Direitos Humanos no plano de governo

 

Por Teobaldo Witter*

 

O poder executivo do Estado de Mato Grosso está na fase de discussão e organização de sua nova equipe, no Governo Sinval Barbosa. A articulação tem em vista o preenchido de cargos de Secretarias, subsecretarias, presidentes de autarquias etc. Basicamente, a discussão se dá em torno do preenchimento de cargos e definições de funções administrativas no Poder Executivo. Discute-se, também, o espaço dos direitos humanos no novo governo, a partir de 2011. A reflexão quer contribuir no debate sobre o tema. Quero lembrar que a sociedade matogrossense há tempos vem tratando do assunto direitos humanos. Por isso, busco no baú de nossa memória algumas referências.

Dia 10 de dezembro de 1948, foi aprovada e assinada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Assembléia da ONU, em Paris. Por isso, esta data é considerada como o dia dos Direitos Humanos. O contexto, na época, foi o da superação do conflito étnico que provocou milhões de mortes, estupros e perseguições, de todos os lados. A humanidade estava diante do desafio da reconstrução da vida e do convívio, após a 1ª e a 2ª guerras mundiais. A Assembléia da ONU entendeu que a declaração, em seus 30 artigos, poderia ser um instrumento importante na reconstrução das nações e das relações entre os povos. Com base na dignidade humana, ela impulsionou aprovações de constituições dos povos, inclusive a Constituição Brasileira de 1988, e a criação de organismos para a mediação de conflitos e solução pacífica das divergências. Nunca, na história da humanidade, se distribuiu tantos direitos entre as populações, como o foi após 1948, em muitos países. Outros países ainda patinam nas desigualdades sociais, como o caso do nosso país. Neste, repete-se o slogan discriminatório que diz: “direitos humanos é só para bandidos”.

Há mais de 30 anos, em praticamente todas as minhas entrevistas nos meios de comunicação ou nas palestras, cursos, seminários e oficinas, duas perguntas me são formuladas: o que são direitos humanos? E a outra vem logo junto: direitos humanos não são para vítimas, mas para bandidos? As duas questões são sintomas das problemáticas em relação ao tema. Há pouca informação sobre o que são os direitos humanos. O povo, de modo geral, possui pouca informação sobre o referido assunto. E há muita informação que é repassada de forma confusa, como se falar em direitos humanos fosse algo proibido, perigoso. Coisa de quem não teria o que fazer e só defende criminosos. Esta compreensão sobre direitos humanos é equivocada e prejudica a organização do estado social de direitos.Durante comunicação oral, no Seminário de Educação, na UFMT, no SEMIEDU 2009, apresentei o tema do código de ética fundamentado na ética do dever, segundo a teoria do filósofo Emanuel Kant. Foi tema na disciplina orientação e ética profissional, na FIVE. Comentávamos que os acadêmicos de pedagogia cresceram e abriram seus horizontes, durante o ano letivo, depois de terem lido e estudo a declaração universal e o direito à educação pública e de qualidade. Perceberam que direitos humanos são diretos de todos. Neste momento, alguém do grupo relatou que alguns mestrandos que vem dos cursos de faculdades de direito são os que mais repetem o slogan: direitos humanos são só para bandidos. Penso que o problema nem seja tanto dos acadêmicos, mas dos cursos que não os ajudam a pensar. A maioria dos cursos de direito repetem os códigos dos direitos positivados como se eles fossem intocáveis, únicos, suficientes. Os códigos positivados tem sua validade, enquanto defendem, protegem e promovem a vida de todos. Mas não são ordens imutáveis, como se fossem divinos.  Os direitos humanos tem alcance maior do que só os códigos, porque articulam-se numa simbiose dos direitos no Estado Social, fundamentados na dignidade humana..

