Truman Capote a sangue frio

Por Dafne Spolti*

 

O filme “A Sangue Frio” (1967), baseado no livro homônimo de Truman Capote, é dirigido por Richard Brooks. Conta a história do assassinato a quatro membros da família Cutller, dentro da própria casa, no ano de 1956 em Holcomb – Kansas - EUA. Um crime aparentemente sem motivo.

Herb Cutller morava com sua esposa adoecida, Bonnie; e seus dois filhos: Nancy e Kenyon. A outra filha não vivia com eles. Já estava casada. Entre os Cutller e o resto de Holcomb não havia inimizades. Mas dois criminosos, Perry e Dick, souberam que Herb possuía um cofre provavelmente com 10 mil dólares. Foram até lá assaltá-los.

A história do cofre era falsa. Dick insistiu. Acreditou o tempo todo que havia uma grande quantia de dinheiro com os Cuttler. No momento do crime ameaçava: “se o cofre não aparecer matamos todo mundo”. Perry já havia caído em si. Percebeu que não existia o dinheiro, que era um erro estarem fazendo tudo aquilo. Com os seus rostos já reconhecidos, porém, decidiu atirar em todos os membros da família. Eles não podiam deixar nenhuma testemunha do crime.

Em 2005, foi gravado o filme “Capote”, de Bennett Miller. O filme faz ótimo par com “A Sangue Frio” já que “desenha” o trabalho de Truman Capote na cobertura jornalística desse crime, os caminhos até a publicação do livro, uma obra consagrada que há meio século levanta discussões dentro do jornalismo. A costura entre os filmes é perfeita.

Truman Capote viu a notícia sobre o crime num jornal. Decidiu investigar o caso, a princípio para uma revista. Não sabia aonde ia chegar. Nem o sofrimento que isso traria e, tampouco, o marco que significaria para o jornalismo. Tinha consciência, apenas, de que a obra faria sucesso. Não em que medida.

Capote começou a investigar o caso, só que tudo era mais complexo do que parecia. Precisava, então, escrever um livro. Revista não tinha espaço suficiente. Ele investigou, investigou... durante mais de cinco anos viveu o crime.

Conseguiu falar com todas as fontes que precisava. Entre essas pessoas, o Perry, que disparou o gatilho contra a família. Apesar de ser o executor do assassinato, Perry tornou-se amigo de Truman. Não era apenas uma fonte. E é essa relação que nos leva a pensar demais sobre o fazer jornalístico, traz a quem vê os filmes crises de consciência, dúvida em relação ao que é correto ou não e tudo o mais. Não especificamente por conta da amizade. Sim em relação às atitudes de Truman com o assassino.

Perry e Dick receberam pena de morte com enforcamento pelo crime. Truman Capote (isto não aparece no primeiro filme) consegue adiar a execução, contratando um advogado melhor. Mas por quê? Porque precisava de mais tempo para conversar com os criminosos e construir sua história. E talvez por conta do seu apego a Perry.

Depois de um tempo, ele não queria mais adiar nada. Assim que soube exatamente como foi a noite do crime, coisa que ninguém tinha conseguido descobrir, ficou na verdade esperando a morte dos dois para poder concluir a obra. A situação era: para terminar o livro, precisava que eles morressem. Precisava de um fim. Mas, por outro lado, era amigo de Perry. Não desejava profundamente sua morte. É uma situação inimaginável. Não dá vontade de se colocar no lugar de Truman para saber a agonia que sentiu.

A principal crise ética dentro disso é: O que é mais importante? A publicação de um livro ou salvar o Perry da morte, mas não da prisão? Se tornou amigo de Perry, reconheceu que ele era desequilibrado, mas do bem; então como não lutar para que a pena de morte fosse cancelada? E os subterfúgios para chegar à verdade? Por que mentir para Perry na tentativa de conseguir mais e mais informações? E o Dick? Será que ele não devia ter conversado um pouco mais com o Dick? Em quê Truman Capote se fechou?

Essas são algumas das reflexões... Uma outra angústia é que não há ser humano que suporte essa carga psicológica de investigar durante cinco anos um crime deste. E chegando nesse ponto, vale – vale sim – refletir sobre os nossos limites, o que queremos da vida. Vale a pena tudo isso? Afinal, por que ele escreveu o livro? Por que teve que assistir seu amigo Perry sendo enforcado?

Os filmes “A Sangue Frio” e “Capote” devem ser vistos e revistos. E discutidos por mais décadas, séculos... Para começar precisamos perceber quem é “a sangue frio” e se existe mesmo essa pessoa. O Estado? O jornalista? Dick? Perry? Ninguém? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê?

 

* Estudante de jornalismo da UFMT, membro do Coletivo Juntos Somos Fortes. Agora está lendo o livro que deu origem aos filmes.




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