‘Todos nós somos chamados a ser monges’. Entrevista especial com Marcelo
Barros
Fonte : IHU
Link:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=38611
Aos 66 anos, o monge beneditino
Marcelo Barros
não para. Depois de participar do
Seminário sobre questões climáticas e a vida
no planeta
em Porto Alegre, foi para Argentina, onde aceitou conceder à IHU
On-Line a entrevista a seguir por email. Logo depois seguiu para
Brasília e São Paulo e em meio a essa nova viagem respondeu nossas
questões sobre a relação entre espiritualidade e o cuidado com a vida do
planeta. “A Ecologia não é somente a ciência da interligação entre todos
os seres vivos e todo o Universo, mas é também a descoberta desta
amorosidade que permeia tudo e está presente em tudo”, explicou.
Marcelo Barros é monge beneditino, biblista e escritor. É
assessor do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e das
Comunidades Eclesiais de Base. É membro da Comissão da Coordenação
Latino-americana da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro
Mundo (ASETT). Dedica-se, especialmente, ao macroecumenismo e às
relações com as religiões afrodescendentes e indígenas. Seu mais recente
livro é O Amor fecunda o Universo (Rio de Janeiro: Ed. Agir,
2009), o qual tem como coautor Frei Betto.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como trazer a problemática do clima para dentro das
igrejas, da espiritualidade e da vida da sociedade?
Marcelo Barros – As igrejas cristãs e quase todas as religiões se
expressam pela liturgia, pelo ato de se reunir e celebrar. E estas
celebrações são atos de comunhão. É importante que se explicite mais
profundamente a dimensão ecológica e cósmica desta comunhão. Para dar um
exemplo, em todas as celebrações eucarísticas, a Igreja Católica
e a Igreja Anglicana e outras cantam: “Santo, Santo, Santo é o
Deus do universo. O céu e a terra estão cheios de tua glória”. Mas
ninguém explicita o que significa concretamente confessar que a terra e
os céus estão cheios da glória, isto é, da
presença divina.
Então, é tudo uma questão de educação e de sensibilidade que devemos
intensificar.
IHU On-Line – E por que isso não foi feito até agora?
Marcelo Barros – As igrejas vieram de culturas antigas nas quais as
comunidades judaicas e cristãs viviam em meio a povos que adoravam a
natureza. Por isso, tanto a Bíblia como a teologia que surgiu evitou, o
quanto possível, salientar esta presença divina nos elementos naturais e
sublinharam mais a presença e a intervenção divina na história. Mas
nunca negaram isso. O salmo 19 começa dizendo: “Os céus proclamam
a presença divina (a glória de Deus)”. E o salmo 8 é fruto de uma
contemplação da natureza em uma noite de luar. Hoje, o diálogo com as
religiões indígenas e afrodescendentes que adoram o Mistério divino
presente na Terra, na Água e em todos os elementos do Universo podem nos
ensinar muito sobre esta espiritualidade ecológica.
IHU On-Line – Como o senhor relaciona a questão da ecologia e da
espiritualidade?
Marcelo Barros – A
Espiritualidade
mais profunda é a busca da intimidade com o Mistério divino. Onde
podemos buscar esta presença divina? Em nós mesmos, uns nos outros, na
natureza (diz a Bíblia: na criação que continua e é sempre atual) e na
história. Então, a Ecologia não é somente a ciência da interligação
entre todos os seres vivos e todo o Universo, mas é também a descoberta
desta amorosidade que permeia tudo e está presente em tudo. Então, é
importante a ciência ecológica, a técnica ecológica, a política
ecossocial, mas a raiz de tudo isso deve ser uma cultura, ou chamemos
claramente, uma espiritualidade ecológica. Não se trata em si de uma
espiritualidade religiosa. Pode ser e todas as religiões deveriam
desenvolvê-la e explicitá-la mais. Entretanto, pode ser também
simplesmente humana e laical: uma cultura de cuidado e amorosidade com
todo ser vivo e com o Universo ao qual temos consciência de pertencer.
IHU On-Line – De que outras formas as igrejas podem se envolver com a
questão do meio ambiente?
Marcelo Barros – Há dez anos, Bartolomeu I [patriarca de
Constantinopla e primaz das Igrejas ortodoxas] instituiu o dia
1º
de setembro como “festa litúrgica da Espiritualidade Ecológica”. Como a
liturgia é o memorial dos atos divinos, no dia 1 de setembro, as igrejas
orientais são chamadas a reavivar e atualizar o ato de amor divino pelo
qual o Universo foi criado. E assim como celebramos a Páscoa como
memorial da ressurreição do Cristo, no dia
1º
de setembro celebramos a permanente ressurreição de toda criação como
ato do Espírito Divino. Penso que as Igrejas todas deveriam incluir a
Ecologia na catequese, na sua ética e na sua teologia.
