Sistema de mapas revela drástica redução de áreas ricas em águas,
florestas e terras indígenas em MT
Majoritária, bancada ruralista da Assembleia Legislativa tenta
“empurrar” substitutivo 3 de um zoneamento que ambientalistas chamam de
‘Frankenstein’
Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e
Justiça
Ignorando o mundial alarme ambiental, o substitutivo 3 do projeto de
Zoneamento Socioeconômico
Ecológico (ZSEE) de Mato Grosso reduz em 81,9% as áreas que requerem
manejo específico devido ao elevado potencial hídrico, onde há
mananciais e inclusive diversas nascentes. Em contrapartida, aumenta
drasticamente em 83,5% as áreas de agricultura, inclusive de larga
escala, que sobem de 10 milhões hectares para 18 milhões. Reduz em 23,5%
as áreas de floresta, corta em 11,99% as terras indígenas e elimina
56,23% das unidades de conservação propostas no projeto inicial.
É o que revela, com clareza, um sistema de mapas, disponibilizado desde
o dia 27 de janeiro pelo Instituto Centro de Vida (ICV), disponível
aqui.
Saiba para que serve um zoneamento
aqui.
O debate sobre um modelo de zoneamento para Mato Grosso já se estende há
mais de duas décadas sem acordo. O senador Blairo Maggi (PR-MT), em seu
segundo mandato enquanto governador, encaminhou um projeto à Assembleia
Legislativa de Mato Grosso. A Casa abriu o tema para o debate e convocou
15 audiências públicas em todo o Estado.
Após esse processo que teve ampla participação popular, o relator da
Comissão do Zoneamento, então deputado estadual Alexandre César (PT-MT),
reformou o projeto do executivo e apresentou o substitutivo 1, realizado
em conjunto com seis técnicos, levando também em conta critérios
propostos e os anseios da população colocados nas audiências. Os
técnicos receberam juntos R$ 78 mil pela consultoria.
No entendimento dos ambientalistas, o substitutivo 1, apesar de trazer
flexibilizações pontuais questionáveis, significava avanço.
Porém, o presidente da Comissão do Zoneamento, deputado estadual Dilceu
Dal Bosco (DEM-MT) se colocou contra e encomendou outro estudo. O
técnico contratado finalizou em três meses um parecer técnico, pelo qual
cobrou R$ 180 mil. Com base nesse parecer, Dal Bosco formulou o
substitutivo 2, que tinha erros grosseiros, observados pelos próprios
parlamentares, pelos ambientalistas e pela imprensa. Diante disso, a
bancada ruralista novamente se articulou novamente e em 20 dias
apresentou o substitutivo 3, que não trouxe mudanças significativas em
relação ao segundo.
Segundo o ICV, os mapas mostram com clareza “o estrago” que a segunda e
terceira versões significa para o Brasil.
Mas o que um ataque às águas em MT teria a ver com o resto do país?
Conforme o economista ecológico João Andrade, coordenador do Programa
Governança Florestal do ICV, 20% das águas no Brasil nascem no Estado.
“Do ponto de vista hídrico, Mato Grosso é uma potência”. Para ele, não
cuidar desse patrimônio é colocar em risco tal riqueza natural.
Na contramão de um novo paradigma
A redução da área de florestas, conforme o substitutivo 3, se dá
essencialmente no Norte de Mato Grosso, em áreas do Bioma Amazônico.
“Permitir a derrubada delas, ao invés de avançar para uma política de
conservação, de formas alternativas de exploração da floresta, é ir na
contramão de uma tendência mundial. Os mercados querem produtos livres
de desmatamento”, afirma a bióloga mestre em Economia do Meio Ambiente e
doutora em Política e Gestão Ambiental, Andréa Azevedo, que é
pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).
“Temos muitas áreas abertas no Estado com baixa produtividade. Ao invés
de mudar áreas de floresta para categorias consolidadas, o legislativo
deveria se preocupar em criar políticas públicas efetivas de fomento
para recuperação de áreas consolidadas, de realocação de áreas de baixa
produtividade para agricultura, de readequação de manejo onde é
necessário. Isso sim faria diferença na economia do Estado e não
disponibilizar áreas florestadas para produção agropecuária”.
