"Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é
estranha."*
Por Gilberto Vieira dos Santos - CIMI MT
"Ao governo, às organizações não governamentais e outros interesses
estranhos exigimos que parem de assediar e inculcar nos nossos povos e
comunidades ilusões e propósitos relacionados com o mercado de carbono
que podem comprometer a sua integridade sociocultural, respeitando o
nosso ritmo e a criação de condições para o entendimento desta e outras
questões emergentes, em prol da preservação dos nossos territórios e
suas riquezas, mas principalmente da nossa vida."
O alerta acima encontra-se na conclusão da nota divulgada recentemente
pela APIB, articulação que reúne as principais organizações indígenas do
país.
Algum desavisado poderá pensar: mas por que os indígenas resolveram
divulgar tal nota? O que os teria motivado?
Certamente, a leitura atenta poderá dar mais que pistas do que vem
ocorrendo em várias regiões do país e que, pela gravidade, não passou
despercebido pelas organizações indígenas. Organizações não
governamentais, aparentemente sérias, iludidas ou de má fé tem procurado
comunidades indígenas para que estas ingressem no pomposo mercado para
vender cráditos de carbono. A palavra mercado já dá outra pista do que
se trata: vender algo para ganhar dinheiro sobre esta venda. O que chama
a atenção é o produto, que não é nada menos do que o potencial das
florestas presentes nas terras indígenas de absorver carbono. Loucura,
idéia estranha? Pode parecer, mas esta 'idéia' tem crescido e já
alimenta o mercado financeiro e suas especulações.
A conta que deverá dar nó na cabeça de qualquer um dos "não preparados"
para entender esta lógica, calculará este potencial e esta capacidade
será vendida para alguma empresa para que esta abata em suas emissões de
gás carbônico que a floresta em questão absorever. Debito, menos crédito
de carbono e estaria zerada a conta para que a empresa poluidora na
China, na Alemanha em outro lugar qulquer da Europa ou em outro rincão
poluente ficar tranquila.
Infelizmente, o meio ambiente não reconhece esta conta e os problemas
que tem acentuado cada vez mais o efeito estufa e as mudanças climáticas
continuarão a ocorrer: emissão irresponsável de gás carbônico e outros
gases que nenhuma floresta absorverá. "Nem pagando"!
Argumentos de que nos tais pagamentos de serviços ambientais estariam a
solução para o desmatamento na Amazônia parecem no mínimo anacrônicos,
já que, por esta via, se quer resolver os problemas causados pelo
capital com soluções capitalistas. É como uma mãe que querendo educar
seu filho lhe diz: filho, se você comer mamãe lhe dará um dinheirinho.
se você tomar banho, de pago cinco reais. Ou seja, capitaliza-se as
relações sem por em questão o consumismo e produção dos 'bens de
consumo' que tem gerado os principais problemas ambientais.
Marx deverá estar se revirando no túmulo ao ver até que ponto chegou o
capitalismo: compra e venda do 'ar'.
Então, para poder assegurar a preservação das florestas (por enquanto
estas, depois o cerrado, o pantanal, a soja, o eucalípto nos REDD++), se
paga ao destruidor-poluidor para que ele fique bonzinho e não desmate ou
polua mais. Não sei se falta formação sobre o processo de constituição
de nossa sociedade ou há inocência (??) nesta visão. Será que Leo
Huberman, Marx, Engel, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes estavam
neuróticos?
Por outro lado, para além de qualquer argumento, alguns e com certeza
para as grandes empresas e especuladores, esta forma de "preservação" é
a nova mina vultuosa, o novo 'eldorado'. Quanto vale hoje hoje estes
créditos? Quanto se negocia nas bolsas de valores pelo mundo afora?
Para uma idéia, em abril se apontava para uma perspectiva de que em 2010
a venda de créditos geraria mais de US$ 170 milhões (cento e setenta
milhões de dólares). Em cotação de hoje, para se ter uma idéia, isso
seria mais de 292 milhões de reais. Em 2009 se negociou mais de 120
milhões de dólares e estima-se para 2020 que este mercado movimente mais
de US$ 3 trilhões (três trilhões de dólares) no mundo, sendo que no
Brasil se movimentaria US$ 6 bilhões (seis bilhões de dólares). Em
outras palavras, é uma especulação extremamente rentosa.
E como se dá a inserção dos povos indígenas nesta história?
