Chagas do Brasil: senhores de escravos Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/5608
“Chaga” é uma palavra antiga,
quase em desuso. É bem mais forte, porém, do que “ferida”, pois parece
conter uma carga simbólica que esta não tem. Pois bem: dentre as chagas
da sociedade brasileira, três talvez sejam as mais denunciadoras do
nosso subdesenvolvimento (este vocábulo, embora bem mais recente, soa
como completamente fora de moda!): o analfabetismo, a violência policial
e o trabalho escravo. Parece inacreditável, mas no Brasil ainda existe
trabalho escravo, em pleno século 21.
Ao comparecer ao Senado no dia 3/2, para participar de reuniões sobre o
assunto, a ministra Maria do Rosário, da Secretaria Especial de Direitos
Humanos da Presidência da República (SEDH), pediu apoio à bancada
ruralista no combate ao trabalho escravo. “Eu acredito que mesmo a
bancada ruralista na Câmara dos Deputados e no Senado pode ter amplo
interesse nisso. Porque o agronegócio brasileiro não se confunde com o
trabalho escravo. Produção de grãos, a produção primária no Brasil, não
tem trabalho escravo. Onde tem trabalho escravo, tem que ser punido”,
declarou a ministra, segundo reportagem de Rachel Librelon e Silvia
Mugnatto publicada pela Rede Brasil Atual.
A ministra tocou num ponto importante, nevrálgico. Isso porque, se há
escravos, há senhores de escravos. E quem são esses senhores de
escravos? Ora, em sua maioria, fazendeiros e grileiros, que fazem parte,
portanto, da base social da bancada ruralista. A mesma bancada que faz
oposição cerrada à revisão dos índices de produtividade da terra,
essenciais à reforma agrária; a mesma bancada que pretende reduzir o
Código Florestal a uma caricatura; a mesma bancada que, sim, vem se
opondo a medidas efetivas contra o trabalho escravo, tendo como
porta-voz maior a senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação
Nacional da Agricultura (CNA).
A ministra da SEDH está coberta de razão ao pedir o apoio dos
ruralistas. Porém, o mais provável é que se trate de um “diálogo de
surdos”. Historicamente, a bancada ruralista tem se comportado como um
dos setores mais reacionários do parlamento brasileiro. A propósito, não
podemos nos esquecer de que até hoje não foram punidos os mandantes e
executores do assassinato de três auditores fiscais e um motorista do
MTE, ocorrido em 2004 na região de Unaí, após fiscalização em lavouras
de feijão onde costuma ocorrer trabalho escravo.
Somente a conjugação de duras medidas punitivas – desapropriações com
base na PEC 438/01, uma vez aprovada pelo Congresso Nacional, e
condenação judicial dos responsáveis por crimes contra fiscais e contra
trabalhadores – é que poderá reverter o quadro atual, pondo fim à
existência de escravos (e de senhores de escravos).
Pedro Pomar é jornalista, editor da Revista Adusp e doutor em ciências
da comunicação.
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