Ela lembra ainda que essa lógica vai na contramão também da meta
brasileira assinada em acordos internacionais, que é de reduzir o
desmatamento em áreas de floresta amazônica em 80% até 2020.
Segundo a bióloga, setores do agronegócio mais progressistas já entendem
as novas demandas dos mercados e a produção responsável é uma delas.
Contudo, isso ainda precisa ser mais disseminado, inclusive nos
parlamentos.
“É lamentável que os critérios técnicos tenham sido preteridos em favor
de critérios políticos e econômicos para balizar as mudanças nas
categorias. Mato Grosso tinha tudo para ter um dos melhores zoneamentos
desse país!”
Índios saem perdendo
A redução em 11,99% das terras indígenas parece discreta em termos de
extensão, mas elimina 13 reservas, como informa o antropólogo Miguel
Aparício, do programa de Conservação de Terras Indígenas da Operação
Amazônia Nativa (Opan).
“O grave do fato é que essas são reservas que ainda não têm o processo
de regularização concluído, ou seja, não estão homologadas, embora
algumas já tenham sido até demarcadas”, diz.
As terras excluídas são:
TI Baía dos Guató (etnia Guató)
TI Batelão (etnia Kaiapó)
TI Batuvi (etnia Waurá)
TI Cacique Fontoura (etnia Karaja)
TI Estação Pareci (etnia Paresi)
TI Kaiabi (etnia Kaiabi)
TI Kawahiva do Rio Pardo (índios isolados)
TI Manoki (etnia Manoki)
TI Pequizal do Naruvotu (etnia Naruvotu)
TI Piripikura (índios isolados)
TI Ponte de Pedra (etnia Paresi)
TI Portal do Encantado (etnia Chiquitano)
TI Uirapuru (etnia Paresi)
*Fonte: Opan
Conforme o antropólogo, ao contrário do que se possa pensar, as terras
indígenas são insuficientes para as comunidades que as ocupam hoje. “As
reservas devem realmente ser grandes, porque as maiores, como o Parque
do Xingu ou a área da etnia Cinta Larga, por exemplo, têm um histórico
de conservação que nenhuma outra forma de ocupação mantém. O
agronegócio, por exemplo, concentra muita terra, mas a maioria é
devastada”. Ainda conforme Miguel Aparício, a manutenção da extensão das
terras indígenas é importante também para que os povos tenham proteção
social. “Se ficam muito próximas a fazendas, os índios não têm caça, não
têm pesca, sofrem com a poluição de agrotóxicos e com a interferência
cultural”. Ele se posiciona também neste artigo
aqui.
Unidades de conservação
Conforme a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN),
unidade de conservação é "uma área especialmente dedicada à proteção e
manutenção da diversidade biológica e dos recursos naturais e recursos
culturais associados, e gerenciada através de meios legais ou outros
meios eficazes."
Perder áreas dessa natureza, para Mato Grosso, “é extremamente
prejudicial, já que a delimitação delas seguiram critérios de
planejamento de paisagem, sendo que as mesmas são caracterizadas por
áreas de grande relevância biológica e culturais associadas. A redução
destas áreas expõe a fragilidade das políticas públicas do Estado”,
opina o biólogo Alexandre Batistella, mestre e doutor em Água Doce e
Pesca Interior pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
Batistella é uma voz de alerta dentro do próprio Governo. Ele é
Coordenador de Unidades de Conservação da Secretaria de Estado de Meio
Ambiente (Sema).
Farinha do mesmo saco
Para o sociólogo Inácio Werner, do Centro Burnier Fé e Justiça e do
Fórum Mato-grossense de Desenvolvimento e Meio Ambiente (Formad), a
preocupação maior é que o substitutivo 3 vai de encontro ao projeto de
Código Florestal, que volta agora à pauta do Congresso Nacional, já
nesse início de mandato. “Os dois são farinha do mesmo saco e são
prejudiciais à Amazônia, ao Pantanal e ao Cerrado”.
Segundo Werner, é difícil mostrar ao cidadão comum a importância de
pensarmos juntos um zoneamento justo para Mato Grosso. “As pessoas só
lembram da questão ambiental em momentos de catástrofe e vêem isso pela
televisão, quase sempre. E a mídia muito dificilmente associa as
catástrofes ao mal gerenciamento ambiental”.
