MÍDIA – Construções

 

Por Gibran Lachowski*

 

Compreender que as matérias jornalísticas de tv, internet, rádio e meio impresso são construções simbólicas faz uma grande diferença. Principalmente por afastar a ideia rasa de que o noticiário não passa de um retrato fiel do que ocorreu ou do resumo das informações mais importantes do dia.

Os retratos são formulados por uma argamassa composta de vários itens. Entre eles estão a técnica jornalística, a linha ideológica da publicação, a relação entre jornalismo e o peso dos anúncios, os interesses políticos, econômicos e outros mais que dialogam com a diretoria do veículo de comunicação.

Também tem a postura dos profissionais quanto às pressões externas – e dos patrões. De modo geral, há os subservientes, os que buscam negociar interesses privados e públicos e os que chutam o pau da barraca.

Os do meio são os imprescindíveis, até porque, gradativamente, podem ter condições de chutar com mais força o pau da barraca. Sem falar que os que negociam – em nome da comunidade – têm possibilidade de vazar dados eticamente para outros veículos ou sugerir a concorrentes pautas que o meio onde atuam não investigará.

A correlação de forças dentro dos veículos de comunicação é, em última instância, o que determina o conteúdo e a abordagem do noticiário. Isso incluiu o nível de checagem de informação, pluralidade, tamanho de espaço ao contraditório e capacidade de aprofundamento.

Ler é bom; ouvir também

O sociólogo e pesquisador da comunicação Pedrinho Guareschi chama esse exercício de entendimento de “leitura crítica da mídia”. Para o estudioso, realmente a mídia trabalha com a “construção da realidade” e não a sua pura e simples reprodução.

Diante da discussão, uma boa experiência foi ouvir estudantes de Comunicação de Rondonópolis sobre o que avaliaram da cobertura jornalística acerca do recente ocorrido no Rio de Janeiro. O grupo de acadêmicos disse em sala de aula que não se afixou a uma só fonte de informação. A maioria passeou por pelo menos mais de uma tv e fez o mesmo quanto ao material internético.

O grupo considerou que a cobertura midiática buscou engrandecer a polícia (Estado) e reduzir todo o problema do tráfico aos traficantes. Apontou que a abordagem deixou de fora políticos, jornalistas e empresários que alimentam (e se alimentam da) a referida prática criminosa. Que os repórteres ouviram muita gente – espantada – de fora do morro, mas quase ninguém que lá morava.

Os estudantes também observaram que, no caso da Globo, houve intento em aproveitar a situação para “bombar” seu novo filme (Tropa de elite 2). E ainda perguntaram por que os jornalistas não perguntaram às autoridades por que somente agora é que houve uma “verdadeira ocupação de morro”, como se noticiou até entediar.

Na sala de controle

Por isso foi tão interessante, dias depois, outros acadêmicos participarem de uma oficina de produção de documentário. Na primeira noite houve captação de imagens e realização de entrevistas. Na seguinte, a edição do material coletado.

Aí foi possível ver como, na “sala de controle”, os comandos técnicos podem gerar um resultado mais ou menos fiel ao que, de fato, ocorreu. Supressão de informações, descarte de palavras mal concatenadas, seleção de imagens com vivacidade, valorização de algo mais afeito ao objetivo inicial da produção... tudo isso acaba por contribuir para o retrato noticioso final.

O assunto é denso e não termina por aqui. Mas trabalhe com a projeção de um cenário em que não haja oligopólio e a democracia figure de forma contundente nas paragens midiáticas. Haveria (tanta) manipulação (no sentido negativo)? Nós, da academia e dos movimentos sociais, nos comportaríamos conforme o que reivindicamos? Boa reflexão para próximos artigos.

* Gibran Lachowski é jornalista, professor e coordenador do curso de Comunicação da Faculdade Cenecista de Rondonópolis

 







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