Lições para matar o professor

 

Por Andrea Portela*

 

A escola há muito é espaço de violência: ajoelhar no milho ou entregar a mão à palmatória. No entanto, os muros escolares são frágeis, não as isolam da sociedade em geral.  A violência nas escolas é resultado de uma sociedade violenta.

 A escola é representação capitalística. Desde sua estrutura com base na prisão, em modelo panóptico de controle, onde a “grade” curricular prende seus delinqüentes, avaliados em troca de notas (representantes do dinheiro), comprometidos com disciplinas (importantes ao militarismo e ao fascismo). Altamente competitiva (geradora de diferenças e preconceitos), e consumista, onde quem acumula mais notas é superior.

No entanto, esta fórmula falida não sustenta a ânsia pela construção de um mundo que permita fazermos escolhas. Não cabe mais este modelo de escola onde só se aprende a crescer e a ser útil ao capitalismo. É assim que assistimos a todas as mazelas sociais entrarem, na escola, pela porta da frente: tráfico de drogas, roubo, bullying, agressões e até assassinatos. Lições que se aprende em casa para matar o professor. Se a frase lhe pareceu forte é que talvez a situação deste profissional ainda não esteja clara diante da opinião pública.

No Brasil e no mundo cresce o número de professores violentados. Outras violências podem estar por trás da situação se lembrarmos que a maioria dos professores são mulheres e oriundas de classes menos favorecidas. Os cursos de licenciatura são cada vez menos procurados e já faltam professores em várias especialidades. Muitos abandonam as salas de aula por falta de perspectivas ou doentes, como resultado das condições de trabalho. Grande parte da desistência se dá logo no início da carreira, se sentem despreparados diante das exigências que, na verdade, extrapolam as funções que deveriam desempenhar. Além dos baixos salários, sempre lembrados em períodos de eleições, é ao professor lançado todo o peso da palavra educação. Haja tempo pra ensinar também bons modos, respeito e ainda dar conta do conteúdo. Quanto aos pais, ausentes por um motivo ou outro, deixam que os filhos tudo aprendam na escola, pois lá é o lugar de se adquirir “conhecimento”. O tempo extra é passado diante da TV, aonde a violência é banalizada.

Não são câmeras ou policiais armados nos portões de escolas que combaterão o problema. Os pais fazem SIM a diferença. Assim como eu e você, e muitos profissionais que desejam muito ensinar e trabalhar dignamente. Vamos dividir as responsabilidades entre todos num esforço coletivo para assinarmos um compromisso pela paz. Vamos nos posicionar contra a violência.

Os pais, atentos ao aprendizado de seus filhos, dialogando e abraçando sua criança, que amada e respeitada saberá também como respeitar a todos de seu convívio.

A escola, ambiente de aprendizado e humanismo, deve estar aberta para também abraçar os alunos. Dialogar e trabalhar em equipe com seus profissionais, alunos e familiares, dividindo responsabilidades e multiplicando soluções.

O poder público não pode mais se esquivar. E ainda não ouvi nenhuma autoridade se pronunciar a favor de um único professor ensangüentado. As eleições já passaram por ai, mas os discursos se mantiveram alheios à realidade.

Sejamos todos nós a favor da não extinção deste profissional, que afinal, não trabalha por satisfação financeira (diante das folhas de pagamento alguém duvida?); querem sim, com a carga de romantismo que restar a alguém, trabalhar para ajudar a formar cidadãos.

 

* Andrea Portela é pedagoga, design de moda e pesquisadora do Núcleo de Estudos do Contemporâneo (CNPq/UFMT). É mestranda em estudos de cultura contemporânea e atua como figurinista.










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