O papel dos leigos e leigas cristãos em um período de crise da fé.
Entrevista especial com Christian Albini
9/12/2010
Diante de
"tempos radicalmente novos", como os leigos e leigas cristãos se
posicionam e vivem a sua fé, em diálogo com a sociedade civil? Para nos
ajudar a responder a essa pergunta, a IHU On-Line entrevistou o
teólogo leigo italiano
Christian Albini,
ativo participante da Igreja diocesana de Crema, na região da
Lombardia, na Itália, e autor de diversos livros e de um blog
em que publica diversas reflexões religiosas.
Para Albini, uma mudança estrutural da Igreja é inevitável. "O
catolicismo europeu correspondia a um ambiente totalmente cristão, em
que o outro, o diferente, estava do lado de fora. Na Igreja planetária,
ao invés, a convivência com a alteridade é a norma. A cristandade
passou", afirma.
É a partir
dessa perspectiva que Albini analisa, nesta entrevista concedida
por e-mail, a questão da pedofilia, do sacerdócio e da formação
sacerdotal para o século XXI, das novas questões teológicas e de figuras
centrais na vida da Igreja italiana, como o cardeal emérito de Milão,
capital da Lombardia,
Carlo
Maria Martini,
e do recém criado cardeal
Gianfranco Ravasi,
que trabalhou durante muitos anos com Martini.
Nesta
entrevista, Albini analisa o
futuro da Igreja Católica
a partir do ponto de vista de um leigo. Por isso, afirma, "é necessário
desenvolver uma reflexão sobre a sinodalidade como participação de todo
fiel na vida da Igreja e, portanto, também dos processos decisórios".
Sem uma elaboração desse tipo, defende, "teremos uma Igreja clerical, em
que o papel da hierarquia irá continuar sendo concebido na perspectiva
do poder e não do serviço".
"Como leigo, todas as
perspectivas que a minha Igreja me colocou à disposição consistiam em
"dar uma mão" em atividades projetadas e geridas pelo clero. Não! Não é
possível! Se somos todos batizados, se somos povo sacerdotal, se
recebemos o mesmo Espírito em uma Igreja-comunhão, é absurdo que à maior
parte de nós não seja reconhecida uma identidade, ministérios,
carismas", resume.
Christian
Albini,
nascido em 1973, em Crema, na Itália, é casado e pai de
dois filhos. É formado em Ciências Políticas pela Università degli
Studi di Milano e licenciado em Ciências Religiosas pelo Istituto
di Corso Venezia. É membro da Associação Teológica
Italiana. Na diocese de Crema, é membro da presidência do
Conselho Pastoral e colabora com a Cáritas, a pastoral
familiar e o Centro Diocesano de Espiritualidade. Na
comunidade paroquial de San Giacomo, faz parte de um grupo de
famílias e atua em um Centro di Ascolto delle Povertà. Autor de
livros e artigos sobre temas teológicos, espirituais e filosóficos,
Albini fez parte da redação da revista Aggiornamenti Sociali.
Hoje, também mantém o blog Sperare per Tutti (sperarepertutti.blog.lastampa.it).
É cofundador do Centro Viandanti.
Confira a
entrevista.
IHU
On-Line – Como o senhor analisa a
conjuntura da Igreja Católica
no fim desta primeira década do século XXI? Que “sinais dos tempos”
podem ser destacados nesse período dentro da vida da Igreja?
Christian
Albini –
Em 1974, o missionólogo Walbert Bühlman falava de uma “Terceira
Igreja às portas”, defendendo que o centro geográfico e vital do
cristianismo está se deslocando, como já ocorreu no passado. Se, no
primeiro milênio, foi prevalente o cristianismo oriental, no segundo a
presença cristã caracterizou mais o mundo ocidental. Bühlman, a
partir das tendências demográficas e dos sinais de vitalidade das
diversas igrejas locais, defendia que o século XXI seria caracterizado
por um ulterior recentramento rumo ao hemisfério Sul do planeta.
"Na base, muda tudo, mas na cúpula não se toca em nada. É uma ilusão!
Uma mudança também estrutural da Igreja é inevitável"
Hoje, nós
chegamos aí! A Igreja Católica já é uma realidade planetária cujo centro
de gravidade está se tornando os continentes que eram, tempos atrás,
colônias ocidentais, como explicou nas suas obras o historiador e
sociólogo
Philip Jenkins.
Em 1900, dois terços dos 270 milhões de católicos se encontravam na
Europa. Hoje, os fiéis europeus são menos do que um quarto dos cerca de
1,2 bilhão de católicos. Em 2050, serão apenas 15%, muitos dos quais
imigrados da África, da Ásia e da América Latina.
É uma mudança se precedentes, da qual é impossível prever as
consequências.
