''Eu só existo porque nós existimos'': a ética Ubuntu. Entrevista
especial com Bas'Ilele Malomalo
Fonte: IHU
Link:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=34586
"Sou porque nós somos": em uma frase, esse seria o resumo da ética
Ubuntu. Porém, é na construção histórica e cultural dessa
ética, que nasce na África que se encontra a sua
riqueza. Para o filósofo, teólogo e sociólogo congolês Bas'Ilele
Malomalo, toda existência é sagrada para os africanos, ou seja,
há um pouco do divino em tudo o que existe. Por isso, "o Ubuntu retrata
a cosmovisão do mundo negro-africano".
É por isso que o suposto antropocentrismo que poderia estar por trás do
Ubuntu é "relativista", segundo Malomalo, nesta entrevista concedida por
e-mail à IHU On-Line. "O ser
humano africano sabe que nem tudo depende da sua vontade", afirma. "Esta
depende também da vontade dos ancestrais, dos orixás", em suma, do
sagrado.
Por outro lado, Ubuntu e felicidade são conceitos que andam juntos: "Na
África, a felicidade é concebida como aquilo que faz bem a toda
coletividade ou ao outro". E quem é o meu "outro"? "São meus orixás,
ancestrais, minha família, minha aldeia, os elementos não humanos e não
divinos, como a nossa roça, nossos rios, nossas florestas, nossas
rochas". Dessa forma, resume Malomalo, para a filosofia africana, "o ser
humano tem uma grande responsabilidade para a manutenção do equilíbrio
cósmico".
Bas'Ilele Malomalo é natural do Congo,
África, e possui graduação em Filosofia pelo
Grand Seminaire Fraçois Xavier – Filosoficum e
em teologia pelo Instituto São Paulo de Estudos Superiores
(Itesp). É mestre em ciências da religião pela
Universidade Metodista de São Paulo e é doutorando em
sociologia pela Universidade Estadual Paulista – Araraquara.
Atualmente é pesquisador do Centro dos Estudos das Culturas e
Línguas Africanas e da Diáspora Negra da
Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"
(Cladin-Unesp).
A entrevista que segue faz parte de uma iniciativa do IHU,
por meio de seu Escritório da Fundação Ética Mundial no
Brasil, que busca ampliar o debate sobre
Ética Mundial, incluindo também outras perspectivas,
especialmente dos povos originários latino-americanos – como o conceito
ético do
Sumak Kawsay – e africanos – o
Ubuntu.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O que é e quais as origens do Ubuntu?
Bas'Ilele Malomalo – Etimologicamente, Ubuntu vem de duas
línguas do povo banto, zulu e xhona, que habitam o território da
República da África do Sul, o país do
Mandela. Do ponto de vista filosófico e antropológico, o
Ubuntu retrata a cosmovisão do mundo negro-africano. É o elemento
central da filosofia africana, que concebe o mundo como uma teia de
relações entre o divino (Oludumaré/Nzambi/Deus, Ancestrais/Orixás), a
comunidade (mundo dos seres humanos) e a natureza (composta de seres
animados e inanimados). Esse pensamento é vivenciado por todos povos da
África negra tradicional e é traduzido em todas as suas
línguas.
A origem do Ubuntu está na nossa constituição
antropológica. Pelo fato de a África ser o berço da humanidade e das
civilizações, bem cedo nossos ancestrais humanos desenvolveram a
consciência ecológica, entendida como pertencimento aos três mundos
apontados: dos deuses e antepassados, dos humanos e da natureza.
Com as migrações intercontinentais e a emergência de outras civilizações
em outros espaços geográficos, essa mesma noção vai se expressar em
outros povos que pertencem às sociedades ditas pré-capitalistas ou
pré-modernas. É dessa forma que se pode afirmar que essa forma de
conceber o mundo na sua complexidade é um patrimônio de todos os povos
tradicionais ou pré-modernos. Cada um expressa isso através de suas
línguas, mitos, religiões, filosofias e manifestações artísticas.
