Quilombolas e o dia da consciência negra

Antonio Carlos Ribeiro*

 

Rio de Janeiro, segunda-feira, 29 de novembro de 2010 (ALC) - O Rio Grande do Sul é o sexto Estado em presença quilombola. A afirmação é de Selvino Heck, membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política e assessor especial da Presidência da República, ao referir-se à dignidade que quilombolas reconquistam com suas terras.

Segundo o autor, muitas pessoas pensam que o Rio Grande do Sul é um Estado rico, de colonização alemã e italiana, sem a presença de afrodescendentes e participação na história de escravatura. Ao contestar a informação, ele informa que o Rio Grande do Sul tem 82 localidades certificadas, permitindo que mais de 3 mil famílias em solo rio-grandense requisitem o título de propriedade.

 Heck observa que as populações de imigrantes alemães se referiam aos grupos de negros chamando-os de “Die Blaue”, em alemão, os azuis. Isso é especialmente verdadeiro no caso do Quilombo Casca, que em 1824, na época da chegada dos primeiros imigrantes alemães, a proprietária Quitéria Pereira do Nascimento doou uma área de 2,3 mil hectares para seus 23 empregados negros. Antes de morrer, ela registrou em testamento a decisão de dar aos escravos a liberdade e a posse da terra onde viviam.

Fato ocorrido há 186 anos e 64 anos antes da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, que abolia a escravidão no país. A razão da decisão era a piedade. "O casal era muito religioso. Considerava nossos antepassados como pessoas que trabalhavam para ele. Vários até tinham casas para morar", afirma Ilza de Matos Machado, do Conselho Fiscal da Comunidade Quilombola de Casca. Mas, observa Heck, “sua vontade jamais foi registrada em cartório. A área foi invadida inúmeras vezes nas décadas e séculos seguintes”.

Isso determina que a comunidade de Casca seja a terceira área remanescente de quilombo no Rio Grande do Sul a receber o título, ficando as duas primeiras na capital e no município de Canoas. Esse fato "representa uma maior visibilidade da história da comunidade negra que se encontra no Rio Grande do Sul profundo e, muitas vezes, é invisível. Dá perspectiva de acesso a políticas públicas", lembrou Ubirajara Toledo, do Instituto de Assessoria às Comunidades Remanescentes de Quilombos do Estado, no Dia da Consciência Negra.

Na prática, a negritude das populações afrodescendentes só tem impacto social quando estas adquirem consciência. No entanto, o caminho mais longo é o dessas pessoas assumirem sua negritude, resgatarem a auto-estima da sua cor e etnia, de sua história.

Como exemplo ele lembra a professora Nádia Maria Rodrigues, 42 anos, da rede pública do Distrito Federal: "Depois que fui para um grupo de estudos discutir gênero e raça, me valorizo, me respeito, me imponho, vou para o embate se for preciso. Eu era cega, a minha revolta é a minha cegueira. Tudo mudou na minha vida depois que eu enegreci".

A escravização dos africanos no país (1518-1888), da qual as elites econômicas se orgulham – lembram a campanha eleitoral recente? – é uma instituição presente na maior parte das sociedades pré-modernas.

Na verdade, essas pessoas são ‘enegrecidas’ (em alemão, angeschwarzt). Para a maioria das pessoas brancas de formação tradicional, os negros simbolizam “o irracional, o impulsivo, impuro, indomado e sensual”, que devem subjugar pelo autodomínio branco e à luz da sua razão.

A negrofobia branca não tem paralelo na relação com pessoas de tez vermelha ou amarela, é uma projeção das facetas divorciadas da própria alma e da angústia da culpa reprimida, lembra F. Fanon em Pele negra, máscaras brancas (Schwarze Haut, weiβe Masken).

A maior tensão no contato com pessoas racistas é quando se percebe que o orgulho sobre-humano por sua ‘raça’ branca é, na verdade, estar possuído por um medo inumano. Quem iguala o ser humano com o ser branco destrói a sua própria humanidade.

E o mais dramático, ao precisar converter seu medo em agressão contra outros, destrói a comunhão com eles. Só vê o ‘preto’ pessoas negras e não pessoas como ele próprio. Por essa razão, a humilhação racista de uma pessoa é, no fundo, ódio mortal contra si mesmo, ensinou P. Martin em Diabo preto, mouro nobre (Schwarze Teufel, edle Mohren).

Quem experimenta a graça de Deus, vive a liberdade de não precisar submeter-se a ninguém, pela fé, e pode decidir ser servo de todos, pelo amor, ensinou o reformador Martinho Lutero. Ademais, ninguém nasce portando um preconceito. E o que foi construído, pode ser desconstruído, aprendemos de Nelson Mandela. Ele perdeu a liberdade por mais de três décadas, mas não lhe roubaram a dignidade!

Os ‘Blaue’ do preconceito tornaram-se negros. E com identidade.

* Antonio Carlos Ribeiro é teólogo luterano, jornalista e professor universitário no Rio de Janeiro (antoniocarlosrib@gmail.com)

 






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