MPB em outros tons
Por Andrea Portela*
Ensinamentos em pequenas frases de efeito não precisam ser “antigos”
como nos provérbios, circulam pela internet com autores anônimos,
famosos (falsos ou não), e desconhecidos (alguns se tornam famosos).
Todos querem palpitar, como num imenso twitter.
Também não pratico crendices, até acho algumas bem divertidas. Como
bater na madeira ou evitar passar debaixo da escada. E dar três pulinhos
para encontrar um objeto? Não fazem sentido pra mim, mas me divirto
ainda mais quando se começa a pensar numa história ou pretensa
explicação.
Todo mundo tem um chazinho ou pílula pra receitar. E confesso, sou
adepta da medicina da vovó (mesmo sendo referência feminina e de uma
velha). Sei que chá de camomila não é Bayer, mas é bom!
Especialmente na cultura brasileira, quantas experiências gostosas nos
dão, ao longo da vida, as letras de nossas músicas! Mas não, não quero
falar de música. Mas sim de algo Popular e Brasileiro, ou mais
precisamente de outra linguagem, a da Moda Popular Brasileira. Falo de
pessoas simples que dão um “jeitinho” especial para se enfeitar, dentro
de recursos escassos, e se fazem bonitas como podem. Essa moda que
encontro nas feiras, nas festas e nas ruas, com seus excessos e
transbordamentos, que desprezam as receitas monótonas do bem vestir.
Falo é desta política corporal carregada de afirmação e resistência, que
permite ajustar a calça para mostrar a celulite, deixar o “pneuzinho”
bem marcado, ou que fornece pequenas mostras da barriguinha. Tudo o que
contrariaria uma Marie Clair em outras camadas sociais. É o brilho da
lantejoula, o strás na lingerie, o fuxico no cabelo, o medalhão no
peito, o dourado fake...
Exemplos que me entorpecem de tanta inventividade e frescor. É dali que
retiro inspiração e onde fervilham informações para registrar uma
cultura construtiva, processual. Quando nos despimos de algum
preconceito é como se acrescentássemos uma dose a mais de elegância em
nosso porte.
Nos espaços populares vejo transitar a capacidade de reler informações,
de re-inventar e inúmeras possibilidades de adaptação. Além disso, que
graça teria um mundo em preto e branco, ou em bege morno e depressivo? O
máximo de colorido que alguns se permitem é o que está manchado em seu
velho índigo blue. Triste...
Donde concluo que ser feliz é ter liberdade de escolha, ousadia das mais
sábias. Como fizemos com velhos provérbios, não estaria na hora de nós,
mulheres – e homens, refletirmos um poucos mais sobre os rigores que,
cada dia mais, impomos a nossos corpos? Em como nos deixamos levar por
modelos ditatoriais de corpos magros, ajustados uniformemente e jovens?
E penso: que outras formas, cores e composições poderíamos assumir, ou
aceitar, caso fossemos livres de tais imposições? O que exibiríamos
pelas ruas caso a moda provocasse mais avivamento criativo no lugar de
fórmulas de consumo fácil?
Coisas que me ensinam a Moda Popular Brasileira...
* Andrea Portela é educadora, design de moda, figurinista e pesquisadora
da cultura das aparências.
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