Como elemento da tradição africana, o Ubuntu é reinterpretado ao longo
da história política e cultural pelos africanos e suas diásporas. Nos
anos que vão de 1910-1960, ele aparece em termos do panafricanismo e da
negritude. São esses dois movimentos filosóficos que ajudaram a África a
lutar contra o colonialismo e a obter suas independências. Após as
independências, estará presente na práxis filosófica do Ujama
de
Julius Nyerere, na Tanzânia; na filosofia
da bisoité ou bisoidade (palavra que vem da língua lingala, e
traduzida significa "nós") de Tshamalenga Ntumba; nas
práticas políticas que apontam para as reconciliações nacionais nos anos
de 1990 na África do Sul e outros países africanos em processo da
democratização.
A tradução da ideia filosófica que veicula depende de um contexto
cultural a outro, e do contexto da filosofia política de cada agente. Na
República Democrática do Congo, aprendi que Ubuntu pode
ser traduzido nestes termos: "Eu só existo porque nós existimos". E é a
partir dessa tradução que busco estabelecer minhas reflexões filosóficas
sobre a existência. Muitos outros intelectuais africanos vêm se servindo
da mesma noção para falar da "liderança coletiva" na gestão da política
e da vida social.
IHU On-Line – Como um princípio ético nascido na África, que
manifestações do Ubuntu podemos encontrar na cultura brasileira ou
afro-brasileira, tão marcada por raízes africanas?
Bas'Ilele Malomalo – É preciso voltar à história para capturar
as manifestações do Ubuntu em suas diásporas transatlânticas. No Brasil,
a noção do Ubuntu chega com os escravizados africanos a partir do século
XVI. Estes trouxeram a sua cultura nos seus corpos, e ela foi
reinventada a partir do novo contexto da escravidão. Por isso, falar de
Ubuntu no Brasil é falar de solidariedade e resistência. Como outros
registros histórico-antropológicos que expressam o "ubuntu
afro-brasileiro", podemos citar os quilombos, as religiões
afro-brasileiras, irmandades negras, movimentos negros, congadas,
moçambique, imprensas negras.
IHU On-Line – Como podemos compreender a religião ou o sagrado
por meio do Ubuntu? De que forma ele tenciona a noção
religioso-transcendental?
Bas'Ilele Malomalo – Para os africanos e seus descendentes,
toda existência é sagrada, quer dizer, há um pouco do divino em tudo o
que existe. A religião, como instituição social e sistema simbólico,
apresenta-se como o espaço privilegiado de alimentação da “consciência
ubuntuística". Através de seus ritos, seus sacerdotes e adeptos a
reatualizam. Os mitos, as celebrações, os cantos e encantamentos
desempenham essa função de nos religar com nossos deuses, antepassados,
com a comunidade, conosco mesmos, com o cosmos e a natureza. Além dos
ritos sagrados, os profanos também desempenham a mesma função mística.
Na África, os ritos de iniciação, de entronização dos reis ou rainhas
estão sempre conectados com a ancestralidade.
IHU On-Line – Dentro da ética Ubuntu, qual é o papel do ser
humano e da comunidade?
Bas'Ilele Malomalo – A concepção africana do mundo é
antropocêntrica. Não no sentido absolutista da filosofia iluminista
ocidental, que pensa que o ser humano é o centro do mundo e que ele pode
tudo e pode fazer tudo o que quiser. O antropocentrismo africano é
"relativista". Quer dizer o ser humano africano sabe que nem tudo
depende da sua vontade. Esta depende também da vontade dos ancestrais,
dos orixás. Se estes revelarem, através de um sonho, de um Ifá, de um
sacerdote, do seu pai ou da sua mãe, um acontecimento, será preciso
prestar atenção.
Por outro lado, o antropocentrismo africano entende que uma boa prática
religiosa só existe naquela que traz a felicidade para o ser humano.
