África convoca o planeta a construir alternativas. Radiografia de um
processo planetário em crescimento
* Sergio Ferrari/ Adital
De Dacar, Senegal.
No primeiro domingo de fevereiro, iniciou-se a oitava edição
"centralizada” do Fórum Social Mundial (FSM), na Universidade Diop, de
Dacar. A metrópole senegalesa, com quase 3 milhões de habitantes,
perfila-se como um marco desafiador e prometedor para albergar o
principal espaço altermundista planetário. Em uma nova conjuntura muito
particular, onde todo o cenário político africano adquire tonalidades
imprevisíveis da mão das explosões populares de Túnis e Egito. Segundo
os organizadores, não menos do que 60 mil pessoas participarão no
evento, que se realizará por segunda vez na África –a anterior foi em
Nairobi, em 2007-. Desde sua criação, o FSM se reuniu em 5 edições no
Brasil, uma na Índia e duas na África.
De novo a África, com renovados desafios
Repetindo o que já é uma metodologia habitual dos Fóruns, a edição de
2011 foi inaugurada com uma manifestação cidadã que percorreu as
principais ruas do centro de Dacar, desde o Porto e a mesquita central
até os bairros populares do sul da cidade.
"A marcha foi um verdadeiro termômetro político que indicará o impacto
potencial do FSM de Dacar”, disse Souleyname Bassoun, dirigente social
senegalês.
Bassoum, que coordena vários projetos com doze organizações camponesas,
urbanas e dedicadas à economia social e solidária em nove localidades do
país, considera que esta edição do FSM "não somente é histórica, como
tem uma potencialidade particular de reforçar os movimentos sociais,
ONGs e as redes de toda a África”.
Abrindo novos vasos comunicantes com a "sociedade civil planetária,
demonstrando que não estamos sozinhos, que somos muitos em todo o mundo
aqueles que apostamos em uma mudança de paradigma, de perspectiva, de
sistema”.
Bassoum confirma um longo "processo de preparação do FSM, que foi
lançado há vários meses e que inclui uma série de atividades
preparatórias nas mais diversas regiões do país”.
A primeira semana de fevereiro, em Thies, segunda capital do país, de
onde o dirigente social é originário, "realizou-se uma marcha cidadã que
encerrou uma jornada inteira realizada nas escolas com alunos e
professores para discutir sobre o valor do FSM. Também foi implementada
uma atividade popular que relacionou a consigna de "Outro Mundo
Possível” com o combate contra o lixo não reciclável”.
O FSM tampouco passará despercebido entre a classe política senegalesa.
Uma boa parte dos 120 partidos e associações políticas que existem no
país, bem como uns cinqüenta sindicatos existentes têm demonstrado seu
interesse pelo evento, que conta com um certo apoio da municipalidade
"socialista” capitalina.
"É uma ocasião única para os partidos progressistas do Senegal”,
enfatiza Ibrahine Sène, um dos principais responsáveis pelo "Partido da
Independência e do trabalho (PIT)”.
Espaço tão transcendente "que lançaremos durante o FSM uma declaração de
unidade de várias de nossas forças políticas de oposição para reforçar
nosso campo frente às eleições presidenciais” do ano próximo, enfatiza.
Reforçar "outra África possível”
"Aposto que Dacar se converterá em uma base fundamental de um
desenvolvimento mais justo e social da África”, enfatiza Awa Quedraogo,
secretária executiva da Marcha Mundial das Mulheres / Ação Nacional de
Burkina Faso.
Para a experiente dirigente feminista do continente, suas expectativas
passam "por assegurar que o FSM seja o lugar e o momento para que a
sociedade civil africana e planetária juntem ainda mais suas forças,
para reforçar a causa que nos anima: a construção de um mundo melhor
gerido e mais justo”.
O desafio desse Fórum é duplo: "reforçar a coesão de todos nós e, ao
mesmo tempo, criar condições para que nossa voz seja mais escutada e
levada em consideração pelos governos”. É um desafio que exigirá um
grande esforço de sistematização e síntese por parte dos milhares de
participantes que desde os cinco continentes já começam a chegar a Dacar
para animar cinco dias de intercâmbio, reflexões e ajustes de agendas e
metodologias comuns.
