Fitoterapia não é charlatanismo; é ciência das ervas

 

Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e Justiça

 

A fitoterapia é o estudo das plantas medicinais e os efeitos que elas têm no tratamento contra enfermidades físicas e psíquicas.

Apesar de parte da medicina ortodoxa já se empenhar nesse campo, ainda há forte resistência, no meio tradicional, aos tratamentos à base de medicamentos fitoterápicos.

Na cultura popular, no entanto, há séculos, as ervas são usadas contra todo tipo de enfermidade.

Conhecimento popular

A vizinha do agricultor Genadir Vieira Santos, 44 anos, de Várzea Grande, indicou a ele um chá de múltiplas ervas para baixar o colesterol. “Eu sentia muita tonteira e mal estar. Agora estou bom”, afirma ele. Dona Pascoalina também indicou a Genadir colocar argila na cabeça contra labirintite. Segundo ele, também funcionou.

Já a fotógrafa Nilce Guirado, 49 anos, perdeu um filho e entrou em profunda depressão. Tentou melhorar, tomando chá de camomila, passiflora e afins. Mas não conseguia reagir. “Tinha desmaios, não dormia, meu quadro era muito grave. Busquei calmantes alopáticos, mas até hoje não me sinto bem. Só por Jesus”, diz ela, sobre seu estado de saúde. A família dela, no entanto, não deixou de crer nos fitoterápicos. “Minha filha, quando teve bebê, tomou chá de folha de algodão contra uma infecção uterina. Ela melhorou totalmente”. Quem indicou? A vizinha.

Conhecimento científico

Para além dos vizinhos gentis e sábios, há amplo estudo científico sobre o efeito das ervas. E, para além dos depoimentos – alguns exaltando a fitoterapia e outros negando – há que se levar em conta a complexidade dos processos de adoecimento e cura.

Afinal, o que é a doença?

O psicólogo Jair José Schuh, que também é teólogo, filósofo e especialista em Educação de Adultos, informa que “a maioria das correntes da Psicologia entendem que todas as doenças se desencadeiam por alguma questão psicológica e, portanto, o psiquismo está envolvido com qualquer doença e, em consequência, com qualquer cura”. Nesse sentido, havendo um entendimento das razões que levaram à enfermidade qualquer medicamento, seja alopático, homeopático, fitoterápico e até placebos (medicamentos sem efeito, usados em testes de eficiência) pode promover a cura. Do contrário, mesmo medicamentos com eficiência reconhecida historicamente, como antibióticos, por exemplo, podem falhar.

 

Saúde pública adotou

Buscando a história do uso de ervas no ataque a doenças de todo tipo, volta-se à China,  3.000 a.C., quando era comum o uso de Ginseng e da Cânfora.

Com base em estudos científicos e em repeito à cultura popular da humanidade, a saúde pública em todo o Brasil vem adotando fitoterápicos, como alimento, a serem usados paralelamente a tratamentos alopáticos, ou seja, à base de medicamentos químicos. E mais: tem ido na lógica de ensinar as famílias, para que reaprendam essa forma de buscar a saúde e a melhor qualidade de vida. Afinal, algumas ervas são consideradas preventivas.

A Prefeitura de Cuiabá já está em processo de licitação para instalar um viveiro central, como informa a farmacêutica especialista em Saúde Pública com ênfase em Programa Saúde da Família (PSF), Sandra Mara de Araújo, coordenadora de Assistência Farmacêutica da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). E também implantar duas farmácias vivas em duas unidades do PSF, na periferia da capital.

Na verdade essa iniciativa está inserida no Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. “Essa não é a primeira vez que tentamos implementar esse projeto em Cuiabá”, explica Sandra. “Tivemos plantio de ervas em várias unidades, mas houve um recesso, por falta de manutenção. Não é tão simples assim manter uma horta de ervas. Exige cuidados. Agora estamos retomando em parceria com a UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), para não acontecer esses problemas de novo”.

Enquanto isso, em todas as unidades do PSF, nove ervas estão sendo indicadas pelos próprios médicos, seguindo a portaria 2982 de 26 de novembro de 2009 (Leia a portaria aqui).

São elas:

espinheira santa (úlcera e afins), guaco (expectorante), alcachofra (adisfunções hepatobiliares), aroeira (ginecologia-anti-infeccioso), cáscara sagrada (constipação), garra do diabo (antinflamatório), isoflavona da soja (alívio de sintomas do climatério) e unha de gato (contra artrite reumatoide).

