Chernobyl da Cultura: a TV brasileira como arma de destruição em massa.
*Por Andrea Portela
Quero é estender esta frase ao universo televiso de nosso país, tentando
refletir sobre o resultado que todo este lixo cultural pode provocar em
nossa sociedade. Não tirarei medidas (A+B=C), apenas cumprirei meu papel
de cidadã, telespectadora que tem os olhos e ouvidos feridos cada vez
que liga a TV. Com toda dramaticidade a que me dou direito.
Não quero que este diálogo tome
um rumo moralista ou se paute como discurso deste universo profissional.
Não sou jornalista, nem publicitária. Embora minha formação, em educação
e cultura, me respalde a ir um pouco mais fundo. Serei breve, para que
cada leitor preencha o vazio que deixo com suas próprias reflexões, e a
partir delas, construirmos o hipertexto que reverterá este quadro.
Não se trata de censura ou de cumprimento de regras, quero me basear
somente em bom senso, bom gosto e respeito.
-Bom senso: quem está acordado quando os poucos programas educativos, ou
que tratam de meio ambiente e ação social estão sendo transmitidos? Na
madrugada, onde nos recuperamos para mais uma jornada de trabalho, nem
inglês vê! Precisamos redefinir o que é horário nobre. As crianças
precisam ser educadas, mas você confia em “babá eletrônica”? O que se
pode aproveitar dos conteúdos infantis (e não infantis) a que seus
filhos estão expostos?
-Bom gosto: nossa arte tem qualidade e beleza, nossos artistas talento,
nossas manifestações culturais são ricas, nosso cinema cresce, nossas
universidades fabricam conhecimento. E pra que ralo escorre tudo isso?
-Respeito: definitivamente, não me identifico com os personagens das
novelas, perfis doentios, miseravelmente desconectados com o real (no
sentido de que não é isso que precisamos ou queremos assistir). Embora
construídos para ser ficção, pense na força desta divulgação. Da
realidade só entendem o que há de mais bárbaro em nós, é o que constato
quando espirram sangue na tela ou proferem discursos sutilmente
discriminatórios. As notícias chegam com acoplamento didático, “é isso
que devemos pensar disso... (entre caras e bocas)” E até que ponto você
se deixa levar? E se você fosse uma criança? Deixo as interrogativas
para escapar aos clichês, nos fazendo valer do que realmente importa ao
“personagente”, termo bem criado por Guimarães Rosa.
Pra quem não sabe ou não se lembra, Chernobyl é uma cidade da Ucrânia
onde, em 1986, ocorreu o pior acidente nuclear da história, tendo
liberado radioatividade que chegou a atingir vários países da Europa,
uma contaminação centena de vezes maior que a bomba de Hiroshima.
A
TV brasileira é um dos veículos de maior influência onde, milhões de
brasileiros têm livre acesso, é onde ocorre a proliferação do pior
conteúdo jamais divulgado, liberando banalidades que chegarão a atingir
gerações, de analfabetos a doutores, em todos os rincões do país e até
no exterior, uma contaminação capaz de destruir todos os nossos sonhos
de construir uma sociedade mais justa, humana e sustentável. O tal país
do futuro pode estar explodindo como num estranho filme de ficção, mas
atenção, o cogumelo atômico não é visto na sessão da tarde ou da noite.
Este filme – documentário – é o que passa quando acionamos o controle
remoto mental.
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Andrea Portela é educadora, design de moda, figurinista e pesquisadora
da cultura das aparências. |