Como este não pode ser concebido fora das relações sociais, na África, a
felicidade é concebida como aquilo que faz bem a toda coletividade ou ao
outro. Os outros são meus orixás, ancestrais, minha família, minha
aldeia, os elementos não humanos e não divinos, como a nossa roça,
nossos rios, nossas florestas, nossas rochas. Dessa forma, para a
filosofia africana, o ser humano tem uma grande responsabilidade para a
manutenção do equilíbrio cósmico.
IHU On-Line – Em uma época de crise ecológica e ambiental, como
o Ubuntu pode nos ajudar a desenvolver uma nova relação com os demais
seres não humanos?
Bas'Ilele Malomalo – Do ponto de vista filosófico, a crise
planetária atual encontra suas raízes na expansão ocidental desde a
Idade Média até o surgimento da modernidade. A
hegemonia da "razão indolente" (Boaventura
de Sousa Santos) nas suas manifestações
através do colonialismo, positivismo, racismo científico, capitalismo
selvagem, tem sido o instrumento de aprofundamento dos males da nossa
civilização. Esse pensamento absolutizou tanto o homem que este
voltou-se contra suas divindades, contra a natureza e contra seus
semelhantes. O seu "antropocentrismo absolutista" criou as condições de
destruição da sua própria espécie e das espécies não humanas.
Qual é a saída que os pensamentos alternativos têm sugerido?
Boaventura de Sousa Santos alega que é preciso acionar a "razão
cosmopolita";
Edgar Morin sugere o uso de uma epistemologia da
complexidade;
Leonardo Boff tem sugerido a
espiritualidade ecológica. É na busca da união umbilical, afirma Boff,
que se encontraria a salvação da humanidade, a superação da crise
ecológica atual.
Na filosofia africana, Tshamalenga Ntumba tem
interpretado o Ubuntu em termos de "Bisoidade". Tal prática se
caracterizaria pela abertura ao diferente, encará-lo como parte de nós.
Nessa direção, o mundo da fé, das divindades, dos orixás, dos ancestrais
deve dialogar com o mundo dos seres humanos e não humanos
(natureza/cosmos). Esse conceito vislumbra o encontro ético e político
do "Nós". Trata-se do "nós ecológico". Para esse filósofo congolês, a
existência significa uma interação entre as três dimensões da cosmovisão
africana. As crises políticas, econômicas, culturais e sociais que têm
afetado o continente africano, para ele, ocorrem porque o ser humano se
esqueceu de cuidar do "biso" ou do "nós ecológico".
Dessa forma, antes dos humanos cuidarem dos não humanos, precisam cuidar
da sua casa. Quer dizer, rever suas práticas filosóficas e científicas
dentro dos parâmetros éticos. Uma vez feito isso, poderiam ter condições
de cuidar do meio em que vivem. Insisto nisso, porque há um certo
pensamento ambientalista ligado à razão indolente. Muitos falam do meio
ambiente para lucrar. Essa opção leva esses ativistas e cientistas a
ocultar as misérias humanas. O Ubuntu é uma crítica à visão simplista e
interesseira. Pensar o desenvolvimento ambiental nessa perspectiva é
perceber, como Boff, que deve se levar as coisas no contexto da
dialética da complexidade, na qual o teológico, o antropológico e o
cosmológico-ambiental dialogam sabiamente. Somos nós, os humanos, que
devemos procurar o estabelecimento desse equilíbrio planetário. As
responsabilidades têm que ser apuradas, e evitar o discurso da
hipocrisia burguesa.
IHU On-Line – Como interpretar nossa memória, nosso passado,
nossa ancestralidade a partir do Ubuntu?
Bas'Ilele Malomalo – Na filosofia negro-africana, a
ancestralidade é eixo do entendimento da nossa existência. É tudo aquilo
que nos proporciona a vivência do nosso presente (sasa, em
swahili) e nosso futuro (lobi, em lingala), tendo aqueles que
pertencem ao passado (zamani, em swahili), os que nos
antecederam, divindades, orixás e antepassados como ponto de leitura das
duas primeiras dimensões da existência.
