MST denuncia compra e venda de lotes em MT há 15 anos
Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e
Justiça
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) denuncia ao
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a compra e
venda de lotes em assentamentos de Mato Grosso há 15 anos, desde que o
Movimento surgiu no Estado.
“Até 2005, entregávamos ao Incra o nome de quem vendia e o nome de quem
comprava. E o que o Incra fazia? Nada. E o que sobrava para quem
denunciava? Risco de morte, risco de agressões e pressão. Por isso,
resolvemos mudar isso. Agora, o que o MST faz é cobrar o Incra que
fiscalize essa situação. E o Incra continua não fazendo nada”, reclama
Antônio Carneiro, da direção do MST em MT.
Segundo Carneiro, já é sabido que o governo federal não quer mais
desapropriar terras. Então, o que tem feito é entrar para dentro de
assentamentos e regularizar lotes que foram comprados. “É o Estado
legalizando o crime. Sim, porque vender e comprar lotes em assentamentos
é crime. E assim caminha a dita reforma agrária...”
Ainda de acordo com o MST, essa é a política do “larga pra lá”.
Essa é a posição do MST em relação à matéria “Bandos ocupam fazendas e
vendem áreas de assentamento em MT” exibida ontem, dia 13 de fevereiro,
no Fantástico, da Rede Globo.
O Fantástico não ouviu o MST e nenhum outro movimento organizado de luta
por reforma agrária.
Leia matéria.
Fonte: TVCA
O Fantástico denuncia a indústria das invasões de terras no Brasil
central, um abuso com o dinheiro público. Bandos ocupam fazendas, ganham
lotes e casas do governo e depois derrubam tudo para vender a área
ilegalmente.
O assentamento criado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra) e o Instituto de Terras de Mato Grosso (Intermat) há dez
anos está abandonado. Mas por que as casas foram derrubadas? É preciso
um olhar mais atento para descobrir os vestígios do que um dia foi
residências.
Luiz Antonio, um dos primeiros a morar no local, na época da criação do
assentamento, denuncia: "agora virou fazenda".
As terras foram doadas pelo governo aos assentados e as casas,
construídas com dinheiro público. Hoje, tudo está sendo vendido
ilegalmente. Uma área de 2,5 mil hectares foi invadida em 2002. Depois,
foi transformada pelo Incra em um projeto de assentamento. Muitos lotes
já foram vendidos. E o comércio da terra continua. Em uma placa, tem até
o número de telefone.
A equipe de reportagem do Fantástico ligou para o telefone que aparece
na placa e descobriu que a chácara já tem novo dono.
Mulher: Eu vendi por R$ 35.
Fantástico: R$ 35 mil, com a casa e tudo?
Mulher: Por tudo.
Fomos até a cidade de Novo Mundo, no norte de Mato Grosso, a 800
quilômetros de Cuiabá. O assentamento foi criado em 2001 e deveria
beneficiar 1.149 famílias. Só o Incra investiu mais de R$ 2 milhões na
área.
"No fim, vira tudo fazenda de novo. E as casas do governo, que são
dinheiro público, são derrubadas. O material fica jogado", aponta Luiz
Antonio.
O presidente do Instituto de Terras de Mato Grosso (Intermat), Afonso
Dalberto, não sabia que as casas estavam sendo demolidas. "Qualquer
assentamento não pode vender lote, e nesse caso é um assentamento do
Incra. E o Incra tem que cuidar como tal", diz Afonso Dalberto.
Informado pelo Fantástico da situação, o Incra prometeu fazer uma
vistoria na área. "Nós temos uma equipe de três técnicos. Esses técnicos
não conseguem percorrer todos os assentamentos durante um ano. Vai levar
dois anos para percorrer os assentamentos", afirma Luiz Araújo, chefe da
unidade do Incra.
A 100 quilômetros do local, o Fantástico descobriu outro esquema ilegal,
e o alvo é uma fazenda. O homem que se diz dono dessa fazenda chegou a
ceder cinco mil hectares para o Incra fazer um projeto de assentamento.