Ainda segundo Inácio, o substitutivo 3 não traz avanços e sim apenas
acomoda absurdos. “É a questão econômica mandando na política”.
Correlação de forças
A correlação de forças na construção do zoneamento para Mato Grosso é
clara. De um lado ambientalistas denunciando o ataque ao meio ambiente.
De outro, grandes proprietários de terra, que, em sintonia com a
Assembleia Legislativa, defendem um modelo de uso do solo, baseado no
lucro imediato.
“São dois grupos que percebem o desenvolvimento de forma diferente”,
resume João Andrade, economista do ICV. “Os que querem um crescimento
econômico de curto prazo a qualquer custo e os que desejam um
desenvolvimento no seu sentido amplo com distribuição da riqueza,
qualidade vida e gestão dos recursos naturais no longo prazo”.
Na visão do deputado Ságuas Moreas (PT-MT), único a votar contra o
substitutivo 3, o zoneamento tem que contemplar os dois lados: a vocação
de Mato Grosso para plantar e também a preocupação ambiental. O
substitutivo 3, segundo ele, não equilibra essas duas preocupações.
O que pensar disso tudo?
A ferramenta de análise do zoneamento disponibilizada pelo ICV, que é a
combinação de uso do programa StatPlanet com informações oficiais,
permitirá a qualquer pessoa com acesso a internet produzir mapas e fazer
análises comparativas entre os substitutivos que poderão ser
exportadas para qualquer formato e subsidiar a produção de artigos e
textos.
Dessa forma, o ICV entende que é possível qualquer cidadão comum tirar
conclusões próprias, observando os mapas.
Manobra política
Ambientalistas denunciam que, na aprovação do substitutivo 3, houve
clara manobra política para favorecer grandes fazendeiros. Veja esse
vídeo
aqui.
O deputado Mauro Savi (PR), que presidiu a sessão que aprovou o
substitutivo 3, indagado se percebeu qualquer manobra política no
processo de aprovação do projeto, disse, através da Assessoria de
Imprensa, que “não tem nada para falar sobre o zoneamento, porque não
foi ele quem presidiu a comissão e que a tramitação se deu de forma
normal como se dá em todos os outros projetos apreciados. Teve inclusive
o intervalo de 30 dias entre a primeira votação e a segunda, tempo que o
projeto estava a disposição para quaisquer questionamentos”. Mais
informações, Savi sugeriu pedir esclarecimentos ao deputado Dal Bosco.
Dal Bosco (DEM) entende que a matéria tramitou em um processo
legislativo perfeito. Foram feitas 15 audiências públicas. E, segundo
ele, a redação final contempla a realidade de Mato Grosso, ou seja,
“proteger o meio ambiente produzindo”. Ele disse não conseguir ver
discordância entre o que a sociedade pediu e a AL aprovou.
‘Frankenstein’
O substitutivo 3 do projeto de zoneamento de Mato Grosso, aprovado dia
25 de outubro do ano passado,
segundo o ICV, é indefensável do ponto de vista técnico, é um
Frankenstein.
Tanto é que, após a aprovação na Assembleia Legislativa, o trâmite
burocrático natural seria o encaminhamento ao governador Silval Barbosa
(PMDB), para que vetasse ou não. No entanto, Barbosa não fez uma coisa
nem outra.
Enquanto o governo não se posiciona, a matéria não pode seguir para o
Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), que também deve dar seu
aval para o projeto ter validade.
Técnicos afirmam que o governador não tem como aprovar tal aberração
ambiental e, se o projeto seguisse adiante, o Conama certamente vetaria,
desmoralizando uma decisão do governo de Mato Grosso.
Confira opiniões técnicas nesse vídeo
aqui.
O governador Silva Barbosa informa, através do
secretário adjunto de Estado de Comunicação Social, Onofre Ribeiro, que
o projeto ainda não voltou ao executivo e isso deve ocorrer na próxima
semana, entre os dias 7 e 11 de fevereiro. Sobre o que vai fazer diante
dessa polêmica, ou seja, se vai aprovar ou vetar o substitutivo 3,
Ribeiro afirma que o governo ainda não tem posição sobre isso. “Até
porque ainda estão mexendo na lei”.