A vontade das divindades, geralmente, concretizam-se pelas vontade dos
orixás e ancestrais presentes na sabedoria popular, nos mitos. Os
sacerdotes e pessoas mais velhas vivas têm o papel de interpretá-la
através dos ritos e práticas do cotidiano.
Desse ponto de vista, os mitos e ritos africanos têm por função
pedagógica lembrar aos vivos o seu parentesco com os seres do mundo
invisível e visível (seres humanos e seres não humanos). Todos os mitos
africanos se pautam nessa lógica. Como os mitos judaicos, os mitos
africanos nos informam que os seres humanos têm um pouco de divino; cada
um é filho de um orixá; e um pouco da natureza. Conta um mito da criação
que Oludumaré (Deus supremo) deu ao orixá
Obatalá a missão de criar o ser humano, e este o fez a partir
do barro (elemento da natureza). Eis a nossa irmandade planetária. A
cosmovisão africana do mundo tem uma importância no sentido de
contribuir para o pensamento ecológico contemporâneo.
IHU On-Line – Em uma sociedade embasada em valores ocidentais e
modernos como a nossa, que questionamentos políticos, econômicos e
sociais o Ubuntu pode fomentar?
Bas'Ilele Malomalo – O Ubuntu pertence ao pensamento
alternativo, que cogita o mundo a partir da complexidade. E é oportuno
reafirmar que toda filosofia carrega valores e antivalores. Para a
filosofia de Ubuntu, não se pode falar de economia e política sem levar
em consideração os valores da comunidade cósmica. Os profissionais de
todos os campos da teologia, das ciências sociais e da natureza,
políticos, o homem e a mulher comuns, todos devem ser ouvidos. O Ubuntu
luta contra os reducionismos impostos pela razão indolente no fazer
política e economia. A democracia participativa em todos os campos é
tida como um valor. A economia não se reduz ao crescimento. Este tem a
ver também com o social e com o cultural. O valor de solidariedade é
também importante.
IHU On-Line – Diante da violência e das desigualdades, que
significado têm o perdão, a reconciliação e a compaixão para a ética
Ubuntu?
Bas'Ilele Malomalo – É preciso dizer, primeiro, que as vítimas
da violência e das desigualdades são aquelas que compõem a classe dos
excluídos por motivos raciais, de gênero, de opção sexual ou religiosa.
Os seres não humanos também pertencem a essa classe dos dominados pelo
fato de interagir com as classes dominantes, agentes da razão indolente,
de uma forma desigual. Com isso, estou querendo afirmar a historicidade
da violência e das desigualdades.
Olhando para a história africana e da sua diáspora brasileira, quero
citar alguns casos em que o Ubuntu se materializou ou foi tencionado
para ser traduzido em termos de perdão, reconciliação e compaixão.
A África do Sul, após a libertação de Mandela
e o fim do apartheid, colocou-se como o exemplo histórico da tradução do
Ubuntu no projeto político multicultural. Esse país, através de suas
lideranças políticas, religiosas e sociais, soube fazer uso dos
princípios éticos dessa filosofia através do estabelecimento da
Comissão da Verdade e Reconciliação. Tratava-se da recriação de
um espaço de diálogo da comunidade de inspiração nos "palabres
africanos". Palabre é uma palavra francesa, que se refere aos
espaços de mediação de conflitos da comunidade, que contam com a
habilidade do uso da palavra por parte dos mais velhos ou sábios. Não se
tratava de um espaço de condenação dos torturadores ou racistas, mas sim
de um encontro do povo sul-africano consigo mesmo, com seus problemas do
passado, com o seu presente e com o seu futuro a ser construído. Um
encontro com a sua memória de dor, sofrimento e de esperança. Após esse
processo, esse país se define hoje como uma Nova África do Sul, que se
reconhece como um país multicultural, onde brancos e negros podem
conviver juntos. Dessa forma, o zamani [passado] de sofrimento
se transformou num sasa-lobi [presente-futuro] de esperança.
