O bispo emérito de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, com
saúde um pouco fragilizada, mas totalmente lúcido e atualizado, fala com
exclusividade sobre a situação de abandono da região do Araguaia, da
falta de compromisso das lideranças políticas do estado, diz que há mais
genocídio que assistência aos povos indígenas e que a Hidrovia
Araguaia/Tocantins representa um desastre e não uma solução. Conhecido
mundialmente por suas severas críticas a má gestão pública, Dom Pedro
Casaldáliga já está praticamente recuperado da intervenção cirúrgica que
sofreu no final do ano passado e repousa na Prelazia de São Félix do
Araguaia, onde vive há muitos anos.
ISOLAMENTO – Dom Pedro reconhece que a região do Araguaia está esquecida
pelos políticos de Mato Grosso. “É preciso proporcionar um
desenvolvimento harmônico a região toda, e há possibilidades disso. Há
40 anos reivindicamos estradas. Agora estão fazendo algum asfalto, mas
nos dias de chuva fica tudo difícil. Os políticos já poderiam ter feito
muito mais nas áreas de saúde e educação e comunicação, ainda muito
precárias”, observa o bispo.
Na área de saúde, ele ressalta que se um morador do Araguaia precisa de
uma intervenção cirúrgica tem que ir para Barra do Garças ou Goiânia.
“Falta mesmo vontade política de atender o povo. Há muita dificuldade de
infraestrutura, saúde e educação principalmente para o povo que está
longe, sem comunicação. Sempre me refiro à figura heroica das
professoras desses sertões, que enfrentam chuva e sol, cansaço e às
vezes são mal remuneradas”, diz o religioso.
SAÚDE INDÍGENA - A respeito do alto índice de mortalidade infantil, Dom
Pedro Casaldáliga lamenta que em todos os países da América Latina não
se consideram os direitos fundamentais, as necessidades básicas dos
povos indígenas, como suas terras, saúde e educação e que isso seria uma
consequência do descrédito em relação às raízes e ao futuro dessas
nações. E afirma categórico: “os povos indígenas não são tolerados”.
Outro agravante seria o fato da Funasa estar sucateada. Foi criada uma
nova Secretaria de Educação Indígena, porém os próprios funcionários não
tem a garantia de permanência no emprego. “A saúde no país todo está
precaríssima. A gente vê, em todas as capitais, doentes jogados nos
corredores. Não só os povos indígenas são mal atendimentos, mas toda a
população que depende do SUS”.
O álcool é hoje o maior problema enfrentado pelos povos indígenas,
sobretudo na região do Araguaia, segundo Casaldáliga, uma herança do
povo branco. “Infelizmente leis que proíbem a venda do álcool não são
respeitadas. Qualquer um pode comprar, e inclusive uma criança consegue
comprar. Para acabar com o alcoolismo nas aldeias se exige uma política
muito radical, um trabalho muito paciente porque sabemos que o álcool é
uma doença que não pode ser enfrentada só com medicamento. Exige
acompanhamento, educação a partir da criança. O adulto dificilmente vai
se corrigir. Devemos, sim, evitar novos casos de alcoólatras.
Tuberculose é outro grande problema. Quando retornei, havia 12 índios
tuberculosos.”
Ele lamenta que a região do Araguaia ainda não tenha um verdadeiro
hospital regional. “Se o paciente precisa buscar recursos em outro
município de ônibus ou de avião também não tem condições econômicas. Eu
entendo que cada município não tem estrutura para montar seu hospital,
mas um hospital regional há possibilidades sim de ser construído. Os
municípios têm feito a sua parte”.
HIDROVIA – Para Dom Pedro Casaldáliga, a construção da Hidrovia
Araguaia/Tocantis representaria um prejuízo e não uma solução. “A
hidrovia seria mais um desastre para nossa região”, analisa o líder
religioso, ressaltando que técnicos isentos repetem que não há condições
de viabilizar uma obra desta natureza.
Segundo o bispo, o Araguaia é um rio cujo leito varia constantemente e
para suportar o movimento de uma hidrovia seria necessária uma drenagem
constante para esvaziamento dos lagos o que provocaria uma mortandade de
peixes.
“Alegam que uma hidrovia traria emprego, mas eu digo que com, a
tecnologia atual, se apertar com dois botões ela entra em funcionamento
e acabam-se as possibilidades de emprego. Muitos, inclusive políticos,
reconhecem que a hidrovia seria mais um prejuízo e não solução”.
MEIO AMBIENTE – A ocupação desordenada é vista por Dom Pedro Casaldáliga
como uma grande ameaça para o meio ambiente e para o planeta. Em São
Félix, por exemplo, ele vê com preocupação a ocupação das margens do rio
Araguaia, cuja responsabilidade seria oficialmente da Marinha. “Os
arredores de São Félix está sendo tratado sem programação, sem
perspectiva. Hoje se constroem verdadeiros prédios na beira dos rios”,
alerta.
Pontualmente, ele cita o projeto para construir uma praça no bairro
Morrinhos. “Infelizmente se pensa em construir para as pessoas de hoje e
não para o futuro. Se pensa em construir ignorando as reivindicações da
terra. Agora estamos começando a acordar em relação às questões
ecológicas. Hoje estamos vendo que o clima é uma ameaça para o futuro da
humanidade”.
Dom Pedro faz outro alerta: “O Araguaia está sendo maltratado, o homem
está fechando suas fontes e córregos, que são o alimento do rio e alguns
deles estão sem possibilidade de proporcionar o que se esperava. Com
essas alterações climáticas, o Araguaia está sumindo. Ano passado quase
era possível atravessa-lo à pé. Isso é inadmissível”.
RESPONSABILIDADE DE TODOS – Dom Pedro Casaldáliga continua crítico em
relação à má gestão do dinheiro público. Segundo ele, as autoridades
investem, sobretudo, naquilo que dá grande repercussão para si próprio,
como festas do aniversário da cidade, carnaval e até mesmo gastos para
receber políticos. “Os gestores fazem essas despesas quando poderiam
estar investindo em saúde, educação, comunicação”.
Por outro lado, o bispo emérito de São Félix do Araguaia faz uma
importante observação ao lembrar que não basta o povo exigir das
autoridades, mas exigir de si próprio, de sua família. “O município é a
população, a região é o povo e o mundo é a humanidade. Devemos viver
como cidadãos conscientes, responsáveis, fazendo das nossas famílias a
base para educação cívica, respeitando as diferentes religiões,
praticando a fé com consciência, pensar sempre com coerência para que
todos, filhos e filhas de Deus, possamos viver com dignidade e
harmonia”.
Texto: Sandra Carvalho/Blog da Sandra Carvalho
Entrevista: Vanessa Lima e Ida Aguiar/O Repórter do Araguaia
Link: http://paginadoenock.com.br/home/post/8025