, contribuiu com 11,08% do valor da produção
nacional. Acrescendo esse valor à contribuição do grupo
anterior, totaliza-se 15,12% da produção total, envolvendo
91,65% dos estabelecimentos. Logo, 8,18% deles, 423.689
estabelecimentos, produzem 84,89% da produção. Ou seja, a
produção está concentrada num pequeno número de
estabelecimentos, que são a base do agronegócio brasileiro.
Ainda mais, os que produziram mais de 200 salários mínimos
mensais, em número de 22.188, sozinhos foram responsáveis por
51,34% da produção.
A saída da pobreza para o grupo (2,10] é fazer cada hectare
produzir mais, ou seja, usar tecnologias que poupam a terra.
Plantio e tratos culturais manuais não resolvem o problema.
Logo, a mecanização, mesmo que de pequeno porte, tem que vir ao
lado da tecnologia bioquímica, E isso exige assistência técnica
de boa qualidade e aliada ao crédito rural. O planejamento tem
que cobrir o lar e o estabelecimento, com etapas rigorosamente
acordadas com a família e antes avaliadas pela pesquisa. Capital
e conhecimento andam de mãos dadas. Caso contrário, virá o
fracasso.
Trata-se de quase um milhão de famílias, bem distribuídas nas
regiões, sendo 67% delas no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, e estas
regiões têm melhores condições de atendê-las e oferecem melhores
opções urbanas de emprego. Mas é um imenso desafio!
A pesquisa tem que dividir o grupo em subgrupos,
estabelecer metas de renda e organizar o conhecimento para cada
etapa de renda, tendo antes avaliado o risco. Obviamente, a
extensão rural participará do exercício. Depois, caberá à
extensão rural negociar o plano com a família, ou grupo de
famílias, e assinar um contrato com as responsabilidades
especificadas, de preferência com as sanções também
especificadas. Usando sabiamente os recursos da comunidade, de
modo a envolvê-la no programa, 10 mil extensionistas poderiam
dar conta do recado. Parte desse contingente já está nas
Emateres e, com algum treinamento, tem condições de dar conta do
recado. As cooperativas, associações de produtores e ONGs
especializadas receberiam recursos públicos para contratar e
gerir o programa que lhes couber. Reconhece-se que há ações em
curso nessa direção, mas necessitam ser ampliadas a
aprofundadas.
O grupo de estabelecimentos que produziu (autoconsumo
incluído) mais de R$ 36.000,0 no ano (10 salários mínimos
mensais) correspondeu a 423.689 estabelecimentos, 8,18% do total
de estabelecimentos, e geraram 84,89% do valor da produção.
Estão assim distribuídos:
Brasil: freqüência, 423.689, 8,18%; % da produção total,
84,89%; vmpsm, 80,04.
Sul: freqüência, 171.711, 17,07%; % da produção região, 82,28%;
vmpsm, 55,19.
Sudeste: freqüência, 122.565, 13,29%; % da produção região,
90,18%; vmpsm, 98,01.
Centro-Oeste: freqüência, 29.976, 9,44%; % da produção região,
92,65; vmpsm, 170,35.
Nordeste: freqüência, 76.651, 3,12%; % da produção região,
78,17%; vmpsm, 80,48.
Norte: freqüência, 22.786, 4,79%; % da produção região, 67,14%;
vmpsm, 50,32.
Os estabelecimentos dessa
classe alcançaram, por estabelecimento, um valor mensal de
produção de R$ 24.012,55, e são responsáveis por 85% da
produção. Necessitam de crédito rural a taxas de juros
competitivas com o mercado internacional, desobstrução dos
canais de comercialização, no plano interno e no externo,
proteção contra risco climático e contra variações atípicas de
preços, estímulo à pesquisa, sem o que fica difícil competir com
os países desenvolvidos e de infra-estrutura de transportes e
portos adequados. Esses agricultores aprenderam a produzir, a
comercializar e sabem buscar tecnologia, com grande ajuda da
extensão particular e do governo. O grande desafio do nosso
governo é incluir os milhões de produtores que não alcançaram
esse nível de renda na estrada da ascensão social.

Fonte: IBGE - Censo Agropecuário, 2006, tabulação realizada pelo
IBGE
Conclusões
A produção está concentrada em 8,2% dos estabelecimentos
(423.689), que atingiram um valor da produção equivalente a 85%
da produção dos 5,2 milhões de estabelecimentos. Nesse grupo,
existem 22.188 estabelecimentos (0,4% do número total), que
geraram 51% da produção total. Os 424 mil estabelecimentos podem
ser atendidos por políticas de alcance geral e ainda dispõem de
forte liderança em associações, cooperativas e no Congresso
Nacional, que pugna por seus interesses, que coincidem com os do
agronegócio.
O grupo seguinte – de quase um milhão de
estabelecimentos – tem condições de melhorar sua renda dentro da
agricultura, mas carece de ajuda no diz respeito à extensão
rural, crédito de custeio e de investimentos, compra da produção
quando os preços despecam, etc. Esse grupo conta com a proteção
do Pronaf, de movimentos sociais e forte liderança no Congresso
Nacional.
Restam 3,8 milhões de estabelecimentos, cujo valor da
produção é de R$ 128,00 por mês. Na agricultura, simplesmente
não há solução para o problema de pobreza deles. Forte dose de
política assistencialista se faz necessária para manter as
famílias a eles vinculadas nos campos. A maioria do grupo é
Nordestina e é órfã de proteção política no campo da
agricultura. Cabe melhor no âmbito do Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Nesse grupo,
concentra-se a maioria daqueles que vão migrar para as cidades.
Referências
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Revista de Política Agrícola, Brasília, DF, ano 18, n. 4, p.
5-17, 2009.
ALVES, E.; SOUZA, G. da S.; OLIVEIRA, C. A. V. Desempenho de
estabelecimentos do Pronaf. Revista de Política Agrícola,
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LEWIS, W. A. Economic development with unlimited supplies of
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The Manchester School, Manchester, v. 22, n. 2, p. 139-191,
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