Em 2001, com a Conferência Mundial contra o Racismo, a
Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância
Correlata (31 de agosto a 8 de setembro de 2001), em
Durban, na África do Sul, as vítimas do
escravismo colonial europeu, africanos e seus descendentes, exigiram aos
Estados europeus, americanos e africanos um pedido de perdão pelos atos
cometidos. Os Estados africanos através do representante da
União Africana o fizeram, mas da parte dos dirigentes dos
outros Estados houve resistência. Pois muitos não queriam assumir a sua
responsabilidade histórica. Afinal de contas, a conferência condenou a
escravidão como crime contra a humanidade.
Esses dois exemplos devem inspirar todas as sociedades multiculturais
que pretendem propiciar um destino melhor para todos os seus cidadãos.
Os países africanos que ainda brigam por causa da hegemonia política ou
da gestão dos recursos naturais; os países da América Latina,
como o caso do Brasil, onde as sequelas do escravismo e
do racismo dividem, proporcionando aos seus cidadãos o acesso aos
direitos políticos, econômicos, sociais e culturais de forma
diferenciada, devem se servir dos exemplos citados, para que o Ubuntu se
torne uma profecia da esperança cumprida.
No caso dos países africanos em situação das ditaduras militares, da
democracia de fachada ou da democracia fraca e do pós-conflito, cabe
apelar ao Ubuntu como uma nova forma de se pensar e fazer política.
Governar, nesse sentido, significa ouvir os opositores, presentes em
outros partidos políticos, nas organizações da sociedade civil, nas
aldeias para a elaboração de um projeto nacional coletivo. Perdoar
significa também fazer justiça em relação às mulheres vítimas de
estupros, de genocídios, de matanças por razões de egoísmo dos senhores
de guerras africanas. Reconciliação, nesse contexto, significa
esclarecimento perante a comunidade dos problemas que afetam as nações,
e a partilha das responsabilidades. É uma volta à memória ancestral, aos
valores africanos do passado, mas atualizados no presente, e o seu uso
no exercício de fazer a política na modernidade. Nesse aspecto, a
legitimidade dos dirigentes se fundamenta na prática da lealdade, na
busca do bem-estar do povo, e não o contrário.
IHU On-Line – Em um contexto social como o brasileiro, como a
ética Ubuntu pode contribuir na situação contemporânea?
Bas'Ilele Malomalo – Uma coisa que Ubuntu tem para nos
ensinar, nesse momento histórico, de experimentação de políticas
públicas de ações afirmativas e cotas é a consideração dos elementos de
perdão, reconciliação e compaixão. Para mim, perdoar significa antes de
tudo a identificação das causas de nossos males. Os males, que
justificam a situação do subdesenvolvimento da população negra quando
comparada com a branca, têm nomes: o nosso passado escravista e o
racismo contemporâneo. Tem outros fatores, mas esses dois são
suficientes. Para a teologia afro-brasileira, eles são identificados aos
pecados.
As instituições e as pessoas reprodutoras dessas práticas têm que
assumir suas responsabilidades perante Deus e a humanidade. Num país de
maioria cristã como o Brasil, exercer a compaixão significa colocar-se
no lugar do outro. As Igrejas cristãs como parte da sociedade civil
brasileira devem exercer o seu papel profético ao lado das igrejas,
comunidades, pastorais negras, em vez de ficar "em cima do muro". A
Igreja latino-americana dos anos de 1970 precisa voltar. O grito de
"Maranata" aqui significa que as comunidades religiosas têm o dever
ético de fazer ouvir a sua voz e interagir no debate atual sobre as
políticas públicas para negros e indígenas.
Reconciliação na perspectiva do Ubuntu, no Brasil atual, é um encontro
entre nós mesmos, com o nosso passado de dor, resistência e esperança. É
um encontro entre nós mesmos como povo brasileiro. Um povo marcado pela
miscigenação emancipatória e não um falso discurso de miscigenação
colonialista. A diferença é que o primeiro discurso assume a pluralidade
como valor, já o segundo o nega e o encara como uma ameaça.
(Por Moisés Sbardelotto)
Para ler mais:
|