Em busca do melhor sistema eleitoral
“Com reforma ou sem reforma, os políticos eleitos continuariam sendo
mais ou menos os mesmos. Nenhuma reforma seria também capaz de alterar
os critérios de decisão do voto por parte dos eleitores”
* Por Rogério Schmitt/Congresso em Foco
Mas, dessa vez, prefiro tratar a questão sob outro ângulo. Não vou me
arriscar a fazer previsões. Gostaria apenas de recomendar alguma cautela
nesse debate sobre a reforma eleitoral. Os reformistas aparentam estar
padecendo de um idealismo legalista: a ilusão de que uma reforma
eleitoral seria a solução mágica para todos os problemas do nosso
sistema político.
Muita calma nessa hora! Os efeitos das reformas eleitorais costumam ser
gradativos e cumulativos. As coisas não mudam da noite para o dia. Com
reforma ou sem reforma, os políticos eleitos continuariam sendo mais ou
menos os mesmos. Nenhuma reforma seria também capaz de alterar os
critérios de decisão do voto por parte dos eleitores. E o Congresso
continuaria tendo os mesmos defeitos e virtudes de hoje. Imaginar o
contrário não passa de auto-engano.
O fato é que não existe sistema eleitoral perfeito. Todas as regras
existentes mundo afora para a eleição de deputados possuem aspectos
positivos e negativos. Todos os sistemas eleitorais são falhos sob algum
ponto de vista. Mas, entusiasmados, os reformistas sonegam essa
constatação do grande público.
Vejamos o exemplo do chamado “voto distrital”. Esse sistema
inegavelmente possui vários méritos. Particularmente, o que mais me
agrada nele é o potencial para uma maior proximidade, em cada distrito,
entre os parlamentares e o eleitorado. Mas os seus defensores têm
alegado que a sua adoção tornaria as campanhas eleitorais mais baratas.
Nada mais ilusório. As campanhas eleitorais modernas serão sempre caras.
Num sistema de voto distrital, os altos custos estariam associados ao
fato de só haver uma única vaga em disputa em cada distrito.
A coisa não muda de figura na campanha pela chamada “lista fechada”. É
fato que esse sistema é muito mais compatível com o voto proporcional do
que o sistema que hoje utilizamos (a “lista aberta”). E ele também,
provavelmente, tornaria os partidos mais disciplinados. Mas, por outro
lado, não se pode ignorar o fato de que a lista fechada tira do eleitor
a capacidade de votar diretamente no seu candidato favorito, e de
influenciar a composição das bancadas partidárias. Como os partidos
brasileiros não possuem mecanismos internos de participação democrática,
aumentaria ainda mais a distância entre os partidos e a sociedade.
Mostrei apenas alguns exemplos dos riscos que estaríamos correndo – e
que estão sendo subestimados. Poderia ter mostrado outros. E olhem que
nem deu tempo de criticar o risível método do “distritão misto”
recentemente proposto por alguns congressistas. Também não pensem que o
nosso sistema atual não seja vulnerável a críticas igualmente
devastadoras. Ele é.
Adverti acima que não faria previsões e nem chegaria a conclusões
definitivas na coluna dessa semana. O tema da reforma eleitoral é
fascinante, mas não costuma levar a lugar algum. Os maiores problemas da
democracia brasileira não estão relacionados às nossas instituições
políticas em si, mas aos baixos graus de politização e de participação
dos eleitores. Isso não se muda da noite para o dia, ao contrário do que
parecem pensar os adeptos do idealismo legalista. Não tenhamos a ilusão
de que a reforma eleitoral seja a “mãe de todas as outras reformas”. O
governo e o Congresso têm, pelo menos, outros quinze desafios mais
importantes do que este pela frente.
|