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MÍDIA – Entrevistando crianças em bairros de periferia
*Por Gibran Lachowski
Parece óbvio ou irônico, mas esta não é a intenção. Sabemos da
relutância da mídia comercial em inserir na agenda diária discussões de
cunho social e reflexivo e também temos noção de que pequenas
iniciativas isoladas não surtem efeitos estruturais.
No entanto, como diz o jornalista Renato Rovai, muitos marimbondos
persistentes derrubam imensos rinocerontes. É uma metáfora que o
profissional utiliza para explicar como pequenos veículos midiáticos,
sobretudo os blogs, podem abalar a predominância do oligopólio da
comunicação.
Não que o humilde site da Caravana Nagô tenha a intenção de desbancar a
TV Cidade (Record, canal 10), o jornal “A Tribuna”, a Rádio Clube AM,
todos de Rondonópolis\MT.
Menciona-se a existência dessa experiência comunicativa como forma de
expressar o quanto é importante produzir informação com lastro na
realidade física, sobremaneira em meio à periferia e com fins de
retrato, discussão e transformação sociais.
A produção de textos e fotos foi feita por estudantes de Jornalismo e
teve orientação de um professor, que discutia enfoques de pautas, tipos
de perguntas a entrevistados, ângulos para fotografias e, por fim,
editava o material coletado, pondo título, selecionando imagens e tudo o
mais.
Riqueza
Experiência rica porque se tornou com o passar dos dias um exercício de
sensibilidade. De 14 a 19 de novembro (até onde estive na edição) foram
visitadas seis comunidades localizadas na periferia da cidade, como
Jardim Iguaçu, Jardim Liberdade e Vila Rica. Ficou nítido, literalmente
pelo olhar, que a maioria das pessoas presentes era negra. O evento foi
finalizado no dia 20 (sábado), Dia Nacional da Consciência Negra.
Como o público central da Caravana foram estudantes de primário (e
também secundário) houve condições de “se especializar” em entrevistar
crianças. Pode parecer besteira, mas não é fácil.
Como perguntar a um menino de sete anos sobre o evento que ele está
acompanhando? Será uma resposta previsível? Como dialogar com a alma de
quem está falando? Ou será que criança diz a mesma coisa sempre (“Achei
legal”; “É”; “Ahã”)?
Confesso que tive dificuldade para entrevistar a garotada. Fazendo uma
autocrítica, faltou-me sensibilidade para saber perguntar, algo que
sobrou – pelos textos que editei – às estudantes que “estagiaram” na
cobertura da Caravana.
Contato real
Estar em escolas municipais situadas em bairros pobres e em quadras de
instituições religiosas voltadas a comunidades de baixa renda também foi
proveitoso. Serviu para enxergar como algo normal aos olhos de uma
parcela considerável da população – entre ela a de boa parte dos
jornalistas ou estudantes de jornalismo – pode parecer mágico a meninos
e meninas, pais e mães que têm poucas opções de diversão e trocas
culturais.
A programação se constituiu de oficinas de tranças afro e percussão,
apresentações de rap, free step, dança de rua e capoeira e exposição de
livros e revistas a respeito da luta contra o preconceito. Resultado:
criançada inventando passos, folheando obras, enrolando os cabelos, se
mexendo de lá para cá (mais do que o costumeiro).
Essa noção de ritmo e poesia – parodiando o significado da sigla “rap” –
foi possível de ser apreendida por um tópico fundamental já exposto: a
vivência física da realidade. Se a produção comunicativa se desse
unicamente ou principalmente pelas redes sociais virtuais ou algo
parecido, a compreensão do ocorrido teria sido diferente, distante,
superficial. Talvez se pensasse assim: “Essa criançada sempre diz a
mesma coisa!”.
*Jornalista em Mato Grosso, professor e coordenador do curso de
Comunicação Social da Faculdade Cenecista de Rondonópolis (FACER)
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