Chernobyl da Cultura: a TV brasileira como arma de destruição em massa.

 

*Por Andrea Portela

 

“A Globo é uma Chernobyl da arte”, esta frase, do Prof. Dr. Fernando Queiroz da UNB, em visita a UFMT, ainda soou em meus pensamentos por toda semana e creio que tais pensamentos merecem ser divididos. É claro, sendo um professor de artes, se referia ao universo artístico. E com toda razão, pois é realmente triste ver atores de qualidade atuando em papéis de tamanha mediocridade, com textos que parecem ter sido escolhidos com base nos piores critérios que posso imaginar. E meu indignamento é tanto que os adjetivos me escapam. Lamento.

Quero é estender esta frase ao universo televiso de nosso país, tentando refletir sobre o resultado que todo este lixo cultural pode provocar em nossa sociedade. Não tirarei medidas (A+B=C), apenas cumprirei meu papel de cidadã, telespectadora que tem os olhos e ouvidos feridos cada vez que liga a TV. Com toda dramaticidade a que me dou direito.

 Não quero que este diálogo tome um rumo moralista ou se paute como discurso deste universo profissional. Não sou jornalista, nem publicitária. Embora minha formação, em educação e cultura, me respalde a ir um pouco mais fundo. Serei breve, para que cada leitor preencha o vazio que deixo com suas próprias reflexões, e a partir delas, construirmos o hipertexto que reverterá este quadro.

Não se trata de censura ou de cumprimento de regras, quero me basear somente em bom senso, bom gosto e respeito.

-Bom senso: quem está acordado quando os poucos programas educativos, ou que tratam de meio ambiente e ação social estão sendo transmitidos? Na madrugada, onde nos recuperamos para mais uma jornada de trabalho, nem inglês vê! Precisamos redefinir o que é horário nobre. As crianças precisam ser educadas, mas você confia em “babá eletrônica”? O que se pode aproveitar dos conteúdos infantis (e não infantis) a que seus filhos estão expostos?

-Bom gosto: nossa arte tem qualidade e beleza, nossos artistas talento, nossas manifestações culturais são ricas, nosso cinema cresce, nossas universidades fabricam conhecimento. E pra que ralo escorre tudo isso?

-Respeito: definitivamente, não me identifico com os personagens das novelas, perfis doentios, miseravelmente desconectados com o real (no sentido de que não é isso que precisamos ou queremos assistir). Embora construídos para ser ficção, pense na força desta divulgação. Da realidade só entendem o que há de mais bárbaro em nós, é o que constato quando espirram sangue na tela ou proferem discursos sutilmente discriminatórios. As notícias chegam com acoplamento didático, “é isso que devemos pensar disso... (entre caras e bocas)” E até que ponto você se deixa levar? E se você fosse uma criança? Deixo as interrogativas para escapar aos clichês, nos fazendo valer do que realmente importa ao “personagente”, termo bem criado por Guimarães Rosa.

Pra quem não sabe ou não se lembra, Chernobyl é uma cidade da Ucrânia onde, em 1986, ocorreu o pior acidente nuclear da história, tendo liberado radioatividade que chegou a atingir vários países da Europa, uma contaminação centena de vezes maior que a bomba de Hiroshima.

A TV brasileira é um dos veículos de maior influência onde, milhões de brasileiros têm livre acesso, é onde ocorre a proliferação do pior conteúdo jamais divulgado, liberando banalidades que chegarão a atingir gerações, de analfabetos a doutores, em todos os rincões do país e até no exterior, uma contaminação capaz de destruir todos os nossos sonhos de construir uma sociedade mais justa, humana e sustentável. O tal país do futuro pode estar explodindo como num estranho filme de ficção, mas atenção, o cogumelo atômico não é visto na sessão da tarde ou da noite. Este filme – documentário – é o que passa quando acionamos o controle remoto mental.

 

* Andrea Portela é educadora, design de moda, figurinista e pesquisadora da cultura das aparências.






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