Simples, as terras indígenas são as mais preservadas e onde as florestas
(e claro, o serrado ou outros bioma) são mais preservados. É só ver, por
exemplo, como está a situação de Mato Grosso e Pará onde as terras
indígenas são verdadeiras ilhas cercadas pelo desmatamento para os
monocultivos de soja, algodão e outros comodittes. Não por outro motivo
os olhos dos interessados nesta 'mina' se voltam para os povos
indígenas, ou melhor, para suas terras.
Além dos riscos que este processo trás, como ficarão os já reduzidos
territórios indígenas já que a área escolhida para contar como potencial
para se receber os tais créditos não poderá ser alterada? Como ficarão
as comunidades que quizerem fazer suas roças, retirar madeiras para suas
casas ou outros usos tradicionais? Passarão a comprar madeira, telhas,
tijolos ou alimentos nas cidades e continuarão a se abrir aos malefícios
já comprovados em recente pesquisa sobre a alimentação nas aldeias?
Passarão a comer no lugar dos produtos saudáveis de suas roças a
batatinha, tomate ou a carne bovina? Trocarão suas caças pelo frango da
Sadia ou Perdigão? Trocarão seus bejus pelas
deliciosas
bolachas recheadas com gostos imitação de mandioca? Trocarão
definitivamente sua chicha ou cauim pelo venenos gasoso da Coca Cola ou
outras
bombas
de açucar?
Ainda ficam as perguntas: Quem fará o complicado cálculo para se saber
quanto aquela mata absorve o tal carbono? Quem fará a assessoria aos
povos indígenas? Por quanto tempo? Quanto receberá por isso? Quem de
fato ganha com este mercado?
Questões como esta podem ter passado pela cabeça dos que compõe as
organizações indígenas da APIB.
Se ainda hoje mais de oitenta grupos indígenas sobrevivem no Brasil
recusando os facões e panelas oferecidos pelas anteriores frentes de
contato - pois certamente sabem que estarão mais felizes sem a sociedade
não-indígena - outros povos indígenas se negam a aceitar os
pinduricalhos que vem anexados às novas tentaivas de
colonialismo verde
e a mercantilização do que não tem valor de mercado.
O que se espera é que o etnocentrismo e o centralismo eumesmado de
algumas pessoas e organizações não lhes tampe os ouvidos aos apelos
daqules que, antes de ser preservadores da natureza, se entendem como
parte dela.
Com as organizações da APIB dizemos: 'Portanto
recusamos o olhar mercantilista com que mais uma vez agentes externos,
nacionais ou internacionais, se aproximam de nossos territórios e povos,
incentivando-os a se envolver em potenciais negócios milionários, sem
antes entender a complexidade das mudanças climáticas, além de seus
efeitos ou impactos, considerando a história e o contexto da atual
crise, que não é só climática, mas também econômica, energética,
ambiental, social e de valores.'
* Fragmento da carta do Cacique Seatlle
NOTA PÚBLICA
SOBRE A MUDANÇA CLIMÁTICA, O GOVERNO BRASILEIRO
E OS POVOS INDÍGENAS
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), considerando a
contribuição milenar dos nossos povos proteção e preservação da Mãe
Terra, da biodiversidade, de milhares de espécies animais e vegetais,
das reservas de água doce, de plantas medicinais e no enfrentamento das
mudanças climáticas, entre outros feitos, rechaça a visão reducionista
que vê em nossos territórios apenas depósitos de carbono, potencialmente
lucrativos, nem sempre para as nossas comunidades. As nossas terras são
o nosso lar, a base de sustentação da nossa identidade e cultura e da
nossa convivência com outros seres vivos e demais elementos da Natureza.
Por tanto recusamos o olhar mercantilista com que mais uma vez agentes
externos, nacionais ou internacionais, se aproximam de nossos
territórios e povos, incentivando-os a se envolver em potenciais
negócios milionários, sem antes entender a complexidade das mudanças
climáticas, além de seus efeitos ou impactos, considerando a história e
o contexto da atual crise, que não é só climática, mas também econômica,
energética, ambiental, social e de valores.
Daí que os governos dos países ricos, e agora aderidos pelos países
ditos emergentes, dentre eles o Brasil, estão mais preocupados em
recuperar o seu poderio, no controle ou repartição do mundo, ao invés de
consertar o estrago que vem causando ao meio ambiente como conseqüência
do modelo econômico que adotaram: poluidor, de extrativismo industrial e
depredador, responsável pela atual catástrofe de inundações, secas,
processos de desertificação, degelos, desaparecimento de espécies e
ecossistemas, chuva ácida, poluição urbana, águas contaminadas, doenças,
conflitos sociais, deslocamento populacional, empobrecimento, depredação
de recursos naturais, descaracterização sociocultural e riscos de
dizimação de povos, enfim, de atentados contra a vida do planeta e da
humanidade.