A cúpula da hierarquia parece querer controlar essa mudança, mantendo os
arranjos até agora em curso. Basta pensar no último consistório, em que
o número dos cardeais italianos (10 em 24 nomeações) é um dado fora da
história. Além disso, os eclesiásticos que cobrem os postos de maior
responsabilidade, no Vaticano como nas várias igrejas nacionais,
são quase sempre aqueles mais alinhados com a visão da Cúria Romana,
razão pela qual bispos nascidos na Índia ou na Bolívia
pensam como em Roma. Na base, muda tudo, mas na cúpula não se
toca em nada. É uma ilusão! Uma mudança também estrutural da Igreja é
inevitável.
Seguramente, o catolicismo perderá aquela uniformidade que o
caracterizou no segundo milênio. Não haverá mais um mundo católico
definido e circunscrito (a Europa) com um único centro (Roma).
O catolicismo que herdamos do passado é totalmente interno a um mesmo
paradigma teológico, litúrgico, espiritual e jurídico, que se estruturou
na Idade Média e depois com o Concílio de Trento, em
resposta ao “desafio” protestante, que surgiu do encontro do
cristianismo com a civilização greco-romana. O enraizamento da Igreja
Católica em outros ambientes e em outras culturas, não assemelháveis
entre si, suscitará novas germinações, novas histórias e tradições.
Decairá um paradigma dominante, mas coexistirá uma pluralidade de
variáveis da identidade católica (africana, asiática, europeia,
latino-americana…). Irão se separar, indo cada uma pelo seu próprio
caminho? Irão se influenciar e se enriquecer mutuamente? Eu espero esse
segundo cenário, com uma articulação das teologias, das liturgias, das
espiritualidades, das normas.
"Vejo a pós-modernidade como a decadência de uma perspectiva única e
unitária. Acabou a civilização cristã"
Será um catolicismo menos
autocentrado. O catolicismo europeu correspondia a um ambiente
totalmente cristão, em que o outro, o diferente, estava do lado de fora.
Na Igreja planetária, ao invés, a convivência com a alteridade é a
norma. A cristandade passou. É uma situação que me parece mais próxima
daquela da Igreja das origens, diversificada no seu interior e misturada
com outros sujeitos. Considero-a mais adaptada a responder aos desafios
da pós-modernidade, na qual um cristianismo homogêneo e monolítico
poderia resistir só como seita, como fortaleza assediada que, ao seu
redor, só vê inimigos. Seria um fundamentalismo residual. E seria uma
traição da universalidade do Evangelho, cuja semente está presente em
todo ser humano, em todo povo, em toda cultura. Nós cremos em um Deus de
seres humanos, um Deus que se encarna na história e nos encontra no
nosso “aqui e agora”.
IHU
On-Line – Um dos cardeais que mais se destacou como defensor das
propostas do Vaticano II e de um diálogo mais profundo entre modernidade
e Igreja foi Carlo Maria Martini. Como o senhor avalia a sua importância
e o seu impacto na Igreja italiana e também mundial?
Christian
Albini –
Carlo Maria Martini
é indubitavelmente um dos homens da Igreja ao qual é reconhecida uma
autoridade moral maior, mais em razão da sua mensagem do que do seu
papel institucional. Não por acaso ele está entre os autores católicos
mais lidos em nível mundial. O seu mérito foi o de pôr em primeiro plano
alguns elementos fundamentais: o primado da Palavra de Deus, com base no
qual o texto bíblico, estudado segundo as descobertas da exegese
histórico-crítica e assimilado na oração, é o ponto central da vida
cristã e de todo discurso pastoral ou espiritual; a adoção de uma
perspectiva contemplativa em que o cristianismo não é vivido como
ideologia, como código moral ou como identificação com uma instituição
religiosa, mas como encontro com o Senhor Ressuscitado que suscita
comunhão; a escolha de ouvir, a despeito do julgar e do repartir
ensinamentos caídos do céu, que torna possíveis a confiança e o
encontro.
Esses conteúdos foram
comunicados adotando uma linguagem simples e acessível, diferentemente
de uma certa terminologia eclesial que a maioria não compreende, e um
estilo humilde e manso, que propõe mas não se impõe. Tudo isso lhe
permitiu dialogar e anunciar a esperança cristã a 360 graus, dialogando
com não crentes ou crentes de outras denominações.
"Na Igreja planetária, a convivência com a alteridade é a norma. A
cristandade passou"
Em Milão, a Igreja de Martini não se fechou nos recintos
sagrados, esteve presente, mas não invasiva, nas situações cruciais
vividas pela cidade: o terrorismo, o secularismo, a corrupção política e
a perda dos valores morais. Também graças a ele, a comunidade cristã
soube ser um sinal e um ponto de referência.
Não sou capaz de quantificar a
sua influência, mas certamente não é de se ignorar. O fato é que, pelo
menos na Itália, instaurou-se uma situação de fato pela qual a
comunicação pública da Igreja é fortemente condicionada pela cúpula da
Conferência Episcopal, razão pela qual os bispos tendem a não se expor e
têm poucas margens de intervenção em primeira pessoa sobre as questões
“ardentes”. Dou um exemplo. Há pouco tempo, em uma diocese do norte da
Itália, um bispo havia aceitado confrontar-se em um debate público com
um homem político, conhecido pelas suas posições críticas com relação ao
recente magistério católico em matéria de bioética. De Roma, chegou-lhe
a indicação de delegar um outro, porque a sua simples presença,
independentemente do que dissesse, poderia soar como uma implícita
legitimação do interlocutor!
