Resistência de menino-moço

 

Por Dafne Spolti*

 

Vira e mexe estou sentada na distribuidora do seu Erimar, no Boa Esperança. Janto e tomo cerveja. É um barzinho universitário. Algumas vezes passa lá um garoto de 15 anos, negro, com alguns traços indígenas, vendendo quiabo, maxixe, pimentão, milho e outros vegetais saudáveis. Esse menino é um resistente. Tão bonito. Mora no bairro Osmar Cabral onde trabalha de terça a sexta. Aos finais de semana vem para os locais mais próximos ao centro.

 

Esse menino-moço é um resistente! Não foi para outros tantos caminhos, (também desgastantes) do crime como o tráfico, a “bandidagem”. E não é usuário das drogas que provavelmente muitos amigos seus já devem usar. Enfim, por mais que deva sofrer adversidades em seu dia-a-dia na comunidade da periferia onde mora, mantém-se firme. Imagino eu que deve ter uma base familiar muito bacana, para ser tão trabalhador.

 

Esse menino-moço é um resistente. Apesar de ver na TV que ele precisa consumir o tempo todo para ser feliz, comprar Nike, comprar celular, sabe criticar as gentes ricas que têm dinheiro, mas não tem respeito e educação:

 

- Ah, os ricos são quem menos pagam e os mais exibidos, diz ele. Andam num carrão daqueles e não tem dinheiro pra comprar as verduras. Só cartão. Não gosto de gente rica. Mas alguns deles são bem legais e com essas pessoas tenho um tratamento diferente, escolho as melhores verduras – É mais ou menos essa a fala do querido rapaz. Ele não é bobo não.

 

Lá no bairro dele, apesar das dificuldades todas, as pessoas se ajudam muito mais. Já repararam como é bonito que nas periferias as pessoas são verdadeiramente solidárias? Percebem que as pessoas se falam mais? Acostumado com isso, para ele que trabalha vendendo as verduras o crime é normal só que não é bom. Mas a vida fechada e fria de gente rica é fora do normal. Ele pergunta “pra quê essas madames chiques que vivem no salão tem que tratar mal a gente?. To trabalhando”. Mais ou menos com essas palavras ele diz ainda que às vezes não se segura e dá umas respostadas “daquelas”.

 

Muito bom menino-moço!

 

Tomara que você encontre o menino-moço por aí. Com um sorriso gostoso, ele conquista a quem se abre para ele.

 

Ser humano hoje em dia é uma resistência!

 

Menino-moço, siga com fé.

 

*Dafne Spolti é estudante de jornalismo da UFMT e membro do Coletivo Juntos Somos Fortes.

 







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