Com uma proposta de programa maratônica. Na segunda-feira (7), a
temática africana será o centro da atenção durante todo o dia. Em suas
múltiplas facetas: desde os acordos comerciais com a Europa e outras
regiões do mundo, passando pela crise da África árabe, até chegar ao
sempre complexo tema das migrações, faceta atual do passado de
escravagismo e colonialismo, ainda não resolvido.
Na terça e quarta (8 e 9), centenas de atividades autogeridas, em forma
de cursos, conferências e debates, permitirão aos diversos atores da
sociedade civil mundial intercambiar idéias, reflexões e experiências.
Na quinta-feira (10), em um primeiro esforço de sistematização se
realizará em torno às Assembleias Temáticas, na tentativa de chegar a
conclusões e propostas segundo onze eixos do programa definidos há quase
um ano. Para concluir a edição Dacar do FSM, na sexta-feira (11), com a
"Assembleia das Assembleias”, um espaço de restituição, balanço e
síntese da reflexão multitudinária da semana.
(*) Sergio Ferrari, colaboração E-CHANGER
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FSM. Radiografia de um processo planetário em crescimento
Sergio Ferrari
Dakar. Senegal
Tradução: ADITAL
Os dez anos do Fórum Social Mundial expressam uma década de plena
expressão, com eventos mundiais significativos e fóruns
continentais-nacionais de diferentes transcendência e repercussão, no
qual, a consolidação de certas redes e coordenações internacionais,
entre elas Vía Campesina e a Marcha Mundial de Mulheres, constituem um
dos principais avanços dessa etapa de consolidação altermundista.
Janeiro 2001, Porto Alegre, Brasil. Primeiro FSM com 4.700 delegados de
117 países. Assistência total de uns 20 mil participantes, com umas 400
atividades autogestionadas. Após o evento, o Comitê de Organização
elaborou a Carta de Princípios, que contém 14 pontos e que se converteu
no marco conceitual-funcional do FSM. A posteriori, foi ratificada pelo
Conselho Internacional, instância de facilitação do FSM, criada logo
após a realização da primeira edição e composta por representantes de
centenas de grandes redes, campanhas e plataformas do mundo inteiro.
Janeiro 2002, Porto Alegre, 50 mil participantes, entre eles 12.274
delegados de 123 países. Durante essa edição se chamou a ampliar o FSM
com processos-eventos nacionais, continentais, temáticos etc. No fim do
ano, em Florença, realizou-se o I Fórum Social Europeu. E pouco tempo
depois, o I Fórum Social das Américas.
Janeiro 2003, Porto Alegre, 100 mil participantes, com cerca de 20 mil
delegados e 1.300 atividades autogestionadas.
Janeiro 2004, Mumbai, Índia. 72.126 participantes, de 1.653
organizações, de 117 países. Forte presença de movimentos "dalit” (casta
dos intocáveis) e de representantes de organizações do país inteiro.
Janeiro 2005, Porto Alegre. Marcha de abertura com 200 mil pessoas. 115
mil participantes registrados, 35 mil deles integravam o Acampamento da
Juventude. Para preparar essa edição, se implementa uma nova metodologia
de consulta temática, formulário pela Internet que permitia identificar
lutas, atividades, problemas e propostas.
2006. FSM "policêntrico”, descentralizado em 3 cidades de 3 continentes:
Bamako (Mali-África), de 19 a 23 de janeiro; Caracas (Venezuela), de 24
a 29 de janeiro. E Karachi (Paquistão-Ásia), final de março.
Janeiro 2007, Nairobi, Quênia. Participaram em torno de 50 mil pessoas.
Talvez a edição mais problemática e com maiores contradições internas.
Janeiro 2008, semana de mobilização e ação global em centenas de cidades
do mundo inteiro.
Janeiro 2009, Belém do Pará, Brasil. 133 mil participantes de 142
países. Em torno de 2.300 atividades promovidas por 5808 entidades
inscritas. Entre elas, quase 4.200 da América Latina, um pouco menos de
500 da Europa e praticamente um número similar da África. Forte presença
dos povos autóctones-originários.
Janeiro 2010, atividades descentralizadas em todo o mundo.
Fevereiro 2011, de 6 a 11, em Dacar, Senegal. Há várias dezenas de
milhares de participantes.
(*) Sergio Ferrari, colaboración E-CHANGER. |