‘Direitos Humanos é qualidade de vida’, resume Witter
Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e
Justiça
Na sua visão, quais os desafios que Mato Grosso tem para garantir a a
aplicação dos Direitos Humanos?
Tem as questões pontuais, como o trabalho escravo. Isso é um ponto que
tem que ser tratado. Tem o problema da juventude e drogas, no sentido
que os jovens têm poucas possibilidades de educação, mas não uma
educação qualquer e sim que seja significativa e faça sentido para vida
deles. Também têm dificuldade de acesso a trabalho, renda e vida digna.
Tem toda a problemática dos presídios, que são amontoados de gente que
está ali presa, vindo de lugar nenhum e indo para lugar nenhum, porque
quando saem não têm uma profissão. E, pior, há ainda a mentalidade
fascista das pessoas que acham que presos têm que morrer. Precisamos
lembrar da discriminação que sofrem as famílias das pessoas presas, que
perdem seus próprios espaços sociais, que são apontadas e discriminadas.
O filho desse está preso, o pai daquela família também, isso é
degradante. Muitas famílias se recolhem, mas também seria natural se
revoltarem ou entrarem nas depressões da vida. Importante também
destacar toda a questão ambiental, tanto o ambiente, como o meio
ambiente, mas também a qualidade de vida nas cidades. Se você olhar
Cuiabá vai ver uma que é uma cidade cheia de remendos, se você olhar as
ruas e calçadas, perceberá que o ambiente urbano é estressante, mal
cuidado, o serviço público é mal feito, o saneamento é resolvido por
cima. Cuiabá e Várzea Grande são reflexos da visão que se tem da cidade.
Precisamos pensar ainda no ambiente como questão mais global. Lembrar da
questão indígena, problema grande, preocupante, já que a visão
neoliberal é a de que os índios devem sair de suas terras e ir para as
cidades, se virar por conta própria. Mas e o respeito à autonomia dos
povos, as culturas, a visão de mundo e as reservas, parar com o
aliciamento de lideranças indígenas.
Seria muito simplista dizer que Direitos Humanos é qualidade de vida?
No fundo é isso mesmo, mas tem desdobramentos. É qualidade de vida, mas
não só para alguns, mas para todo mundo. Direitos Humanos ou são de
todos ou são de ninguém. Se alguém não está sendo respeitado, então
todos nós não estamos, porque ninguém em sã consci6encia pode admitir
que em seu meio haja desrespeito aos Direitos Humanos.
Mas o fato é que as pessoas não parecem tão atentas a essas questões.
Quer dizer que a sociedade não está agindo em sã consciência?
A sociedade brasileira é muito mal informada sobre Direitos Humanos e
tem gente que tem interesse nisso, nessa desinformação. Meios de
comunicação informam mal sobre isso.
Abordam superficialmente. Falam asneiras sobre isso, dizem que
Direitos Humanos são para defender bandido. Isso é distorcer as coisas,
porque Direitos Humanos é para defender todos os que têm sua vida
ameaçada, é a luta para permitir que as pessoas, nas suas diferentes
realidades e diferentes jeitos de ser, sejam respeitadas como ser
humano, em sua dignidade.
Qual é a responsabilidade do Estado nisso?
Temos que perguntar. O que é o Estado? É uma construção social. A
humanidade entendeu que os pequenos grupos não davam conta de resolver
questões de sua realidade e precisavam de uma estrutura que apoiasse
suas vidas. Na concepção marxista, todos mantêm o estado e a elite se
beneficia dele. Mas o estado do bem deve assegurar a vida de todos e ser
mediador de conflitos. Proativo na construção da justiça e
solidariedade, palavras desgastadas. Mas, para Habermas, a justiça e a
solidariedade são pilares que a gente constrói junto com o Estado, que
entra como garantidor desse diálogo.
O Centro de Direitos Humanos Henrique Trindade atuou muito fortemente em
Mato Grosso, durante duas décadas. Por que fechou?
As entidades como tal entraram em crise, nos anos de 2002, 2003, o
movimento popular como um todo, entrou em crise, assim como Estado
brasileiro. Essa é uma luta difícil, arriscada, mas muito importante, e
a gente tem esse sonho que os Direitos Humanos sejam assegurados pelo
Estado. Nesses anos em que atuamos, ajudamos, por exemplo, a construir a
Defensoria Pública. O ninho da Defensoria Pública, não só em mato
Grosso, mas no Brasil, é o movimento dos Direitos Humanos.
Não sei se todo mundo está ligado nisso, mas é bom destacar. A
luta dos Direitos Humanos também foi fundamental durante o regime
militar, e também na abertura do país. Quanto mais forte os Direitos
Humanos mais qualidade de vidas as pessoas terão, todos e todas. A
dignidade humana é maior que o próprio Estado. Os Direitos Humanos estão
nas pessoas, no ambiente saudável.
Temos que ter isso em vista. E repensar as coisas. Se o Estado
não dá conta de garantir os Direitos Humanos, então os movimentos
sociais têm que puxar isso de novo.
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