Semeando novidades por aí

 

* Por Gibran Lachowski

 

O ar de criticidade, se utilizado sem autocrítica, pode nos aprisionar.

 Por isso deve nos importar, além da denúncia, o estímulo à percepção de que a negativa situação é resultado de um processo e não algo que existiu desde sempre. Historicamente foi criado e historicamente pode ser desconstruído.

 Significa dizer que nossa prática em casa, na sala de aula, no trabalho, entre amigos, na igreja e por aí precisa se pautar pela amostragem de alternativas ou experiências de superação.

E isso deve ser cotidiano, visto que parcela considerável das instituições com espaço destacado em nossa sociedade continua a reproduzir a ideia de que o mundo é ruim, não adianta fazer nada para mudar e que, de quebra, nós somos massa de manobra, além de conformados.

Inúmeras unidades midiáticas, escolares, religiosas e familiares desempenham esse papel... de adestramento mental.

Daí brotam, até em muitas mentes sadias e inovadoras, pensamentos como o de que o povo é burro, não tem cultura, facilmente se deixa levar ou se contenta com uma cesta básica.

E a situação piora quando em meio ao incentivo à malemolência desponta a gana pelo catastrofismo, a vontade tremenda de fazer análises de conjuntura apocalípticas, que prevêem a falta de saída.

Desafios

Ao contrário disso, que tal apontar formas de desafiar as complicações da realidade? Não se fala em esconder o problema ou minimizar suas conseqüências. Trata-se de apresentar outros modos de encarar o quadro adverso.

Em sala de aula, por que viver a criticar a mídia comercial? Não é mais proveitoso ao mesmo tempo enumerar programas, canais, meios ou iniciativas capazes de expor outros formatos de comunicação? Que tal incentivarmos proposições fora e além dos padrões que nos rodeiam?

Pode ser um ciclo de debates sobre os meios de comunicação no colégio ou faculdade. O aprendizado da leitura crítica acerca da mídia.  A indicação de um livro que conta como uma associação de moradores potencializou sua voz a partir de um jornal de bairro.

O desenvolvimento de uma pesquisa sobre os hábitos midiáticos da população de um determinado lugar que busque saber o que se faz com as informações recebidas.

Pode ser a mudança, ainda que gradual, na linha editorial ou prática jornalística de um programa de tv que trabalhe a humanização de relatos, a diversificação de fontes de informação (também as informais), a ampliação do conceito de notícia (não só o que, a priori, daria audiência).  

A descoberta e difusão do cinema negro, da valorização da cultura popular. Da divulgação de o que é uma lei de iniciativa popular – capaz de derrubar ou alterar um projeto já votado e aprovado por vereadores, deputados e senadores. E por aí vai...

Ajuste do olhar

Então, perante a torrente de más notícias percebidas em razão da distância entre o que se tem e o que se almeja, é necessário o ajuste do olhar para captar tão intensa enxurrada de idéias, propostas e mecanismos de transformação.

Isso, em resumo, é para dizer que ser crítico não significa de modo algum ter a cara fechada, a testa sisuda ou o vocabulário marcado pelo amargor.

Ser crítico está além disto: corresponde a uma postura diária marcada pela leitura da realidade que contenha em si a semente de uma realidade em processo de mudança. 

 

* Gibran Lachowski é jornalista, professor e coordenador do curso de Comunicação da Faculdade Cenecista de Rondonópolis

 






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