O ar do copo ocupa o lugar do vinho
Por Andrea Portela*
Antes, quero deixar claro que adoro a tecnologia, as facilidades de uma
vida cheia de botões e que nos garantem mais velocidade de deslocamento
e informação. Mas tudo isso é fácil pra quem, se meu tempo de trabalho
foi multiplicado? Tempo destinado a sobreviver e que, no entanto, nos
mata. Quem pode matar o tempo?
Se nem Kant ou nenhum outro filósofo pode definir o tempo, vou tentando
controlar o meu próprio. E percebo que quanto mais comprimimos nosso
tempo, mais liberamos o fascismo que mora dentro de nós, desejosos de
algo que nos domina e nos explora.
O relógio continua a contagem dos minutos como faz há séculos, mas
achamos que os ponteiros estão acelerados porque tudo fica pra última
hora, ou atrasado mesmo.
Embora engolida por senhas, a memória me lembra que ainda é hora de
sentir a estupidez com que vamos, bem ligeiros, negligenciando nossa
saúde, nossa família, nossa vida social e cultural. Com tanta “coisa”
pra fazer, até o almoço pode esperar enquanto trabalho sedentariamente.
Não sabemos controlar a velocidade do nosso corpo, do nosso carro e nem
da própria vida (aquela que seria o vinho).
Consumidos pelos horários, encantados pela velocidade que nos impomos,
não sobra tempo pra perceber a falta de pressa dos parlamentares em
aprovar leis que nos beneficiariam. A falta de pressa em exterminar a
fome e o analfabetismo. A lentidão total frente às aflições humanas.
Se o tempo é inventado posso escolher como construo o meu. Escolher dar
um tempo. Tempo pros filhos, pra família, pra sentir o gosto da água que
bebo e para sorver as coisas simples que passam por mim e pelas quais
vale a pena viver. Antes de perceber que o tempo passou e que já é tarde
demais.
* Andrea Portela é pedagoga, design de moda e pesquisadora do Núcleo de
Estudos do Contemporâneo (CNPq/UFMT). É mestranda em estudos de cultura
contemporânea e atua como figurinista.
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