Protestos
Diante da pressão dos ambientalistas, numa reviravolta política incomum,
o substitutivo voltou à AL, para ser reformado.
Para tornar pública sua indignação, entidades ambientalistas e sociais
articuladas fizeram um ato na cerimônia de diplomação do governador e
parlamentares eleitos, dia 16 de dezembro, no Cenarium Rural, em Cuiabá,
cobrando do governo o veto sensato. Veja o protesto nesse vídeo
aqui.
E assinaram manifesto de repúdio, protocolado no dia 10 de novembro de
2010 no gabinete do governador. Leia o manifesto
aqui.
Em outra nota de repúdio, o mesmo grupo questiona a consultoria
contratada por Dal Bosco para orientar as mudanças que aparecem na
terceira versão do zoneamento.
Mídia
Para o ICV, o assunto, por sua gravidade, ainda não teve a devida
ressonância nos meios de comunicação locais – jornais, televisões e
rádios, sites, revistas. A estratégia tem sido tentar levar a causa à
mídia nacional e internacional.
ENTREVISTA
“É estranho”, admite deputado Ságuas
Deputado, como o senhor explica o seu voto isolado contra o substitutivo
3?
O substitutivo 3, ao meu ver, alterou aquela discussão inicial, não
levou em consideração os critérios propostos. Portanto, não tinha como
eu votar naquele modelo de zoneamento. Com certeza não passaria no
Conama. Então, se nós queremos um documento que vai nos credenciar
inclusive para a disputa econômica internacional, estaríamos dando um
tiro no pé. O substitutivo 3 significa que Mato Grosso vai ficar
atrasado nesse processo.
Houve manobra da bancada
ruralista para atropelar o substitutivo 1 e empurrar o 2 e depois o 3?
Não sei se o tema é esse, manobra...Sei que houve uma modificação que
desconsiderou os critérios propostos, isso ficou muito ruim. E significa
só atraso para Mato Grosso.
Houve favorecimento pessoal?
Interesse pessoal não acredito, houve sim muita pressão de todos os
lados.
Mas só um deputado votou contra.
Sim, só um. Porque eu tenho o entendimento que Mato Grosso vai perder
mais uma vez. Uma coisa que a gente tem que por na cabeça, quem é
legislador principalmente, é que aprovação aqui é muito rápida,
conversamos muito pouco sobre o que vamos aprovar. No Congresso não é
assim, até porque temos que pensar o país como um todo, a gente
amadurece melhor as matérias a serem votadas.
O senhor tem interesse na pauta ambiental e pretende leva-la ao
Congresso Nacional?
Eu moro na região amazônica, moro em Juína, então tenho sim interesse na
pauta ambiental, mas não vai ser minha prioridade no Congresso. Minhas
prioridades são educação, saúde e combate às drogas, principalmente
buscando alternativas de trabalho para a juventude e garantindo
tratamento ao usuário, que deve deixar de ser considerado bandido. O
usuário é doente. Anos atrás, conseguimos mudar isso com relação ao
alcoolismo, que é uma doença. Agora temos que fazer o mesmo com relação
às outras drogas. O usuário tem que ser tratado. Mas a questão ambiental
tem uma importância muito grande.
O governador não vetou nem aprovou o substitutivo 3 e, quando as partes
esperavam uma posição dele, devolveu o projeto à Assembléia Legislativa.
Esse não é um trâmite incomum?
Disseram que foi para fazer alguma correção no texto. Mas é estranho,
porque um projeto aprovado, quando vai pra publicação, já vai com todas
as correções. Pode ser que a revisão não tenha sido feita como queriam,
mas obviamente que, normalmente, a redação final vai para sanção do
governador e acabou. Quando o governador veta, pode ser que a matéria
volte à Assembléia Legislativa se houver a possibilidade de algum
acordo. Por questão de revisão de texto, é incomum. Mas o governador
ainda vai ter que decidir, se veta ou não. Não tem como fugir disso. E a
cada dia temos que levar mais em consideração um modelo que valorize o
homem, mas também a questão ambiental. Não adianta uns terem muito e a
maioria ficar na miséria, como também não adianta avançarmos
socialmente, sem dar importância ao meio onde a gente vive. |
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