Em Mato Grosso, desde que a história foi registrada, temos conhecimento que houve pessoas que estavam ocupados com os direitos humanos, mesmo antes da aprovação da declaração, pela ONU. Movimento por direitos humanos significativo não veio das faculdades, nem do Estado, mas das igrejas. Já há muito tempo, mas especialmente, a partir de meados da década de 1970, diante da violência e exclusão, padres e pastores, juntamente com comunidades eclesiais e pessoas de boa vontade acolheram vítimas e organizaram resistência em favor da vida e contra a morte provocada pelo estado e por setores da própria sociedade.

Encontrei um registro importante no arquivo da IECLB, em Cuiabá, anotado pelo Pastor Arteno Spellmeier: “A partir de 1979, tivemos várias reuniões ecumênicas em que trocamos idéias sobre iniciativas em diferentes áreas de atuação das igrejas. As comunidades foram se envolvendo mais a nível de encontros de reflexão sobre realidade política, social e fé. A situação de miséria da maior parte da população de Cuiabá foi sendo entendida como afronta contra os direitos humanos, em sua dimensão individual e coletiva. Aí veio a necessidade teológica e pastoral da igreja cristã envolver-se na mudança da realidade”, reflete Spellmeier.

Encontrei um texto, de 1984, escrita por Leonardo Boff, que já esteve várias vezes em Cuiabá.  Ele disse que é dentro da comunidade que as pessoas se unem para lutar por uma vida digna e para defender e promover os direitos humanos, principalmente das pessoas empobrecidas. É na comunidade que se exercita a ligação entre fé e a vida, entre o Evangelho e a libertação. Além da solidariedade interna, a comunidade se abre para exercer diaconia samaritana em relação a pessoas e grupos fora de seu âmbito, nas periferias das cidades e no interior, onde as necessidades são maiores.

No início da década de 1990, um jovem estudante, Rinaldo de Almeida Segundo, hoje membro do Ministério Público Estadual, escreveu: “Jesus ensina que devemos amar nosso próximo como amamos a nós mesmos. Aprendemos que Jesus, em sua época, revolucionou a sociedade em busca de algo melhor para o povo, tanto do ponto de vista da mensagem que conduz a um mundo novo, à vida eterna, plena, mas, também, à uma vida mais humanizada. Ao olharmos o exemplo de Jesus, verificamos que devemos buscar enfaticamente um mundo em que todas as pessoas tenham condições dignas de vida. Lutar, então, pela terra, pão, justiça, segurança, pela igualdade entre homens e mulheres e entre brancos e negros, pelo direito a ter a infância. Estes são, atualmente, exemplos muito bem traduzidos da lição de amar ao próximo como a si mesmo”, afirma Rinaldo.

Estas e muitas outras reflexões foram importantes para a elaboração do Plano Estadual de Direitos Humanos, ainda, em 1998. Na época, ele foi elaborado a partir de um amplo estudo, pesquisa e debate, sendo aprovado na Conferência Estadual de Direitos Humanos, naquele ano. Mas, como sua implantação necessitava que o governo da época o assumisse, o que não aconteceu, o mesmo foi engavetado. Devemos, pelo mesmo, tirá-lo do bau da memória e expô-lo em público para verificar o que é possível considerar na atualidade.   

Faltam muitos passos para que os direitos humanos façam parte do cotidiano de todas as pessoas. Eles ainda não fazem parte da vida da maioria da população. Mas não precisamos mais inventar a roda. Direitos humanos, agora já mais ampliados, estão aí para serem distribuídos. Mas afetividade e razão devem estar juntos.  Afetividade, porque é projeto de vida, de felicidade.  Razão, porque o projeto de vida precisa ser pensado, refletido. Estas duas dimensões legitimam os direitos humanos.

Esperamos que a discussão da equipe de governo e o setor que vai cuidar dos direitos humanos, no estado, saiba ouvir e acolher os anseios da população e colocar em prática a defesa, a promoção e garantia dos direitos amparados na dignidade humana e ambiental.

 

* Teobaldo Witter, Pastor Luterano, Ouvidor do DETRAN MT e professor universitário. E-mail: twitter@terra.com.br

 

 




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