Rezar com os sentidos
Por Arlene Klein*
“É preciso saber ouvir o que
não se ouve.”
“O cheiro do café, de um
feijão na panela, pode significar amor”.
“A palavra de Deus pode ser
saboreada, como saboreamos um gostoso lanche.”
“Um abraço ou um aperto de mão
do companheiro são como uma benção, no começo do dia.”
Estas frases fazem parte de pequenas partilhas, em uma manhã de oração,
no Sítio Beato José de Anchieta, entidade filantrópica, que tem por fim
a recuperação de dependentes químicos.
Começamos a manhã olhando o
céu, árvores, flores e cores. Em seguida,
ouvimos, com atenção,
o sentimento que imperava no coração de cada um, naquela manhã. Uma
pausa, para degustarmos um
gostoso lanche. Após, sentindo o
cheiro de um óleo perfumado, ungimos mãos, testa e coração, uns dos
outros. Por fim, um caloroso
abraço de bom-dia.
Com alegria, saboreamos também a palavra de Vida - Lucas
7, 36-50.
O texto bíblico, rico em detalhes, ensejou, além da leitura orante, uma
contemplação inaciana.
Contemplamos o texto e, com os sentidos aguçados, imaginamos o lugar,
vimos os personagens, escutamos o que diziam, sentimos o cheiro do
perfume ofertado pela mulher, o calor das suas lágrimas, o olhar crítico
de Simão, a compaixão de Jesus para com aquela mulher.
Contemplamos com o coração e com os sentidos, entramos na cena e
descobrimos juntos que os nossos sentidos são tão importantes para o
encontro, para o perdão, para a liberdade do ser humano.
Observamos que...
Jesus vê a desconhecida
mulher, que se joga, por trás, banhando-lhe os pés, cobrindo-os de
beijos e enxugando-os com os cabelos. Ele nada lhe pergunta, mas
consegue escutar os seus
gritos e sentir a dor que
lhe perpassa a alma.
Ele se deixa tocar pela
mulher tida por pecadora, acolhendo a unção ofertada com o perfume de
alabastro.
Ele conhece a mulher pela
sua essência.
Contudo, Simão não vê, não sente, não escuta e não toca, nem Jesus,
tampouco a corajosa mulher, marcada pela exclusão.
Jesus se incomoda com a situação, interrompe a ceia e chama atenção do
fariseu, contando-lhe a parábola de dois devedores, trazendo-lhe
reflexões sobre dividas, perdão e amor. A partir daí, Simão consegue se
ver também como um devedor.
Enfim, exortando o seu anfitrião, JESUS lhe diz:
“Está vendo esta mulher?
Quando entrei em sua casa, você não me ofereceu água para lavar os pés;
ela porém, banhou meus pés com lágrimas e os enxugou com cabelos.
Você não me deu o beijo de saudação; ela, porém, desde que
entrei, não parou de beijar meus pés.
Você não derramou óleo na minha cabeça;
ela, porém, ungiu meus pés com perfume.
Por essa razão, eu declaro a você:
os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque ela
demonstrou muito amor.
Aquele a quem foi perdoado pouco demonstra pouco amor.
(versículos 44-47).
Simão parece ter dificuldades para ver, ouvir, sentir, cear e tocar o
outro. Jesus tem
compaixão de Simão e lhe desperta para os sentidos do bem viver.
Assim, a partir do amor de Jesus, Simão começa a se enxergar
melhor, a ver a mulher, ver
“o outro”.
No entanto, os gestos de amor da mulher e a sua fé ensejam o perdão e a
paz (v. 50).
Santo Inácio nos ensinou a rezar assim...
Nos Exercícios Espirituais, ele nos convida a contemplar o texto
bíblico, usando os nossos cinco sentidos na oração (ver, ouvir, cheirar,
saborear e tocar), mergulhando na cena, nos identificando com os
personagens, integrando todo nosso ser naquele momento amoroso de
encontro com o Senhor.
Para ele, “não
é o muito saber que sacia e satisfaz alma, mas o sentir e o saborear as
coisas internamente” (EE 2).
Como bem expressa Maria Clara Lucchetti Bingemer, doutora em teologia e
colaboradora da Revista Itaici, Revista de Espiritualidade Inaciana,
“o corpo não permanece
fora da oração, mas ao contrário, nela entra de cheio e em permanência.
É o sentir do corpo que vai determinar a posição e o lugar onde a
oração deverá dar-se, para dar mais fruto e encontrar mais plenamente a
vontade do Senhor e sua consolação.”
(A Aplicação de Sentidos:
Assimilar o Mistério da Encarnação -
Revista Itaici 81)
* Arlene Monteiro Klein advogada, faz parte da Equipe de Espiritualidade
do Centro Burnier.
E-mail: arleneklein@terra.com.br
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