Resistência

No bairro Novo Paraíso II, o Centro de Biosaúde oferece tratamento à base de ervas e argila. Além da urinoterapia, tratamento à base de urina. Conforme o padre Renato Barth, que administra o centro ligado à Associação Brasileira de Saúde Popular, todos os pacientes atendidos  têm resultados positivos. Ele afirma que uns ficam mais satisfeitos, outros menos. “Pessoas com doenças graves, como câncer e AIDS, por exemplo, que chegam aqui muito judiadas, vão ter uma melhora significativa, mas o corpo pode já não dar conta de reagir até a cura”. A esses, muitas vezes a orientação é para tomar toda a urina que sair até a hora do almoço.

Padre Renato afirma que o paciente é conscientizado sobre o que seja a busca da cura. Destaca que o tratamento que faz tem notícias em tempos a.C, no Japão e na Índia e tais práticas foram registradas em vários pontos do mundo, inclusive em dias atuais. (Lei mais sobre o Biosaúde aqui).

O Conselho Regional de Medicina (CRM) é contra essas práticas as trata como charlatanismo. “A gente vê isso com muita preocupação”, alerta o presidente do CRM-MT, Arlan Azevedo. Muita gente deixa o tratamento oficial, para, segundo ele, se aventurar em métodos que não são cientificamente comprovados.

Dentro desse entendimento, o médico Dráuzio Varela, de renome nacional e faz reportagens para o Fantástico, programa de grande alcance da Rede Globo, condenou o Biosaúde, expondo o padre Renato como charlatão. E criticando também o uso de fitoterápicos nas unidades de saúde.

Mediante a repercussão do caso, o CRM processou padre Renato, e ele já está intimado a comparecer, no próximo dia 25 de novembro, às 10h, no Juizado Especial (Avenida Getúlio Vargas, 450).

Para Sandra Mara de Araújo, essa resistência aos fitoterápicos, imposta pela medicina tradicional, não se sustenta numa cultura, como a nossa, onde é muito forte a sabedoria popular, vinda da influência indígena, ribeirinha, cabocla e negra.

Movimento de apoio

Em apoio ao padre Renato Barth, movimentos sociais estão assinando manifesto abaixo.

 

 

MANIFESTO EM DEFESA DAS PRÁTICAS TRADICIONAIS, INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES DE SAÚDE, DA FITOTERAPIA, DA HOMEOPATIA, DO USO DE PLANTAS MEDICINAIS E DA VALORIZAÇÃO DO SABER POPULAR EM SAÚDE.

 

Considerando que a Constituição de 1988 consagrou o direito à saúde como um dos direitos fundamentais de todos os cidadãos, com o entendimento de que a assistência à saúde deve ser integral e, por isso, deve ser vista como o resultado de um conjunto de condições sociais, culturais e econômicas cuja promoção exige a implementação de ações pautadas em relações transdisciplinares e humanizantes, garantidas por políticas públicas universais voltadas aos interesses da maioria da população brasileira.

Considerando que o Brasil é signatário de acordos internacionais da OMS, cujo teor está em consonância com a Constituição Brasileira de 1988, e que, sem exceção, garantem o direito às etnomedicinas e às práticas populares e tradicionais, o direito das pessoas e comunidades escolherem as terapias que lhes são significativas e os seus respectivos e legítimos agentes terapêuticos.

Considerando que, no Brasil, as plantas medicinais são utilizadas pela população nos seus cuidados com a saúde, em diferentes formas e lógicas, há centenas de anos.

Considerando os interesses econômicos que desejam desacreditar o saber popular em fitoterapia e destruir os valores culturais e etnomédicos das plantas medicinais, com o intuito de apropriar-se do patrimônio genético e da biodiversidade das plantas e matas brasileiras.

Considerando as reportagens tendenciosas sobre o uso de plantas medicinais, práticas populares de prevenção da saúde e fitoterapia veiculadas na mídia brasileira, de forma equivocada e parcial, difamando, especialmente, profissionais e instituições que utilizam responsavelmente as práticas complementares e integrativas de saúde.

Considerando a pretensão do Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso de monopolizar o saber e a prática terapêutica no cuidado da saúde da população, menosprezando o saber milenar da medicina popular, indígena, quilombola, entre outros povos e comunidades tradicionais, transmitido oralmente entre as gerações.