É difícil,
em um contexto desses, avaliar o seguimento de Martini, ao qual sua
aposentadoria concedeu um posterior espaço de liberdade. Pense-se no
livro-entrevista
Diálogo Noturnos em Jerusalém,
que foi um grande sucesso. Neste período, prevalece um estilo de
presença na sociedade que é o oposto do que foi praticado por Martini,
razão pela qual aqueles que gostariam de seguir o seu exemplo continuam,
por assim dizer, “sob proteção”.
Apesar disso, a sua influência está presente em muitos documentos
importantes do episcopado italiano que são frutos de uma elaboração
coletiva. As orientações pastorais nacionais para a próxima década,
Educare alla vita buona del Vangelo, também são marcados por
uma importante carta pastoral que Martini havia dedicado
profeticamente ao tema educativo há mais de 20 anos (Dio educa il
suo popolo). Isso quer dizer que diversos bispos fazem
referência a ele!
IHU
On-Line – Qual é o significado de fundo da crise da pedofilia vivida
pela Igreja nos últimos anos? Como o senhor analisa a resposta do
Vaticano e que consequências futuras isso pode trazer para a Igreja em
geral?
Christian
Albini –
No meu entendimento, os episódios ligados à
pedofilia
demonstram que uma formação dos sacerdotes que aponte unicamente ao
aspecto intelectual, à adesão à doutrina e ao magistério da Igreja, a
uma espiritualidade formalística, é insuficiente. Não me convencem as
explicações que apontam o dedo contra o laxismo [permissividade,
licenciosidade] em matéria de moral e de sexualidade que teria se
afirmado depois do Concílio e depois de 1968.
"Como leigo, todas as perspectivas que a minha Igreja me colocou à
disposição consistiam em "dar uma mão" em atividades do clero"
Os casos de
pedofilia se referem a uma orientação fortemente tradicionalista, como
demonstram os casos do ex-arcebispo de Vienna,
Groër,
e do fundador dos Legionários de Cristo,
Marcial Maciel.
A questão é a formação humana dos sacerdotes, a atenção à dimensão
psicológica dos sacerdotes, a atenção à dimensão psicológica, a educação
a uma espiritualidade que não seja devocionalística, mas que favoreça o
conhecimento de si mesmo e o discernimento.
Entre os padres, conheci muitas
personalidades não resolvidas, desequilibradas, cuja escolha de vida
levou mais a uma carência do que a um crescimento interior. As
problemáticas ligadas à sexualidade, que absolutamente não me parecem
diminuir, são só um aspecto da questão que se manifesta muito mais
frequentemente em atitudes de autoritarismo e de aridez afetiva, ou na
exibição de um “Eu” ideal, o qual não correspondeu ao “Eu” real, em uma
espécie de desdobramento esquizofrênico.
Há também pessoas maravilhosas,
que são autênticas testemunhas da fé, mas a minha sensação é de que elas
souberam enfrentar melhor suas próprias fragilidades, com as quais todos
nós devemos acertar as contas ao longo de toda a vida, não graças à
instituição, mas graças a um percurso interior próprio.
Sobre a
resposta do Vaticano, acredito que se deva distinguir entre os
casos do passado, em que prevalecia a tendência a encobrir, e os mais
recentes, em que se adotou um maior rigor. Considero, no entanto, que
muitas avaliações poderão ser feitas adequadamente só historicamente,
porque agora é muito difícil distinguir entre os fatos objetivos e o
sensacionalismo alimentado por muitos meios de comunicação. Toda essa
crise pode ser, para o clero católico, a ocasião para uma profunda
revisão, a menos que não se ceda à tentação de enfiar a cabeça na areia.
Não basta localizar os pedófilos e intervir. Se se cai no erro de pensar
que tudo se resolve tirando as maçãs podres do cesto, não se vê a
mentalidade e as práticas que favoreceram indiretamente essas situações.
O cardeal
Lehmann
alertou para o fato de atribuir exclusivamente ao indivíduo pecador as
falhas da Igreja, que é o modo de pensar que favoreceu as piores
práticas de encobrimento. E
Timothy Radcliffe,
com maior franqueza, afirmou que a crise da sexualidade entre os padres
está ligada ao poder e ao modo em que o poder funciona em todos os
níveis na Igreja. A partir dessa consciência, se deveria dar início a um
sério exame.
IHU
On-Line – Como o senhor analisa a questão do sacerdócio hoje? Que papel
os sacerdotes devem ter na Igreja contemporânea e que tendências o
senhor percebe para o futuro do sacerdócio?
Christian
Albini –
Diante da crise do sacerdócio, tenta-se inverter a tendência, repropondo
a centralidade do padre na comunidade e reafirmando uma dignidade sua
superior à dos outros fiéis enquanto mediador e representante de Cristo.