Por isso, antes de pensar na transferência de recursos para os países
pobres ou na discussão e implementação de mecanismos de compra de
crédito de carbono, a preocupação dos governos deve ser assumir metas
concretas necessárias para a efetiva e comprovada redução de gases de
efeito estufa nos seus respectivos países.
A contribuição dos povos indígenas no enfrentamento da mudança climática
e na preservação da biodiversidade e dos recursos naturais nos diversos
biomas não é de agora, e isso tem que ser reconhecido e valorizado pelo
Governo e o povo brasileiro. Por isso é fundamental que se conclua a
demarcação das terras indígenas e se garanta a sua proteção perante as
distintas formas de invasão: empreendimentos madeireiros,
latifundiários, agroexportadores, garimpo e pesca ilegal, empresas de
mineração e grandes empreendimentos de infra-estrutura.
O Governo brasileiro deve também respeitar rigorosamente ás normas
nacionais e internacionais que asseguram o direito dos povos indígenas à
consulta livre, prévia e informada, assegurada principalmente nos
artigos 6º e 7º da Convenção 169 da Organização Internacional do
Trabalho (OIT) e na Declaração da ONU sobre os direitos dos povos
indígenas.
Nessas condições, não basta pretender mostrar ao mundo, no marco das
negociações sobre a Convenção do clima, que a sociedade civil é
consultada, porque até o momento essa participação se deu de maneira
informal, limitada e praticamente sem a participaçao dos povos e
organizações indígenas.
Para a APIB, está mais do que claro que não cabe somente ao governo, e
muito menos a setores empresariais, organizações não governamentais e
até indivíduos oportunistas, definir o destino e a participação dos
povos indígenas em quaisquer medidas ou ações que afete os seus
interesses.
Até o momento, o Governo brasileiro possibilitou processos de consulta
em questões como o Estatuto dos Povos Indígenas e a Política Nacional de
Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indígenas (PNGATI). Por que
então não envolver os povos indígenas na discussão da questão climática,
dos serviços ambientais e inclusive dos mecanismos de Redução de
emissões por desmatamento e degradação (REDD), mesmo para fins de
esclarecimento sobre o assunto e para saber se os povos e comunidades
indígenas estão ou não interessados em participar desta nova promessa de
“bem-estar” e “futuro promissor”?
A APIB alerta sobre os riscos de quaisquer iniciativas que ao invés de
levar melhorias podem prejudicar a integridade sociocultural,
territorial e ambiental das terras e povos indígenas.
Como em outras ocasiões, a APIB reitera o seu entendimento a respeito
das políticas públicas voltadas aos povos indígenas, no sentido de que a
participação dos povos indígenas deve ser garantida na sua formulação,
implementação e avaliação, através do diálogo institucionalizado e
formal. E as políticas, programas e projetos devem se pautar pela
transversalidade e a articulação interna para assegurar a sua gestão e
aplicabilidade eficiente, atingindo os seus objetivos mas sobretudo os
interesses e as aspirações dos seus destinatários. Essa unidade de ação
necessariamente requer de uma visão e comportamento articulado dos
distintos órgãos de governo envolvidos com a questão indígena.
Dessa forma a APIB espera que o Governo brasileiro assegure processo
qualificado de consulta aos povos indígenas, para não omitir a sua
participação e contribuição na elaboração do Plano Nacional de Mudança
Climática, sem esquecer que esta questão não pode ser tratada de forma
isolada, mas sim no contexto da PNGATI, cujos objetivos já tratam dos
serviços ambientais oferecidos pelos povos e terras indígenas, além de
muitas outras demandas e propósitos relacionados com a gestão
territorial e ambiental dessas terras.
Ao governo, às organizações não governamentais e outros interesses
estranhos exigimos que parem de assediar e inculcar nos nossos povos e
comunidades ilusões e propósitos relacionados com o mercado de carbono
que podem comprometer a sua integridade sociocultural, respeitando o
nosso ritmo e a criação de condições para o entendimento desta e outras
questões emergentes, em prol da preservação dos nossos territórios e
suas riquezas, mas principalmente da nossa vida.
Brasília, 09 de novembro de 2010.
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