‘Direitos Humanos é qualidade de vida’, resume Witter

 

Teobaldo Witter, 60 anos, é, antes de tudo, referência na luta por Direitos Humanos em Mato Grosso, desde a década de 70, quando aqui chegou, como pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana. Teólogo e mestre em Teologia, pedagogo e especialista em Psicologia da Educação, nasceu no interior do Rio Grande do Sul (RS), na pequena Constantina, cidade de forte influência alemã. Casado, pai de 3 filhos, Witter entende Direitos Humanos como qualidade de vida, mas não para apenas alguns e sim toda a sociedade mundial. O Dia Internacional dos Direitos Humanos é 10 de dezembro. Nessa mesma data, em 1948, Paris, a ONU adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, como regra maior de convivência entre os povos. Leia a entrevista.

 

Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e Justiça

 

Na sua visão, quais os desafios que Mato Grosso tem para garantir a a aplicação dos Direitos Humanos?

Tem as questões pontuais, como o trabalho escravo. Isso é um ponto que tem que ser tratado. Tem o problema da juventude e drogas, no sentido que os jovens têm poucas possibilidades de educação, mas não uma educação qualquer e sim que seja significativa e faça sentido para vida deles. Também têm dificuldade de acesso a trabalho, renda e vida digna. Tem toda a problemática dos presídios, que são amontoados de gente que está ali presa, vindo de lugar nenhum e indo para lugar nenhum, porque quando saem não têm uma profissão. E, pior, há ainda a mentalidade fascista das pessoas que acham que presos têm que morrer. Precisamos lembrar da discriminação que sofrem as famílias das pessoas presas, que perdem seus próprios espaços sociais, que são apontadas e discriminadas. O filho desse está preso, o pai daquela família também, isso é degradante. Muitas famílias se recolhem, mas também seria natural se revoltarem ou entrarem nas depressões da vida. Importante também destacar toda a questão ambiental, tanto o ambiente, como o meio ambiente, mas também a qualidade de vida nas cidades. Se você olhar Cuiabá vai ver uma que é uma cidade cheia de remendos, se você olhar as ruas e calçadas, perceberá que o ambiente urbano é estressante, mal cuidado, o serviço público é mal feito, o saneamento é resolvido por cima. Cuiabá e Várzea Grande são reflexos da visão que se tem da cidade. Precisamos pensar ainda no ambiente como questão mais global. Lembrar da questão indígena, problema grande, preocupante, já que a visão neoliberal é a de que os índios devem sair de suas terras e ir para as cidades, se virar por conta própria. Mas e o respeito à autonomia dos povos, as culturas, a visão de mundo e as reservas, parar com o aliciamento de lideranças indígenas.

Seria muito simplista dizer que Direitos Humanos é qualidade de vida?

No fundo é isso mesmo, mas tem desdobramentos. É qualidade de vida, mas não só para alguns, mas para todo mundo. Direitos Humanos ou são de todos ou são de ninguém. Se alguém não está sendo respeitado, então todos nós não estamos, porque ninguém em sã consci6encia pode admitir que em seu meio haja desrespeito aos Direitos Humanos.

Mas o fato é que as pessoas não parecem tão atentas a essas questões. Quer dizer que a sociedade não está agindo em sã consciência?

A sociedade brasileira é muito mal informada sobre Direitos Humanos e tem gente que tem interesse nisso, nessa desinformação. Meios de comunicação informam mal sobre isso.  Abordam superficialmente. Falam asneiras sobre isso, dizem que Direitos Humanos são para defender bandido. Isso é distorcer as coisas, porque Direitos Humanos é para defender todos os que têm sua vida ameaçada, é a luta para permitir que as pessoas, nas suas diferentes realidades e diferentes jeitos de ser, sejam respeitadas como ser humano, em sua dignidade.

Qual é a responsabilidade do Estado nisso?

Temos que perguntar. O que é o Estado? É uma construção social. A humanidade entendeu que os pequenos grupos não davam conta de resolver questões de sua realidade e precisavam de uma estrutura que apoiasse suas vidas. Na concepção marxista, todos mantêm o estado e a elite se beneficia dele. Mas o estado do bem deve assegurar a vida de todos e ser mediador de conflitos. Proativo na construção da justiça e solidariedade, palavras desgastadas. Mas, para Habermas, a justiça e a solidariedade são pilares que a gente constrói junto com o Estado, que entra como garantidor desse diálogo.

O Centro de Direitos Humanos Henrique Trindade atuou muito fortemente em Mato Grosso, durante duas décadas. Por que fechou?

As entidades como tal entraram em crise, nos anos de 2002, 2003, o movimento popular como um todo, entrou em crise, assim como Estado brasileiro. Essa é uma luta difícil, arriscada, mas muito importante, e a gente tem esse sonho que os Direitos Humanos sejam assegurados pelo Estado. Nesses anos em que atuamos, ajudamos, por exemplo, a construir a Defensoria Pública. O ninho da Defensoria Pública, não só em mato Grosso, mas no Brasil, é o movimento dos Direitos Humanos.  Não sei se todo mundo está ligado nisso, mas é bom destacar. A luta dos Direitos Humanos também foi fundamental durante o regime militar, e também na abertura do país. Quanto mais forte os Direitos Humanos mais qualidade de vidas as pessoas terão, todos e todas. A dignidade humana é maior que o próprio Estado. Os Direitos Humanos estão nas pessoas, no ambiente saudável.  Temos que ter isso em vista. E repensar as coisas. Se o Estado não dá conta de garantir os Direitos Humanos, então os movimentos sociais têm que puxar isso de novo.

 






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