Quilombolas e o dia da consciência negra
Antonio Carlos Ribeiro*
Segundo o autor, muitas pessoas pensam que o Rio Grande do Sul é um
Estado rico, de colonização alemã e italiana, sem a presença de
afrodescendentes e participação na história de escravatura. Ao contestar
a informação, ele informa que o Rio Grande do Sul tem 82 localidades
certificadas, permitindo que mais de 3 mil famílias em solo
rio-grandense requisitem o título de propriedade.
Heck observa que as populações
de imigrantes alemães se referiam aos grupos de negros chamando-os de
“Die Blaue”, em alemão, os azuis. Isso é especialmente verdadeiro no
caso do Quilombo Casca, que em 1824, na época da chegada dos primeiros
imigrantes alemães, a proprietária Quitéria Pereira do Nascimento doou
uma área de 2,3 mil hectares para seus 23 empregados negros. Antes de
morrer, ela registrou em testamento a decisão de dar aos escravos a
liberdade e a posse da terra onde viviam.
Fato ocorrido há 186 anos e 64 anos antes da Lei Áurea, assinada pela
Princesa Isabel, que abolia a escravidão no país. A razão da decisão era
a piedade. "O casal era muito religioso. Considerava nossos antepassados
como pessoas que trabalhavam para ele. Vários até tinham casas para
morar", afirma Ilza de Matos Machado, do Conselho Fiscal da Comunidade
Quilombola de Casca. Mas, observa Heck, “sua vontade jamais foi
registrada em cartório. A área foi invadida inúmeras vezes nas décadas e
séculos seguintes”.
Isso determina que a comunidade de Casca seja a terceira área
remanescente de quilombo no Rio Grande do Sul a receber o título,
ficando as duas primeiras na capital e no município de Canoas. Esse fato
"representa uma maior visibilidade da história da comunidade negra que
se encontra no Rio Grande do Sul profundo e, muitas vezes, é invisível.
Dá perspectiva de acesso a políticas públicas", lembrou Ubirajara
Toledo, do Instituto de Assessoria às Comunidades Remanescentes de
Quilombos do Estado, no Dia da Consciência Negra.
Na prática, a negritude das populações afrodescendentes só tem impacto
social quando estas adquirem consciência. No entanto, o caminho mais
longo é o dessas pessoas assumirem sua negritude, resgatarem a
auto-estima da sua cor e etnia, de sua história.
Como exemplo ele lembra a professora Nádia Maria Rodrigues, 42 anos, da
rede pública do Distrito Federal: "Depois que fui para um grupo de
estudos discutir gênero e raça, me valorizo, me respeito, me imponho,
vou para o embate se for preciso. Eu era cega, a minha revolta é a minha
cegueira. Tudo mudou na minha vida depois que eu enegreci".
A escravização dos africanos no país (1518-1888), da qual as elites
econômicas se orgulham – lembram a campanha eleitoral recente? – é uma
instituição presente na maior parte das sociedades pré-modernas.
Na verdade, essas pessoas são ‘enegrecidas’ (em alemão, angeschwarzt).
Para a maioria das pessoas brancas de formação tradicional, os negros
simbolizam “o irracional, o impulsivo, impuro, indomado e sensual”, que
devem subjugar pelo autodomínio branco e à luz da sua razão.
A negrofobia branca não tem paralelo na relação com pessoas de tez
vermelha ou amarela, é uma projeção das facetas divorciadas da própria
alma e da angústia da culpa reprimida, lembra F. Fanon em Pele negra,
máscaras brancas (Schwarze Haut, weiβe Masken).
A maior tensão no contato com pessoas racistas é quando se percebe que o
orgulho sobre-humano por sua ‘raça’ branca é, na verdade, estar possuído
por um medo inumano. Quem iguala o ser humano com o ser branco destrói a
sua própria humanidade.
E o mais dramático, ao precisar converter seu medo em agressão contra
outros, destrói a comunhão com eles. Só vê o ‘preto’ pessoas negras e
não pessoas como ele próprio. Por essa razão, a humilhação racista de
uma pessoa é, no fundo, ódio mortal contra si mesmo, ensinou P. Martin
em Diabo preto, mouro nobre (Schwarze Teufel, edle Mohren).
Quem experimenta a graça de Deus, vive a liberdade de não precisar
submeter-se a ninguém, pela fé, e pode decidir ser servo de todos, pelo
amor, ensinou o reformador Martinho Lutero. Ademais, ninguém nasce
portando um preconceito. E o que foi construído, pode ser desconstruído,
aprendemos de Nelson Mandela. Ele perdeu a liberdade por mais de três
décadas, mas não lhe roubaram a dignidade!
Os ‘Blaue’ do preconceito tornaram-se negros. E com identidade.
* Antonio Carlos Ribeiro é teólogo luterano, jornalista e professor
universitário no Rio de Janeiro (antoniocarlosrib@gmail.com)
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