Apesar disso, há a exigência, por causa da queda numérica dos
sacerdotes, da maturação de uma reflexão pastoral com relação ao se
pensar um padre “na” comunidade e não “na cúpula” da comunidade.
Claramente, é uma linha sem perspectivas. É verdade que, em números
absolutos, os padres do mundo aumentam, mas menos do que o número dos
batizados segundo as tendências demográficas. Na Europa, depois,
a situação é de verdadeira escassez de vocações. O seminário da minha
diocese contava com 21 estudantes nas várias classes de 1970, enquanto
hoje tem seis. Há Igrejas locais que “importam” sacerdotes do exterior,
frequentemente com grandes problemas de integração. É um modo de puxar
um cobertor que se encurta.
"O padre irá encontrar o seu caminho na Igreja de amanhã só junto aos
leigos. Não o padre ou o leigo sozinhos, mas juntos"
Uma vez saídos dos seminários,
depois, muitos jovens padres se defrontam com contextos em que a imagem
ideal que formaram no seminário e que se encontra em tantos
pronunciamentos oficiais não procede. A carga de trabalho é anormal,
enquanto os poucos ordenados devem multiplicar os cargos para suprir a
diminuição dos padres. É inevitável, se o padre continuar sendo
considerado aquele que deve fazer de tudo um pouco.
Além disso, em um tempo de
secularismo, o seu status social desceu muito de nível, assim como os
êxitos da atividade pastoral são frequentemente desilusórios. Por isso,
então, há padres que vivem incomodados com o próprio ministério. Acabam
desenvolvendo verdadeiras formas de mal-estar psicológico. Outros, ao
invés, se refugiam na bolha do tradicionalismo, para a qual a
conformidade a um certo modelo de sacerdócio torna-se a fonte das
gratificações que faltam em outros lugares. O fato de se vestirem de um
certo modo, de celebrar de um certo modo, de se ater a certos esquemas
morais e doutrinais torna-se uma forma da qual o padre pode obter uma
espécie de autossatisfação. É o amparo oferecido, em tempos de
incerteza, pelas identidades fortes e rígidas que não se deixam colocar
em discussão.
Acredito que o caminho a ser
tomado pelos sacerdotes não é o de reforçar a autoridade do seu próprio
papel, mas de se orientar a um ministério de paternidade espiritual, de
oração, de anúncio da Palavra. O padre não deveria ser o “proprietário”
da paróquia, mas aquele que, em uma comunidade, sustenta, compartilha,
estimula, encoraja. Um sacerdote amigo me dizia que uma pessoa lhe fez
refletir ao lhe dizer: “Não vim ao seu encontro, mesmo que quisesse
falar com o senhor sobre o meu problema, porque eu tinha medo de
perturbá-lo”. É um episódio que o fez refletir. O seu povo o percebia
mais como um homem do “fazer”, comprometido em mil atividades, do que
como uma presença a qual podia se aproximar confiante.
A minha convicção é de que o
padre irá encontrar o seu caminho na Igreja de amanhã só junto aos
leigos. Não o padre sozinho ou o leigo sozinho, mas juntos,
confrontando-se, colaborando, compartilhando. Em uma diversidade de
carismas, mas em um plano de paridade e de complementaridade, saindo das
relações de poder que muito frequentemente prevalecem na Igreja. Se se
der esse passo, se perfilará um novo rosto da Igreja, mais confiável na
nossa sociedade.
IHU
On-Line – Que tendências teológicas o senhor percebe que estão ganhando
força no cenário mundial? Que novas questões estão surgindo no debate
teológico?
Christian
Albini –
Nesse âmbito, também estamos atravessando uma transição de êxitos
imprevisíveis. O século XIX foi um dos séculos de maior riqueza para a
teologia em toda a história cristã, com grandes novidades e figuras de
estatura gigantesca. Há, portanto, uma herança teológica do século XX
que ainda deve ser assimilada integralmente.
Além disso, tratava-se de uma
teologia, pelas razões que indiquei na minha primeira resposta,
fundamentalmente eurocêntrica, com a única exceção parcial na teologia
da libertação. Teremos a verdadeira novidade do século XXI com a
emergência de teologias próprias dos outros continentes, que não se
limitam a se mover no tabuleiro de xadrez fornecido pelas faculdades
romanas. São teologias ainda em incubação, porque, neste momento, têm um
porte circunscrito, sem um impacto sobre a Igreja universal.
"É necessário desenvolver uma reflexão sobre a sinodalidade como
participação de todo fiel na vida da Igreja e dos processos decisórios"
No século
XIX, ainda, os teólogos tiveram um papel de estímulo à renovação, de
endereçamento e de presença no debate público que hoje perderam, em
grande parte, pelo menos na Igreja Católica. Muitos procedimentos
disciplinares e documentos magisteriais redimensionaram e frearam a
pesquisa teológica. Não faltam estudiosos de valor, mas não surgem com a
força que tiveram figuras como De Lubac,
Rahner
ou Von Balthasar. Entre os italianos, lembro-me de Alberto
Cozzi, Paolo Gamberini, Marcello Neri, Serena
Noceti, Giovanni Cesare Pagazzi…
Diante de tempos radicalmente
novos, a teologia avançou em territórios anteriormente inexplorados.
