Leigas e leigos a serviço do REINO.
Marilza Lopes*
“A
prática e a pregação de Jesus mostram que seu projeto, entendido como
expressão da vontade do Pai, visava à superação de todas as divisões
sociais e religiosas da sociedade judaica de seu tempo. Suas atitudes
chegavam a escandalizar porque vivia a comunhão com pessoas consideradas
de má companhia. O Evangelho aponta para uma convivência humana de
justiça, amor, fraternidade, co-responsabilidade e igualdade. A epístola
aos Hebreus ainda nos recorda: ‘Se Jesus estivesse na terra nem mesmo
sacerdote seria, porque já existem sacerdotes’(8,4). Na perspectiva do
Antigo Testamento, Jesus é antes leigo que sacerdote, porque, como
novamente diz a epístola aos Hebreus, ‘é notório que Nosso Senhor nasceu
em Judá, a cuja tribo Moisés nada disse a respeito do sacerdócio’(7,14).
Os ideais igualitários e comunitários foram percebidos pelos primeiros
cristãos. Nos Atos dos Apóstolos constatamos o ensaio de uma comunidade
que colocava tudo em comum, que não havia introduzido nenhuma separação
nem distinção, porque os fiéis eram um só coração e uma só alma e juntos
viviam e testemunhavam a novidade do Evangelho (cf. At2, 42-45;
4,32-35).”(Boff, 1998)
Este é um desafio, enquanto leigos e leigas, superarmos as dicotomias e
divisões e avançarmos no Seguimento de Jesus Cristo, aprendendo e
praticando “as bem aventuranças do Reino, o estilo de vida do mesmo
Jesus Cristo: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão diante
da dor humana, sua aproximação com os pobres e pequenos, sua fidelidade
à missão recebida, seu amor serviçal até o dom de sua vida. Hoje,
contemplamos a Jesus Cristo tal como nos transmitem os Evangelhos para
conhecer o que ele fez e para discernir o que nós devemos fazer nos dias
de hoje." (DA,139)
É
o que também nos recorda a afirmação de Paulo: "Tenham em vocês os
mesmos sentimentos que havia
Ser discípulo e seguir a Jesus é viver a experiência do trabalho, ter
compaixão do povo, solidarizar-se com as multidões, assumir suas dores,
criticar seu abandono e dá a vida por suas ovelhas. (Mc 6,1-6; 3,14; Lc
10, 2-12; Jo 1, 38-39). Ser discípulo e seguir Jesus é assumir o anúncio
do Reino aos pobres e que a salvação se faz presente na mudança de
situação real de vida operada na ação evangelizadora e libertadora de
Jesus (Paulo VI, Evangelii nuntiandi n.30; Lc 4, 16-21; Mt 11,2-6).
É
nosso desafio hoje atualizar essa ação evangelizadora e libertadora de
Jesus apoiando as lutas pela defesa da vida em todos os campos, seja dos
sem terra, dos sem teto, dos desempregados, dos abandonados pelo Estado
e, muitas vezes, pela própria Igreja, sendo solidários com os rostos
sofredores do povo de rua, dos migrantes, dos doentes, dos dependentes
químicos, dos presos, indo às ruas, praças e cidades, sem medo e sem
vergonha, empunhando nossas bandeiras, sendo profetas "bocudos,
zóiudos e oreiúdos", pois, como "discípulos e missionários somos
chamados a contemplar, nos rostos sofredores de nossos irmãos e irmãs o
rosto do Cristo que nos chama a servi-lo nele" (DA 393, Puebla, 31-39,
Santo Domingo, 179), pois “a opção preferencial pelos pobres está
implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para
nos enriquecer com sua pobreza” (DA, 392)
Jesus é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo. 14,6) um caminho de
conflitos, confrontos e de posicionamento contra a ideologia dos
dominantes que impede a possibilidade da vida florescer (Mc 8, 22 –
11,8) e, seguir a Cristo é fazer a escolha que ele fez, é viver a
espiritualidade da cruz, assumindo-a até as últimas conseqüências,
inclusive, fazendo o que Jesus fez: dar a vida por suas ovelhas.
Eis, pois, a missão do laicato, descrita pelo Concílio Vaticano II, que
fala positivamente do leigo e da leiga, dando ênfase ao Batismo, ou
seja, chamando-os a evidenciar a missão comum de Cristo, da sua
constituição como povo de Deus, santificando o mundo com sua vocação
própria, a modo do sal e do fermento dentro do tecido humano da
sociedade e participa a seu modo da função profética, sacerdotal e real
de Cristo. (Doc 61 CNBB, 11-12).
Como leigos e leigas, saibamos responder ao Seguimento de Jesus e
continuar sua prática no nosso tempo, na realidade em que vivemos.
Marilza Lopes – vice-presidente CNLB
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