Há anos, em um programa de televisão, um
pastor neopentecostal
deu um chute em uma imagem de Nossa Senhora. Bispos, padres e fiéis
católicos reagiram fortemente em todo o Brasil. Houve manifestações de
desagravo e a reação foi tal que o pastor teve de se retratar. Todos os
dias, há pessoas que não só chutam uma imagem feita de madeira ou barro,
mas destroem a imagem divina inscrita na natureza. A cada ano queimam
quase 30% da floresta amazônica, jogam venenos nos campos, poluem os
rios e o ar. Até aqui, a maioria das igrejas não percebeu que este tipo
de crime é uma blasfêmia e um atentado contra a obra divina muito maior
e mais perigoso do que chutar uma imagem que representa uma santa que
amamos. No sentido contrário, quando o governo Lula decidiu pela
transposição do rio São Francisco,
Dom Luis Cappio
e muitos companheiros e companheiras das pastorais populares entraram em
jejum de solidariedade e comunhão com o rio. Isso foi uma profecia
importante para todas as igrejas e para o mundo inteiro.
IHU On-Line – O que é preciso fazer para que governos rompam com a
lógica do sistema capitalista?
Marcelo Barros – Os governos representam a população. Se nós
criarmos uma consciência coletiva de que este sistema é iníquo e
assassino das pessoas e da natureza, é impossível que os governos
continuem investindo neste sistema. Quando em 2001, o
Fórum Social Mundial
começou protestando contra o neoliberalismo e proclamando que “outro
mundo é possível”, quase todos os governos do continente
latino-americano defendiam abertamente o neoliberalismo. Hoje, depois da
crise sistêmica do capitalismo, quase nenhum governo defende mais
claramente o neoliberalismo e os que defendem, o disfarçam. Ao mesmo
tempo, na América Latina, estão surgindo novas formas de socialismo mais
indígenas e democratas que mostram que, de fato, outra lógica e
organização sociais são possíveis e urgentes.
IHU On-Line – O que é a teologia eco-feminista? O que podemos
aprender com ela?
Marcelo Barros – Antes estávamos falando do capitalismo. O sistema
que há séculos oprime a natureza é o mesmo que oprime a mulher. A
cultura de dominação que ensina o ser humano não a conviver
respeitosamente, mas a explorar a natureza é a mesma cultura patriarcal
que sempre defendeu uma espécie de superioridade do homem sobre a
mulher. Então a luta contra a dominação da natureza está ligada à luta
pela libertação da mulher. Isso é o
Ecofeminismo
e é uma conquista da teologia para todos nós, homens e mulheres. No
Brasil, nossa irmã e companheira
Ivone Gebara
foi a primeira teóloga brasileira que chamou a atenção disso em seu belo
livro Teologia Ecofeminista (São Paulo: Editora Olho
d´Agua, 1990).
IHU On-Line – As mulheres protegem a biodiversidade mais do que os
homens?
Marcelo Barros – Parece artificial dizer que sim. O que podemos
dizer é que a sensibilidade feminina pode levar a isso. Por exemplo, há
pesquisas históricas que mostram que as culturas matriarcais (governadas
por mulheres) fizeram muito menos guerra do que as patriarcais
(dominadas por homens) e todos sabemos que desde a antiguidade
e, principalmente, hoje, as guerras são elementos fortíssimos de
destruição da biodiversidade. O que precisamos é de mulheres que não
entrem simplesmente no mesmo sistema patriarcal e, sim, contribuam com a
humanidade com o jeito de ser próprio da mulher. Na Inglaterra
imperialista, uma mulher como Margaret Thatcher, apesar de ser
mulher, não contribuiu com a transformação do sistema. Ao contrário,
aprofundou-o. Mas as mulheres do MST que, há alguns anos, no Rio
Grande do Sul, ocuparam um laboratório de sementes transgênica de uma
empresa multinacional e destruíram as sementes fizeram um ato profético
de defesa da biodiversidade.
IHU On-Line – A formação de um monge privilegia esse outro olhar mais
atento para o meio ambiente?
Marcelo Barros –
Monge
vem de uma palavra grega (monos) que significa uno ou unificado. Então
ser monge é caminhar para a unificação interior e isso se faz em geral
pela busca da unidade com os outros, tanto irmãos da humanidade, como os
outros seres vivos em uma fraternidade universal.
Raimon Panikkar,
nosso irmão teólogo catalão, há pouco falecido, ensinava que esta
dimensão de monge está presente em todo ser humano. De alguma maneira,
toda pessoa busca esta unificação interior. Toda pessoa tem algo de
monge ou monja. Hoje, é a Ecologia que chama a atenção para esta
interligação e unidade que existe entre todos os seres do universo.
Então há uma relação muito profunda entre a arte de ser monge e a
espiritualidade ecológica.
Na Idade Média,
Francisco de Assis
viveu profundamente isso. Na Rússia do século XIX, o santo monge
Serafim de Sarov vivia na floresta. Quando encontrava um animal que
fosse um urso ou um pássaro, se inclinava diante dele e dizia: “De fato,
Jesus ressuscitou e estou vendo um sinal disso!”. Então, eu digo: Todos
nós somos chamados a ser monges no sentido de buscar esta unidade do
nosso ser interior e na relação de amor e unidade com todos os seres
humanos e com a natureza. O trabalho do IHU é um testemunho deste
tipo de espiritualidade monástica e ecológica em seu sentido mais
profundo: transformador e de desenvolver uma cultura de amor e de
cuidado universal.
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