Movimentos sociais tentam rearticular grupos de luta por mudanças na
mídia
Carta aberta assinada por organizações de caráter nacional com o
objetivo de traçar caminhos conjuntos para a unidade e o fortalecimento
do movimento de comunicação. Durante o Congresso da Associação
Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço), a carta foi entregue à
Executiva do FNDC, que apontou para a construção de uma agenda de
atividades nos estados e em âmbito nacional.
Fortalecer a organização e garantir a unidade do movimento de
comunicação
A realização da I Conferência Nacional de Comunicação foi um marco para
o movimento que atua nas questões de comunicação no Brasil. Depois de
três anos de articulações e pressão ininterrupta, organizações
sindicais, movimentos sociais, coletivos e ONGs foram protagonistas de
um debate de dimensão inédita, unindo-se em torno de uma pauta que
garantisse a democratização do setor e a efetivação do direito à
comunicação para os cidadãos e cidadãs.
A Confecom ampliou o campo do movimento de comunicação, e trouxe para a
discussão setores que até então acompanhavam-na de forma distante. As
comissões regionais pró-conferência e a comissão nacional funcionaram
como espaços catalizadores absolutamente fundamentais para a construção
da unidade organizativa que a sociedade civil precisava naquele momento.
No cenário pós-conferência, contudo, o movimento não conseguiu manter
espaços comuns de síntese programática e organizativa que viabilizassem
uma atuação forte e unitária. Essa dificuldade foi prejudicial para todo
o movimento, que não conseguiu impulsionar a agenda de implementação das
resoluções da Confecom.
No momento em que se fortalece a pauta de construção de um novo marco
regulatório para o setor, não podemos manter uma organização dispersa.
Ao contrário, é preciso que o movimento aproveite sua proximidade
programática para fortalecer sua unidade organizativa, de modo a gerar o
máximo aproveitamento de energia das organizações e indivíduos que se
empenham por transformações nesse campo.
O papel do FNDC
Em nosso entendimento, o espaço que reúne as melhores condições para
isso é o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. O FNDC é um
instrumento político construído pela classe trabalhadora brasileira que
historicamente teve papel de resistência aos grupos hegemônicos da
comunicação em nosso país. Sua fundação, no início da década de 90,
reuniu os grupos que já atuavam em conjunto sobre esta pauta desde os
anos 80 (incluindo o processo constituinte), e representou, naquele
momento, o espaço de construção da unidade programática e organizativa.
Com a ampliação do movimento, o FNDC passou a não representá-lo mais em
sua totalidade. Embora o Fórum tenha continuado como referência
principal da atuação do movimento de comunicação, suas ações não mais
representam o conjunto da sociedade civil com interesse no setor. Esse
novo contexto refletiu-se claramente no processo de construção da
Confecom e de suas etapas estaduais e nacional.
Isso não significa que a importância do FNDC tenha diminuído – é
exatamente o contrário. Por sua representatividade e por reunir a maior
parte das organizações que têm envolvimento orgânico com a pauta, sua
relevância para o movimento só aumentou. Aumentou também sua
responsabilidade. Em um cenário de ampliação do movimento, cabe ao Fórum
o papel de agregá-lo em todo seu conjunto.
Seria um erro histórico se as organizações que estão fora deste espaço
buscassem a construção de uma outra referência que não reunisse os
atores historicamente engajados nessa luta. Uma rápida análise da atual
conjuntura deixa claro que o cenário é bastante delicado para aqueles
que acreditam na necessidade de transformações radicais neste setor.
Segmentos conservadores que detêm o controle dos meios de comunicação
fazem constante campanha contra qualquer mudança, tachando de
“liberticidas” aqueles que ousam enfrentar interesses ao lutar pela
ampla e irrestrita liberdade de expressão e pela efetivação do direito à
comunicação. O momento exige unidade programática e organizativa.
Em busca da unidade
Frente a esse quadro, nos parece fundamental que o Fórum Nacional pela
Democratização da Comunicação se constitua como o espaço de realização
da unidade do movimento. Isso não se dará de uma hora para outra, mas
pode se iniciar com duas ações concretas. A primeira é a sinalização
clara do próprio Fórum de que ele tem a intenção de cumprir esse papel.
A segunda é o ingresso de mais organizações de caráter nacional e local
nos quadros de associados do FNDC.
As organizações que subscrevem essa carta estão dispostas a seguir esse
caminho. Acreditamos que o fortalecimento nacional e estadual do FNDC
vai dar condições para o fortalecimento organizativo do movimento,
essencial para o período que se aproxima.
Do nosso ponto de vista, a construção da unidade neste momento não pode
nem deve significar perda da autonomia das entidades, mas um esforço em
produzir sínteses comuns em torno das resoluções da Confecom, com vistas
a encaminhar ações coordenadas. Acreditamos que essa unidade pode ser
construída em um ambiente de diálogo franco e leal entre as
organizações, com mecanismos democráticos de participação e decisão, em
uma organização formatada de modo a refletir a diversidade do movimento.
Fazemos essa proposta de forma franca e fraterna, acreditando que tanto
os destinatários quanto os signatários estão do mesmo lado da
trincheira, com objetivos comuns. Esperamos que seja possível
concretizar esse espaço de unidade e fortalecer ainda mais o FNDC como o
espaço de organizações dos trabalhadores e do movimento social na luta
pela democratização da comunicação.
Brasília, 20 de janeiro de 2011
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