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Judiciário brasileiro colhe frutos amargos
* Por Antonio Carlos Ribeiro
A atuação do Poder Judiciário brasileiro tem recebido muitas críticas ao
longo dos últimos anos. Não são apenas os supersalários que os ministros
do Supremo Tribunal Federal já usufriam há meses, que fez o legislativo
votar a equiparação, com o danoso efeito cascata nos estados e
municípios. O Presidente Lula negou a extradição de Cesare Battisti ao
governo italiano – envolvido em crise e seguidas denúncias de
prostituição, incluindo uma brasileira – e recebendo aplausos dos
melhores juristas brasileiros ao ministro da Justiça Tarso Genro
(http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16392).
Entre uma e outra, diversos equívocos oriundos da politização indevida.
Parece que o ritmo de reformas da sociedade brasileira que finalmente
pôs o Brasil na modernidade, como publicou o jornal francês Le Figaro,
está longe de chegar às portas do Judiciário. A rigor, pelo acúmulo de
denúncias de corrupção, de favorecimento em troca de blindagens
jurídicas e, pasmem, da segurança da impunidade assumidas com arrogância
por membros de cortes federais parece ter feito esgotar a paciência
histórica da sociedade, ao mesmo tempo que esta foi se empoderando para
reagir.
Há ministro que quando Advogado Geral da União recomendou que o Governo
Federal descumprisse decisão do STF e depois chegou à presidência da
mais alta corte, que desacatou o Presidente da República e do Senado,
que emitiu habeas corpus para criminoso financeiro duas vezes em menos
de 24 horas, ou pior de tudo, tentou trazer para o judiciário funções do
Executivo e do Legislativo. Além de escândalos como processar juiz
federal implacável com o crime, retaliações como a desregulamentação da
profissão de jornalista, manobras para exigir o título eleitoral na
votação e desconstruir a lei da Ficha Limpa, entre outras.
Essa semeadura de erros com vistas ao acúmulo de poder chegou ao tempo
da colheita – este ano – e os frutos parecem amargos.
Em março a Comissão Inter-americana de Direitos Humanos (CIDH), da
Organização dos Estados Americanos (OEA), condenou o Estado de Mato
Grosso – entenda-se o Brasil – a indenizar a família do agricultor
Henrique Trindade, morto por policiais a mando de grileiros. O crime
envolveu requintes de crueldade, chocando a sociedade e a Corte
Interamericana, 28 anos depois. A condenação baseou-se no
comprometimento da ação do Estado, no envolvimento de policiais, na
corrupção que falseou a apuração dos fatos e no esgotamento dos recursos
judiciais no próprio país.
Dois meses depois, a Anistia Internacional (AI) – organização não
governamental (ONG) sediada em Londres e que monitora violações contra
direitos humanos – denunciou o Brasil pelas atrocidades praticadas em
conflitos agrários, contra povos indígenas e em presídios. De novo o
mundo mostrou-se horrorizado com a violência praticada por agentes de
órgãos de segurança ou com a conivência destes em nosso país.
O caso mais grave neste relatório da AI sobre o ano de 2009 era a
violência sofrida pelos índios guarani-kaiowá, da região de Dourados
(MS). A denúncia de que o governo do Mato Grosso do Sul e fazendeiros
corromperam tribunais para impedir a demarcação de terras indígenas,
suscitou reprovação. A atuação da Polícia Federal e a resistência e
organização dos indígenas fez a situação se agravar. Os fazendeiros
contrataram pistoleiros para atacar aldeias da tribo guarani-kaiowá. A
intervenção da justiça não mudou o quadro.
No início deste mês, a vice-procuradora-geral da República, Deborah
Duprat, no XI Encontro Nacional da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão
(CCR) do Ministério Público Federal (MPF), em Campo Grande, afirmou que
“a reserva de Dourados é talvez a maior tragédia conhecida na questão
indígena em todo o mundo”. A denúncia da procuradora teve repercussão
porque Mato Grosso do Sul tem a 2ª maior população indígena do Brasil –
70 mil índios – que sofre cruelmente com o conflito de demarcação de
terras, a discriminação, a violência dos fazendeiros e o descaso do
governo estadual, que transforma essa vulnerabilidade em genocídio. Sem
contenção do Judiciário.
