Afinal de contas, o que é impacto ambiental?
Por Adriana Werneck Regina*
Neste evento foi discutido o complexo hidrelétrico da bacia Teles Pires
formado pela UHE São Manoel (747 MW); UHE Teles Pires (1820 MW); UHE
Colíder (342 MW); UHE Sinop (461 MW) e UHE Foz do Apiacás (275 MW), no
rio Apiacás.
Neste complexo estão abrangidos os municípios Sinop, Colíder, Ipiranga
do Norte e Cláudia, na região médio-norte. Serão afetados Projetos de
Assentamento, a T.I. Kaiabi, 118 lotes da Gleba Mercedes, em Sinop, e o
acampamento 12 de outubro, em Cláudia que, apesar de o INCRA já ter
comprado uma área, não poderá ser ocupada pela previsão da quase total
inundação dela.
Neste Seminário, lideranças de segmentos sociais e de movimentos sociais
compartilharam questionamentos e reflexões, terminando na criação do
Fórum Teles Pires, a fim de uma mobilização social contra os
empreendimentos hidrelétricos na bacia Teles Pires.
Demarcar uma Terra Indígena (T.I.) é a União reconhecer oficialmente o
direito natural e histórico dos povos indígenas usufruírem a sua terra
conforme os seus usos e costumes. Entretanto, uma liderança da T.I.
Kaiabi questionou se tem lei
porque não está assegurado para a gente e avaliou que o governo
federal faz grandes obras dentro da T.I. causando impactos
socioambientais, e o complexo hidrelétrico da bacia de Teles Pires é uma
das expressões disso.
Outra liderança Kaiabi relatou que os engenheiros da EPE quando
visitaram a sua comunidade afirmaram que não acontecerão impactos,
falseando a realidade. Em paralelo, negociaram com ele para ajudar a
convencer o seu povo em aceitar a construção de barragem, prometendo
cinco carros como recompensa. Esta liderança analisou que as ações de
técnicos da EPE provocam divisão interna na comunidade identificando um
tipo de impacto social que acontece antes das obras das barragens, e que
não é considerado no EIA RIMA. Em suas palavras,
já está afetando, as empresas já
foram quatro vezes na aldeia, fizeram quatro reuniões sobre barragem.
Há relatos de assentados que igualmente identificam esta questionável
metodologia de trabalho dos funcionários da EPE junto às comunidades
locais.
A Gleba Mercedez 5 recebeu técnicos que
prometeram escada para os peixes
que vêm de Colíder. Explicou para a comunidade que os peixes
baterão a cabeça numa caixa, ela se abrirá, o peixe entrará e fechará a
caixa, a caixa subirá, depois vai parar, abrirá e o peixe sairá para o
rio (assentada, Gleba Mercedez 5). Enfim, o técnico garantiu que não
haverá redução de peixes. Deveria ter um tipo de seguro que a EPE
deveria assegurar às famílias atingidas, caso as afirmativas desse órgão
não se concretizassem.
A comunidade desta Gleba também questionou sobre a inundação de uma bela
paisagem natural ali existente. Os técnicos afirmaram que iriam
construir uma praia artificial mais bonita que ela. Ainda prometeram que
iam avaliar a terra baseado no valor de mercado por alqueire, tendo isso
como referência para a indenização. Mas como a terra não é regularizada,
é inviável. Estes agentes do poder público recomendaram para a
comunidade pressionar o INCRA para regularizarem a situação fundiária a
fim de receberem a indenização. É difícil dar adjetivo para este tipo de
comportamento, porque desconsiderou a situação dos pequenos e médios
agricultores que têm processo de regularização fundiária por 10,15,20
anos, inconclusos pela falta de compromisso do INCRA, SEMA e INTERMAT.
Ainda prometeram que arrumariam outra terra do mesmo tamanho do atual
lote no lugar desejado pelas famílias desta Gleba.
Estes relatos retratam como é construído o diálogo do poder
público\privado com as comunidades. É indignante a falta de compromisso,
seriedade e profissionalismo revelada na ausência de clareza das
propostas\promessas feitas às comunidades, sendo ausentes as condições
reais para a realização das mesmas. Atingidos pela barragem do Manso
identificam que estes discursos eram os mesmos feitos a eles e que não
foram cumpridos. Famílias
atingidas estão desempregadas, sem moradia, adoecidas e que aumentaram o
índice de pobreza, fome, desemprego e alcoolismo.
Outra questão é referente ao reservatório acumulado, ele é uma área
extensa de água parada, armazenada, convertendo-se, inclusive, em foco
de proliferação de mosquitos, transmissores de doenças. Há o relato de
uma integrante do MAB sobre a experiência do Manso, em que a região da
água parada provocou a putrefação de materiais orgânicos locais e que
pela falta de fluidez da água, exalava um cheiro fétido a longa
distância e de caráter poluente. Pessoas que banharam neste local,
perdiam a unha e cabelos, provocando descascamento da pele, retratando a
qualidade venenosa da água.
Integrantes do MAB relataram que muitas famílias atingidas pela barragem
construída no rio Manso não foram indenizadas até hoje. Criticam que
estes projetos são associados ao desenvolvimento da indústria
brasileira, sendo o progresso a justificativa de tais empreendimentos.
Em contrapartida, apagam a
realidade dos atingidos (integrante do MAB) que, inclusive eram
atores da produção de diversos produtos alimentícios em suas roças para
as suas famílias, praticantes da pesca tradicional, e tinham segurança
de moradia, além de reproduzir uso e conhecimento de plantas medicinais.
Hoje, a depressão e outras doenças psíquicas afetam várias famílias
ainda não indenizadas pela barragem no rio Manso. Tudo isso configura
impacto das obras hidrelétricas, revelando os efeitos na saúde pública,
na segurança alimentar, habitacional e de geração de renda entre os
atingidos que se estendem por décadas posterior à conclusão das obras,
geração, distribuição e comercialização de energia.
Por fim, a construção do complexo hidrelétrico na bacia Teles Pires
implica a desapropriação de mais de cem mil há na região, inundando
roças, área de pesca, caça, coleta, moradia dos acampados, assentados,
kaiabi, agricultores familiares e outros.
É ausente ainda a dedicação de esforços para a elaboração de energias
alternativas mais sustentáveis que não sacrifiquem as comunidades
locais.
* Adriana Werneck Regina é cientista social, especialista em
indigenismo. |