Quando são ultrapassadas fronteiras, é preciso ousar, correr riscos,
arriscar. Esse impulso foi freado pela preocupação, também
compartilhável, de perder a herança da tradição. É uma exigência que se
poderia, no entanto, realizar de um modo diferente! A consequência dessa
freada é que a reflexão teológica hoje permanece confinada aos ambientes
acadêmicos e está ausente no debate público.
De todos os modos, acredito
que, na teologia de hoje, há “canteiros abertos”, nos quais os trabalhos
devem prosseguir: o pluralismo religioso, as novas fronteiras da ética
(bioética, ética sexual, ética ambiental...), a laicidade e a
democracia, a pós-modernidade, a justiça social no contexto da
globalização, a relação com a ciência, a dimensão feminina, o
aprofundamento da comunhão para ir rumo a uma Igreja menos clerical. São
todos capítulos enormes.
Gostaria
de indicar algumas pistas ao longo das quais estou me movendo na minha
pesquisa pessoal. Sobretudo, considero que se deva trabalhar muito sobre
o léxico da teologia. Se eu tivesse que indicar um projeto de pesquisa
coletivo para os jovens teólogos, seria o de um novo léxico. De um lado,
porque muitos conceitos tradicionais não dizem nada para a cultura
contemporânea; por exemplo, termos como sacramento, graça, dogma... É
preciso reexpressá-los e reapresentá-los, como também sugeria
João
XXIII
na abertura do Concílio Vaticano II.
Por outro lado, o pensamento
moderno e contemporâneo produziu conceitos novos, que não pertencem à
linguagem teológica e que, de fato, não encontram lugar nos dicionários
e nos manuais. A teologia não pode, porém, se permitir ignorá-los, se
não quiser permanecer insignificante para o homem e a mulher de hoje.
Pelo contrário, deveria assumi-los e oferecer uma contribuição a
respeito, em uma perspectiva cristã. Penso em conceitos como diálogo,
democracia, identidade (o que vai tocar em inumeráveis questões,
pense-se em toda a questão da sexualidade...).
"Diante de tempos novos, a teologia avançou em territórios inexplorados.
Quando são ultrapassadas fronteiras, é preciso ousar, arriscar"
Uma outra pista de trabalho, que pode parecer um pouco “fora de moda”, é
a recuperação de uma teologia sapiencial como na tradição monástica. Com
a afirmação da teologia como ciência acadêmica, uma passagem estudada
por Chenu, passou-se para o segundo plano a dimensão mais
propriamente espiritual do discurso teológico em favor da racional. Essa
escolha ajudou a teologia cristã a estar “dentro” da cultura ocidental
do segundo milênio, uma cultura marcada pelo racionalismo científico e
filosófico, mas, no longo prazo, também a empobreceu.
A crítica ateia da religião, creio, se desenvolveu no Ocidente
até porque fez perder de vista outras dimensões da busca humana da
verdade, até chegar a uma razão que menospreza a fé. Não se pode
renunciar à razão, naturalmente. Mas apontar exclusivamente a ela – como
o magistério também parece fazer, com os apelos à natureza –, dissolve a
diferença cristã e corre o risco de se tornar contraproducente. De qual
razão se fala, visto que, de fato, existem diversos paradigmas de
racionalidade, nenhum dos quais pode ser canonizado como de autoridade?
O fracasso do projeto iluminista está justamente na insustentabilidade
da ideia de uma razão “absoluta”. Quando Bento XVI deseja uma
ampliação do conceito de racionalidade, isso não pode não comportar uma
recuperação do específico do dado espiritual ao qual toda autêntica
racionalidade não pode não se abrir pelo menos como eventualidade, como
possibilidade.
Por fim, para o futuro da
Igreja Católica, acho que é necessário desenvolver uma reflexão sobre a
sinodalidade como participação de todo fiel na vida da Igreja e,
portanto, também dos processos decisórios. Sem uma elaboração desse
tipo, que quer dizer a recuperação de um patrimônio que remonta aos
primeiros séculos cristãos, teremos uma Igreja clerical, em que o papel
da hierarquia irá continuar sendo concebido na perspectiva do poder e
não do serviço, desmentindo, de fato, a realidade eucarística e
comunional da Igreja.
IHU
On-Line – Como o senhor vê o papel dos leigos e leigas na vida da Igreja
e na teologia de hoje? Pessoalmente, como o senhor procura viver o seu
laicato em sua Igreja local?
Christian
Albini –
O que eu já disse sobre a complementaridade entre padres e leigos e
sobre a sinodalidade constitui a minha ideia de fundo. Por outro lado, a
realidade me parece muitas vezes distante disso. Os leigos são bons só
quando estão alinhados, quando cantam no coro, e é a hierarquia que dá a
partitura e que rege.