Considerando que as práticas terapêuticas tais como a acupuntura, a homeopatia, a medicina antroposófica, a fitoterapia, as práticas corporais, são práticas complementares e integrativas aos mais diversos tipos de tratamento e podem ser ofertados ao ser humano, conforme Portaria GM/MS no 971/2006, que reconhece a legitimidade das práticas terapêuticas integrativas e complementares.

Considerando a instauração de inquérito policial requerido pelo Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso, neste ato representado pelo seu Conselheiro Presidente, o senhor Arlan de Azevedo Ferreira, em desfavor do padre Renato Roque Barth, acusado de práticas terapêuticas “exclusivas” de profissionais médicos.

Considerando as precárias condições de saúde a que está submetida a população, agravada por descasos e erros médicos denunciados pela Associação de Vítimas de Erros Médicos (AVEM/MT)

Considerando que a Instituição Bio-Saúde, representada pelo padre Renato Roque Barth, realiza práticas terapêuticas de acordo com as normas da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, Portaria GM/MS no 971/2006.

Nós, instituições e pessoas signatárias desse manifesto, apresentamos nosso apoio às práticas tradicionais de saúde, às práticas integrativas e complementares, ao uso das plantas medicinais e à valorização do saber tradicional e popular em saúde.

Apoiamos a promoção e o reconhecimento das práticas populares de uso de plantas medicinais e remédios caseiros.

Apoiamos o direito de escolha da comunidade em relação às opções de tratamento e aos cuidados à sua saúde, bem intransferível e inalienável do ser humano.

Apoiamos os profissionais, os cidadãos e instituições populares, que utilizam plantas medicinais de forma tradicional há décadas, e cujas famílias usam-nas há séculos, resgatando o seu direito de defender sua cultura, sua tradição e os seus saberes contra os abusos de interesses econômicos.

Apoiamos e reconhecemos como valiosa a prática terapêutica e fitoterápica realizada pelo padre Renato Roque Barth realizada de acordo com as normas da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, Portaria GM/MS no 971/2006.

Apoiamos a efetiva implementação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS.

Somos contra a aprovação do Projeto de Lei nº 7.703/2006 (PLS 268/2002) conhecido como Ato Médico, nos moldes como tramita no Congresso Nacional, pois fere os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) e constitui-se em um retrocesso ao modelo de saúde multiprofissional e interdisciplinar, que pressupõe outras racionalidades e paradigmas médicos. Ou seja, este projeto pretende tornar privativos da classe médica todos os procedimentos de diagnósticos sobre doenças, indicação de tratamento, realização de procedimentos invasivos e a possibilidade de atestar as condições de saúde, o que desconsidera a trajetória das demais profissões. Ao tornar privativa dos médicos a chefia de serviços de saúde, indica uma hierarquização contrária ao trabalho multiprofissional que o SUS prevê nos atendimentos.

 

Subscrevem esse manifesto:

Centro Burnier Fé e Justiça

Centro Jesuíta de Cidadania e Ação Social

Grupo pesquisador em educação ambiental - ufmt

Prof. Dr. Heitor Queiroz de Medeiros – REMTEA

Movimento Sem Terra – MST

Associação Brasileira de Saúde Popular – ABRASP

Bio Saúde

Associação Brasileira de Homeopatia Popular – ABHP – Edna Fernandes do Amaral

Centro de Direitos Humanos Henrique Trindade - CDHHT

Conferencia dos Religiosos do Brasil – CRB/MT

Associação de Escolas Católicas – AEC/MT

Paróquia Divino Espírito Santo

Paróquia Nossa Senhora do Rosário e São Benedito

Centro Pastoral para Migrantes

Fundação Fé e Alegria – Jeíz Nelha

Centro de Estudos Bíblicos do Mato Grosso

Comissão Pastoral da Terra – CPT/MT

Conselho indigenista missionário – CIMI/MT

Fórum Matogrossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento - FORMAD

Vicente José Puhl - Mestre em Educação Pública e Meio Ambiente

Pr. Teobaldo Witter

Luis Augusto Passos

Ir. Anete Albina Pedó

Eva Alves Santos

Luzifran Alves Santos

Rosa Maria Vieira

Rosa Maria Werner

Frei Nedio Pertile

Pe. José Cobo Fernandes

Pe. João Inácio Wenzel, SJ

Ademir Mantovani

Luiz Antonio Ferreira da Silva

Lúcia de Lourdes Gonçalves - professora/vereadora PT/Cáceres

Lilian Kuschi

Maria Auxiliadora Vaz da Cunha

Arlene Monteiro Klein

Maria Benedita Lobo

 



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