Mas a disputa pela posse da área continuou. Outro grupo de sem-terra que
está acampado em frente à propriedade quer invadir a fazenda. A disputa
é pela posse de 14 mil hectares. Dez mil são só de floresta.
Em uma flagrante, um homem vende lotes de uma fazenda que ainda nem foi
destinada para a reforma agrária. Ele é Gilmar Nantes, chefe dos
acampados. Sem saber que estava sendo gravado, ele recebe na casa dele
duas pessoas que se dizem interessadas em participar da invasão. Ele
está montando o cadastro dos futuros assentados. "Preciso do RG e do
CPF", disse.
Os dois interessados dizem querer três lotes. Gilmar explica como pode
ajudar, desde que elas paguem.
Fantástico: Se eu deixar R$ 500 para o senhor agora?
Gilmar Nantes: Vamos fazer uma ficha para ele aí.
Gilmar recebe os R$ 500. "Vai pegar de 13 a 15 alqueires abertos e vai
ficar a média de 12 a 13 alqueires em mata. Vai dar mais de 50
hectares", calcula.
Ele confere o dinheiro. É a primeira parte do pagamento de R$ 2 mil.
Gilmar anota em um pedaço de papel o número da conta onde o restante
deve ser depositado nos meses seguintes. Por telefone, acertamos mais
detalhes da negociação.
Fantástico: Esse depósito já vai hoje para você, tá?
Gilmar Nantes: Beleza, companheiro.
Fantástico: E no Incra lá, você dá um jeito para a gente?
Gilmar Nantes: Com certeza, companheiro.
"Isso demonstra um possível acerto de servidores do Incra com supostos
movimentos em defesa da reforma agrária de maneira que há um comércio em
benefício de ambas as partes", afirma o procurador da República Mário
Lúcio Avelar.
Diante da equipe do Fantástico, Gilmar negou tudo e disse que nunca
tinha vendido lotes. "Jamais negociei algum lote. Já me ofereceram
dinheiro que nem você está falando. Jamais vendi um lote. A gente prega
isso nas reuniões da gente. Aquele companheiro que descobrir que o
companheiro dele está vendendo lotes a gente exclui do acampamento",
alegou.
Mesmo assim, três dias depois dessa entrevista, Gilmar telefonou para o
homem que havia pago o sinal pelo lote de terra para confirmar o
negócio.
A mesma área de que o grupo de Gilmar quer tomar posse é disputada por
outro homem, João Francisco de Paula, conhecido como João Barbudo.
João Francisco de Paula recebe o primeiro pagamento: R$ 500. Ele assinou
até um recibo dessa primeira parcela. Quando telefonamos para ele, João
se defendeu. Alegou que o dinheiro seria, na verdade, para pagar o
profissional que vai medir a área. "Isso a é um engenheiro que é ligado
junto ao Incra. Nós estamos em conversa com ele para nós pagarmos para
criar um projeto de assentamento. A terra é da União. São 50 lotes de 50
hectares", afirmou.
João Barbudo já foi preso em 2007, acusado de comandar a invasão de
propriedades, muitas vezes com violência. Uma delas foi a do fazendeiro
Wangler Duarte. "Foi o bando de João de Paula. Eles chegaram de supetão.
Eram 16 pessoas armadas. Tudo de arma no punho. Colocaram arma na cabeça
e me jogaram no chão", contou.
O vizinho dele sofreu um atentado e morreu dois meses depois em agosto
de 2007. "A caminhonete dele, na época, recebeu 179 perfurações", lembra
Wangler.
A ação dos grupos de invasores de terra é investigada pela polícia de
Mato Grosso. "É muito difícil nessa região que trabalhamos termos o
depoimento de testemunhas ou das próprias vítimas. Todos com receio de
represálias", conta o delegado Geraldo Gesoni Filho.
"Reforma agrária no estado do Mato Grosso é um balcão de negócios",
afirma o procurador da República, Mário Lúcio Avelar.
"É indústria de invasão de terra. Não existe a indústria da seca no
Nordeste? Aqui existe a indústria de invasão de terra", afirma o
fazendeiro Wangler Duarte.
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