EM MÃOS ESTRANGEIRAS
20% da área explorada no país está no Estado
Ao todo são 844,027 mil hectares em solo mato-grossense sob domínio
internacional; no Brasil essa quantidade chega a 4,340 milhões (ha)
Por Laís Costa Marques
Da Redação/A Gazeta
Aproximadamente 20% das terras brasileiras pertencentes a estrangeiros
em todo o país está concentrada em território mato-grossense. São
844,027 mil hectares de terras nas mãos de empresas e pessoas de outros
países, porém este número pode ser ainda maior porque, apesar de ter
capital estrangeiro, alguns grupos abrem firma no país e compram
propriedades como se fossem brasileiros. Em todo o Brasil, o Instituto
de Colonização e Reforma Agrária (Incra) registra que 4,340 milhões de
hectares pertençam a outros países.
A aquisição de terras no Brasil por grupos estrangeiros só é permitida
se a extensão for inferior a um quarto ou 25% da superfície territorial
do município onde está localizada a propriedade rural, não podendo
ultrapassar 10% por um mesmo grupo estrangeiro. Isto é, um país pode ter
no máximo 10% da extensão territorial em uma cidade. Em agosto deste
ano, a Advocacia Geral da União (AGU) publicou um parecer com a
aprovação do presidente Luís Inácio Lula da Silva para a limitação da
venda de terras para estrangeiros e empresas com capital internacional,
além do registro de tais terras em livros especiais nos cartórios e
recomendou revisão a cada 3 meses.
De acordo com o parecer da AGU, um outro parecer dado em 1994 quando a
fiscalização sobre essas terras não era rígida nem restritiva, tinha
objetivos de expandir a fronteira agrícola e promover a valorização do
território nacional. Em Mato Grosso, a atuação de grupos estrangeiros é
conhecida, principalmente de argentinos focados no agronegócio, seja por
meio da aquisição de terras ou arrendamento.
O consultor econômico Amado de Oliveira Filho diz que quando houve a
crise no agronegócio, em 2008, muitos produtores rurais se renderam ao
assédio de grupos internacionais e venderam suas terras. De acordo com o
economista, descapitalizados e endividados, os produtores não viam outra
saída. "Enquanto não houver um maior grau de arrecadação, não há como
garantir a integridade das terras", afirma ao comentar que o governo não
pode permitir que o produtor, refém das oscilações da renda no campo,
entregue o patrimônio nacional na mão de grupos investidores cujas
riquezas são revertidas aos países de origem.
O produtor rural Alcindo Uggeri passou por uma situação delicada há 3
anos e sem ter como investir no plantio arrendou seus 4 mil hectares
para um grupo argentino. O produtor diz que esta foi a melhor decisão
porque agora ele está conseguindo saldar as dívidas e juntar verba para
voltar a produzir. "Meu problema era falta de capital e agora poderei
voltar a plantar", afirma ao comentar que ainda faltam 3 anos para
reaver as terras.
Uggeri, porém, nem cogita a possibilidade de abrir mão de seu patrimônio
por meio de venda. "Não vendo de jeito nenhum. Eles sabem disso e por
isso nem fizeram oferta". O grupo ao qual Uggeri vendeu as terras possui
área ao lado de sua fazenda. Estima-se que este grupo atue em 14
municípios mato-grossenses e tenham 40 mil hectares próprios e 180 mil
(ha) arrendados.
Para aqueles que venderam as terras e se sentem injustiçados porque não
receberam o que era de direito, o advogado Lutero de Paiva Pereira diz
que há uma solução. Conforme explica o jurista especialista em
agronegócio, com o novo parecer da AGU, os negócios realizados
anteriormente e de acordo com o antigo parecer não possuem validade
jurídica. "A transação é nula de pleno direito. Quem vendeu pode rever
as terras, uma vez que a venda não existe judicialmente". É como se
todos os contratos fossem invalidados a partir do novo parecer.
O advogado explica que imóvel rural é uma riqueza, e como tal, é
estabelecido que deve atender ao país. "As terras produtivas devem estar
nas mãos dos brasileiros". A lei que limita a posse territorial por
estrangeiros existe desde 1971. Em 1988 um parecer foi emitido revogando
um artigo da mesma. "A partir da década de 90, então, estrangeiros
passaram a investir no Brasil diretamente ou indiretamente".
Na opinião do consultor econômico Amado de Oliveira Filho, reaver as
terras vendidas em um negócio sacramentado não seria uma ação de boa fé.
"Não vejo isso com bons olhos porque houve um acordo e uma transação
financeira. Infelizmente, se vendeu, está vendido". Lutero de Paiva,
porém, afirma que muitos produtores rurais foram injustiçados e que as
dívidas os forçaram a vender as terras por valores abaixo do praticado
no mercado na ocasião. "Os negócios foram feitos quando os produtores
estavam estrangulados e agora existe a possibilidade de recompor o
patrimônio. Tenho clientes que na época venderam por um terço do valor
de mercado atual".
Quanto à devolução do que foi pago, Pereira explica que os investidores
podem querer reaver o valor contratual, ou seja, o capital declarado
sobre a transação, mas que na maioria das vezes o valor declarado é
menor do que o que foi pago e que por isso o produtor não iria pagar o
preço da venda.
Vendas em Mato Grosso - A comercialização de terras em Mato Grosso para
estrangeiros não possui obstáculos. A reportagem de A Gazeta telefonou
para uma corretora de imóveis da região do Araguaia, se passando por
representante de um grupo estrangeiro interessado na compra de uma
fazenda. Segundo o corretor de imóvel, onde atua (região que vai de
Barra do Garças, a 509 km da Capital, a Vila Rica, a 1.259 km), o preço
do hectare é cotado entre R$ 1,5 mil a R$ 4 mil, variando de acordo com
os benefícios já feitos e da localização da área. Perguntado sobre a
possibilidade da aquisição por estrangeiro, o corretor disse que apesar
de haver muitos grupos atuando no local, os limites municipais ainda não
foram extrapolados. Em outra cidade, Brasnorte (a 579 km de Cuiabá),
outra imobiliária confirmou a presença de empresas estrangeiras atuando
no agronegócio, porém que ainda há possibilidades de novas aquisições. |