No
pós-Concílio, na Itália, tivemos figuras de leigos que se
destacavam pela sua autoridade moral. Penso em
Carlo Carretto,
Giorgio La Pira, Giuseppe Lazzati… Pessoas que
tinham uma voz própria e que sabiam distinguir entre aquilo que pertence
à essência da fé e aquilo que é opinável. Hoje, não temos mais figuras
desse tipo, porque os espaços para tomar a palavra se reduziram na
Igreja Católica. Procurou-se resolver a questão do laicato com os
movimentos, segundo a tendência de ver nestes últimos o futuro da
Igreja. Como dizendo: para os leigos, existem os movimentos; se quiserem
um lugar, é ali. Os movimentos, com a sua solidez interna e sua
fidelidade à hierarquia, conquistaram poder, dentro e fora da Igreja,
mas não resolveram os problemas pastorais postos pelo secularismo. E,
enquanto isso, os leigos não homologados aos movimentos passaram para a
marginalidade, mesmo que tudo não seja imóvel. No espaço da internet,
por exemplo, estão aumentando os lugares de confronto e de livre
expressão.
"Se somos todos batizados, é absurdo que à maior parte de nós não seja
reconhecida uma identidade"
Como vejo a contribuição que os
leigos podem dar? Deus, como ocorreu em Jesus, se encarna sempre em uma
história, com os seus lugares, a sua língua, os seus sabores, as suas
situações. E nós somos tempo, somos história. Deus, então, toma forma em
nós fazendo-se presente nos nossos lugares, línguas, sabores e
situações... A história de um leigo cristão, com a sua vivência
familiar, civil, laboral evidentemente não é a mesma de um ordenado!
Vivendo a experiência do matrimônio, do trabalho, dos lugares da
convivência cotidiana, o leigo é portador de um ponto de vista, na
teologia e na pastoral, sem o qual se constroem castelos de areia e sem
o qual a fé fala por fórmulas, mas não na vida. Hoje, a Igreja Católica
paga as consequências de um atraso nesse sentido.
Pessoalmente, cresci com um
pároco que foi, na minha diocese, um dos protagonistas do período
conciliar e me acostumei a ver a Igreja não como um “assunto de padres”.
Além disso, ele me ensinou que o cristão não é alguém que confia
ingenuamente em respostas pré-preparadas por outros. Comecei, tocado
pela sua abertura mental, a me interessar primeiro pela filosofia e
depois pela teologia. Queria entender, ir até o fundo, dar-me conta
pessoalmente se a mensagem cristã verdadeiramente era uma mensagem
universal ou, ao invés, uma superstição anacrônica.
Para mim, a
fé sempre teve uma dimensão muito forte de dúvida, de busca, ousaria
dizer de luta. Apesar de todas as minhas objeções e as minhas quedas, o
rosto do Senhor crucificado e ressuscitado entrevisto na oração sempre
foi, para mim, no fim, mais persuasivo do que todo o resto. O
discernimento me levou a me sentir chamado ao matrimônio, mas continuei
estudando teologia, e foi um percurso difícil. Na Itália, não
existem faculdades teológicas nas universidades estatais.
Para um leigo, é mais difícil estudar teologia,
porque não garante nenhuma renda. Para levar adiante a escolha familiar
e as exigências trabalhistas, tive que me limitar a um magistério em
ciências religiosas, sem poder me dedicar aos estudos acadêmicos em
teologia.
Continuando as minhas pesquisas, acima de tudo como autodidata, comecei
a escrever e a publicar. Fui aceito – talvez um caso mais único do que
raro – na Associação Teológica Italiana, justamente pelas
publicações que consegui produzir, mesmo sem possuir títulos acadêmicos.
Há alguns anos, busco me comunicar com um público mais vasto por meio de
um blog bastante seguido. Participo nas atividades da minha Igreja local
em nível tanto paroquial quanto diocesano, principalmente no setor
caritativo. Sou, enfim, um cristão de paróquia comum, que não pertence a
nenhuma realidade associativa e que busca dar uma contribuição com seu
próprio empenho e com suas próprias reflexões. Parece-me que é uma
contribuição apreciada, visto que é exigida por várias partes, dentre as
quais vocês, com esta entrevista.
"Saídos dos seminários, muitos jovens padres se defrontam com contextos
em que a imagem ideal formada no seminário não procede"
Mas, há
uma nota fora do tom. É um caminho que eu construí um pouco sozinho, por
tentativa e erro, e que não seguiu uma trajetória linear, definitiva.