No dia 14 de dezembro surge outra condenação do Brasil pela CIDH, por
causa da decisão do Supremo Tribunal Federal de arquivar a ação da Ordem
dos Advogados do Brasil (OAB) que contestava a Lei da Anistia. O voto do
relator, Eros Grau, também vítima de tortura, reafirmou a ‘legitimidade’
da atuação baseando-se na Politische Theologie (Teologia Política) de
Carl Schmitt, jurista do Terceiro Reich. As ministras Ellen Gracie e
Cármen Lúcia, insensíveis com a questão de gênero e, apesar do número de
mulheres violentadas, apoiaram o relator Grau.
Os ministros Ricardo Lewandowski e Carlos Ayres Britto devem ser
lembrados por suas convicções humanistas, com as quais resistiram com
firmeza e convicção. Ao votar a favor da ação da OAB, não participaram
no erro que gerou a primeira condenação da Corte Interamericana a
alcançar o topo do sistema judiciário. Os juízes da CIDH entendem que
nenhuma lei pode impedir a investigação e sanção de graves violações de
direitos humanos, responsabilizando o Estado por essas violações, pela
inadequação do direito interno à Convenção e pelas violações dela
decorrentes.
Por último, documentos diplomáticos divulgados pela WikiLeaks mostram
que o governo americano desconfia do sistema judiciário brasileiro – o
poder republicano incumbido de julgar falhas e desvios no legislativo e
no executivo – no julgamento de ações a respeito de terras ocupadas
ilegalmente por latifundiários e um conjunto de crimes, como o da freira
norte-americana Dorothy Stang, que surgem na esteira das diversas falhas
na aplicação do aparato legal na punição dos crimes fundiários.
O embaixador John Danilovich afirmou que "os tribunais são o elo frágil
no sistema brasileiro; uma vez que o caso chegue lá, será preciso um
bocado de pressão para fazê-lo avançar. Planejamos acompanhar isso bem
de perto". O diplomata aproxima-se do problema ao concluir que "é a
lentidão do governo federal e dos tribunais, em confiscar e redistribuir
essas terras, e a percepção de que juízes locais favoreceram de forma
desnecessária os proprietários de terras, que incitaram o recente ciclo
de tensões". Além de um conjunto de detalhes apurados por três agentes
do FBI (Polícia Federal dos EUA), atuando na Embaixada Americana no
Brasil.
Se movidos pela politização do STF, que torna inócuo seu papel de
intérprete da Constituição, a Corte sequer reagiu quando o deputado
Ettore Pirovano, do partido conservador Liga Norte, ironizou o trabalho
de juristas brasileiros. "Não me parece que o Brasil seja conhecido por
seus juristas, mas sim por suas dançarinas”, disse ao comentar o refúgio
político concedido a Cesare Battisti, ex-militante de esquerda. E agora
vive o risco de anular a decisão de um Chefe de Estado legítimo, cedendo
às pressões do Estado emporcalhado pelos escândalos de prostituição do
governo de direita de seu Primeiro Ministro. Talvez devesse acertar uma
vez, ao menos para defender a inteligência e a autoridade jurídica do
Brasil.
Houve um conjunto de outras falhas de funcionários públicos em funções
judiciais, articulados com lideranças estaduais, sobretudo ao
pretenderem agir politicamente ou se valerem dos poderes e competências
que a Constituição lhes atribui para tal. Mas para um setor que sempre
julgou e nunca teve suas ações julgadas pela sociedade e os demais
poderes, e sobretudo, com a sentença de uma corte como a CIDH, composta
de juízes dos demais países latino-americanos, o caso vai gerar
incômodos. Se os frutos colhidos têm sempre mais um sabor amargo, talvez
seja o tempo de acelerar as reformas que, apesar de todos os problemas,
já começou nos demais poderes da República. E justamente por não ter
chegado ao Supremo Tribunal Federal compromete todo o esforço da
sociedade brasileira.
* Antonio Carlos Ribeiro é teólogo luterano, jornalista e professor
universitário no Rio de Janeiro (antoniocarlosrib@gmail.com) |