Como leigo, todas as perspectivas que a minha Igreja me colocou à
disposição consistiam em “dar uma mão” em atividades projetadas e
geridas pelo clero. Não! Não é possível! Aqui, não se trata de fazer
reivindicações para o desejo de contar, de ter um pouco de poder. Se
somos todos batizados, se somos povo sacerdotal, se recebemos o mesmo
Espírito em uma Igreja-comunhão, é absurdo que à maior parte de nós não
seja reconhecida uma identidade, ministérios, carismas. Eu não quero
substituir o padre. Desejo que os padres existam. Mas também desejo
encontrar o lugar que o Senhor pensou para mim na comunidade cristã e na
sua missão. Acredito, de fato, que uma Igreja hierárquica, no sentido do
poder e não da comunhão e do serviço, é uma invenção humana que trai o
Evangelho e a autêntica tradição da Igreja dos apóstolos ao Vaticano
II.
“Encontrar o meu lugar” – é
importante dizer – não significa só um “fazer” em sentido ativístico.
Significa também encontrar a dimensão espiritual que me pertence. Muito
frequentemente, a Igreja é um lugar de iniciativas mais do que de
encontro com Deus, onde talvez se ensina ao leigo uma doutrina ou uma
ética, mas não se ouve a Palavra dentro da sua própria vida. Talvez, a
crise da fé do Ocidente depende também do fato de que a Igreja anuncia e
pratica um cristianismo “manco”.
Portanto, considero que é responsabilidade dos leigos e dos padres que
compartilham essa intuição ativar-se juntos para dar-lhe impulso e
difundi-la nas paróquias e nas dioceses. Estamos fazendo isso, em
pequena escala, em Crema e procuramos fazer isso em escala maior
com o Centro Viandanti, do qual eu sou um dos fundadores, que
está começando a somar as colaborações de grupos do Centro-Norte da
Itália.
IHU
On-Line – Dentre os novos cardeais recentemente criados, diversos
analistas apontam Gianfranco Ravasi como um provável “papável”. Como o
senhor analisa o histórico e o perfil de Ravasi na Igreja de hoje?
Christian
Albini –
Ravasi
tem uma grande capacidade comunicativa. É talvez o maior divulgador
italiano da Bíblia por meio dos livros, da televisão e de intervenções
em grandes jornais. A sua produção científica – ele foi também docente
na Facoltà Teologica dell'Italia Settentrionale e prefeito da
Biblioteca Ambrosiana – não se caracteriza por uma
originalidade particular. Mas é um dos poucos que sabem tornar a Bíblia
acessível ao grande público. E a Igreja hoje tem uma grande necessidade
de comunicadores válidos!
Além disso, ele é um atento observador da cultura contemporânea e sabe
dialogar de modo não polêmico também com personalidades distantes da
Igreja. Um exemplo dessa sua atitude é o encontro organizado em 2009
pelo Pontifício Conselho da Cultura, do qual ele é presidente,
sobre o tema da evolução biológica. Sem perder tempo em polêmicas
estéreis de retaguarda entre fé e ciências, visou afirmar, ao invés, a
perspectiva de uma compatibilidade entre essas duas visões de mundo.
"Se eu tivesse que indicar um projeto de pesquisa coletivo para os
jovens teólogos, seria o de um novo léxico"
Há um
último elemento digno de nota no perfil de Ravasi: mesmo se
mantendo sempre muito prudente e comedido nas suas posições, teve e tem
boas relações com figuras pertencentes à área, por assim dizer,
reformadora e conciliar da Igreja italiana. Colaborou longamente com o
frei servita
Davide Maria
Turoldo
(1916-1992), uma das consciências críticas da Igreja italiana do século
XIX, poeta e investigador da Palavra. Turoldo foi mantido durante
muito tempo na marginalidade da Igreja pela sua inclinação à parte dos
últimos, independentemente das estratégias políticas da hierarquia. Um
personagem incômodo que, só nos últimos anos de vida, encontrou um
reconhecimento em Bérgamo e depois por parte de Martini.
Junto com
Turoldo, Ravasi organizou uma importante tradução do
saltério e realizou um comentário a todas as leituras litúrgicas
festivas, acrescido com hinos, orações e doxologias. É uma grande obra
que conjuga espiritualidade, poesia e estudo da Bíblia. Eu também a
utilizo para a minha lectio divina dominical, junto com os textos
da Comunidade de Bose, Eucaristia e Parola.
Justamente o prior de Bose,
Enzo Bianchi,
que é uma das vozes mais livres na Igreja de hoje, foi convidado há
poucas semanas por Ravasi para proferir uma conferência no
Vaticano.
Não sou capaz de dizer quantas chances ele teria em um conclave.
Considero, no entanto, que, com um Ravasi papa, não poderíamos
esperar grandes surpresas, mas sim uma maior atenção à mediação e ao
diálogo dentro e fora da Igreja, com uma reaproximação “dulce”
(doce) às correntes mais conciliares do catolicismo.
IHU
On-Line – Qual a sua opinião sobre a presença dos cristãos,
particularmente católicos, na vida social e política da Europa hoje?
Christian
Albini –
Nos últimos 15 anos, na Itália, os expoentes mais influentes da
hierarquia fizeram a escolha de intervir diretamente no jogo político,
fazendo pedidos aos partidos mais complacentes e tentando se atribuir
uma espécie de papel de “religião civil”. Como se isso pudesse
substituir e compensar a secularização!
Depois, tentou-se fazer da
Itália um modelo a ser seguido. É uma estratégia que, no curto prazo,
recompensa, mas, em longo prazo, torna a Igreja menos confiável, ao
mesmo tempo em que a fazer parecer como um ator em um jogo de poder.
"Não quero substituir o padre. Mas também desejo encontrar o lugar que o
Senhor pensou para mim na comunidade cristã e na sua missão"
Além disso, enquanto o
magistério deveria dar indicações de fundo, houve intervenções que
visavam sustentar ou combater procedimentos e soluções legislativas
particulares, fazendo-as tornar-se quase como novos “dogmas” e
instrumentalizando o conceito problemático dos “valores inegociáveis”.
Tudo isso levou a alianças com as áreas políticas que mais se prestavam
ao jogo, em troca de um apoio não declarado, mas que, de fato, existiu.
E quando se essas alianças se fortalecem, perde-se a liberdade de ser
crítico e profético... Por isso a afonia de tantos bispos e leigos, para
os quais ou se alinhavam ou eram cortados dos canais da comunicação
eclesial, como ocorreu com tantos.
Considero que a presença cristã
na vida pública é significativa não se a Igreja adquirir influência, mas
se testemunhar com sua própria ação aquilo que anuncia e souber dialogar
com todas as partes políticas, não para negociar trocas, mas para se
confrontar sobre valores. Fazendo críticas, mas reconhecendo também o
positivo de cada área e de cada projeto. Não uma Igreja que se une a uma
parte para contar mais, mas uma Igreja que está em relação com todos
para ser fermento na massa.
Cabe, depois, aos católicos que
optam pelo compromisso político, com base em suas capacidades, em sua
autoridade moral, assumir a responsabilidade, sem receber “ordens de
escuderia”, de decidir como dar concretude às suas próprias convicções
e, portanto, quais soluções legislativas e de governo buscar.
IHU
On-Line – Que cenários futuros da Igreja o senhor percebe para o
confronto ou o diálogo com a contemporaneidade?
Christian
Albini –
É um discurso muito vasto. Muito sinteticamente, vejo a pós-modernidade
como a decadência de uma perspectiva única e unitária na sociedade.
Acabou a civilização cristã e não há um outro paradigma que a substitua,
mas sim uma coexistência de visões de mundo diversas. A única moldura
comum é dada pela economia de mercado e pelas relações consumistas que
ela institui. Pluralismo e consumismo constituem um duplo desafio para a
Igreja, diferente de todos os da história passada. As estratégias no
campo político, sobre as quais falava antes, parecem-se ser a tentativa
de conservar uma hegemonia já decadente. Por isso, são necessariamente
perdedoras, além de não evangélicas.
"Ravasi é um atento observador da cultura contemporânea e sabe dialogar
de modo não polêmico com personalidades distantes da Igreja"
Ao desafio do consumismo,
responde-se só com um testemunho de caridade e de gratuidade, partindo
dos últimos, injetando anticorpos no sistema, edificando comunidades
alternativas em que vale a fraternidade e não a utilidade. A nossa
pastoral ainda é excessivamente centrada na maximização da participação
nos sacramentos, como se se tratasse de “distribuir” a maior quantidade
possível deles. Os sacramentos são o ponto de partida, ao qual se dedica
a maior parte das energias, enquanto deveriam ser o ponto de chegada. Os
cristãos se comportam exatamente como todos os outros, e muitos vão à
missa, como se fosse um acréscimo. Pelo contrário, a missa deveria ser a
fonte e o cume de um estilo de vida de seguimento do Evangelho nos
momentos e nos lugares da convivência cotidiana. Toda a vida do fiel
deveria testemunhar uma diferença cristã que nasce da oração e da escuta
da Palavra.
Ao desafio do pluralismo, muito
semelhante às origens da história cristã, se responde não com a
competição com as outras crenças e visões de mundo, mas sim com a
capacidade de localizar nelas a presença do Espírito. É preciso um
cristianismo capaz de aprender, capaz de deixar enriquecer pelos outros.
Um cristianismo assim, que sabe dialogar sem renunciar à sua própria
identidade, torna-se capaz de testemunhar aos outros que, no Evangelho,
as suas riquezas encontram cumprimento. Não busca assimilá-las, mas abre
com elas um canal de troca, confiando unicamente na força da Palavra.
Uma figura
que, em muitos aspectos, me pareceu estar próxima dessa posição é a de
Raimon Panikkar.
Reconheço-me nesta sua afirmação: “A Trindade é a experiência
extraordinária, concreta e particularmente, de uma visão que existe na
estrutura do ser humano”. A Trindade presente, embora desconhecida, em
tudo e em todos. Nesse caminho, a Igreja Católica continuará sendo
universal até no pluralismo, senão pode se estagnar longamente em um
desvio sectário. Depende de todos nós... (Por Moisés Sbardelotto) |