A imprensa e as igrejas na eleição 2010
Por Antonio Carlos Ribeiro
Num debate no Sindicato dos Jornalistas do Rio, perguntaram aos
assessores dos candidatos à presidência, o que fariam se tivessem uma
informação e a orientação de não repassá-la à imprensa. Kostcho disse
que conhecia Lula desde as greves do ABC e tinha liberdade para assumir:
“Se você tem uma informação que a imprensa não pode saber, não me conte,
porque eu sou a imprensa”. Isso parece tê-lo acompanhado até a chegada
de Lula ao Planalto, como assessor. E depois que deixou a função.
Isso lhe deu autoridade para afirmar, antes do pleito, independente de
quem vencesse já se sabia quem “foram os grandes derrotados desta
inacreditável campanha eleitoral de 2010: a imprensa da velha mídia,
mais engajada e sem pudor do que nunca, e as igrejas em geral, com
amplos setores medievais de evangélicos e católicos transformando
templos em palanques e colocando a religião a soldo da política”, sem
dúvidas.
Jovem há mais tempo que este redator, atestou que foram “as mesmas
instituições que se uniram em 1964 para derrubar o governo de João
Goulart e jogar o Brasil nas profundezas da ditadura militar por mais de
duas décadas”. Lembrou até dos “celerados e ensandecidos combatentes das
redações e dos púlpitos”, das ênfases do “perigo vermelho” e da
“degradação dos costumes”, chegando a dizer que “só faltou uma nova
‘Marcha da Família, com Deus pela Liberdade’”, aterrorizou.
Houve matérias de jornais, capas de revistas e chamadas em telejornais
que empurraram o público a outros veículos. “Nem parece que se passou
quase meio século, que o Brasil lutou e reconquistou a democracia e
vivemos em pleno Estado de Direito, um dos mais longos períodos de
amplas liberdades públicas de nossa história, com crescimento econômico,
distribuição de renda e desenvolvimento social”. Se o crime era o
desrespeito à inteligência, lucraram uma TV, além da pública, algumas
revistas, os jornais e blogs da internet, e a imprensa estrangeira. Até
o conservador francês Le Figaro elogiou os avanços alcançados.
A explicação era tão lógica quanto simples. Ele já era católico quando
dom Paulo Evaristo Arns vendeu o palácio episcopal, viveu num sobrado e
implementou as pastorais sociais, antes que a Arquidiocese de São Paulo
tivesse sido dividida em quatro. E já era jornalista quando a redação da
Folha de S. Paulo era comandada por Cláudio Abramo. Era como comparar o
Éden do relato bíblico à visão da danação eterna, de Dante Alighieri, na
Divina Comédia.
Sem comédia, que exige arte no relato, a situação beirou o dramático, o
bizarro e o grotesco. Por isso, fez sua “constatação com muita tristeza,
com dor na alma, pois a imprensa e a religião católica são importantes
na minha vida desde menino, foram duas instituições fundamentais na
minha formação. Sempre tive muito orgulho de ser jornalista e de
professar a fé católica. Agora, confesso, que muitas vezes sinto
vergonha”, admitiu.
Quem tem a profissão de compreender o cotidiano e relatá-lo ao público
sofre nesses momentos. “Acabei optando muito cedo por outro tipo de
sacerdócio, o jornalismo, profissão na qual comecei com 16 anos,
trabalhando em jornais de bairro de São Paulo. Nunca me arrependi.
Nestes 46 anos de ofício, passei pelas mais diferentes funções, de
repórter a diretor, nas redações de praticamente todas as principais
empresas de comunicação do país”. Mesmo assim se recusava a admitir o
que via, lia e ouvia.
Misto de incredulidade e estupefação, o jornalista disse que “jamais
tinha visto nada parecido na cobertura de uma eleição - tamanhas
baixarias, tantos preconceitos, discursos tão vis e cínicos, textos
inacreditavelmente sórdidos publicados em blogs e colunas - desde os
tempos em que não podíamos votar para prefeito, governador e nem
presidente da República”. E ainda numa experiência profissional rara,
quando “no melhor momento social e econômico da história recente do
país, chegamos ao fundo do poço na política. O Brasil não merecia isso”,
lamentou. O desrespeito foi pior que a derrota.
Talvez, dá a entender o velho repórter, a sociedade suporte esse
comportamento de qualquer setor da sociedade, mas não de quem lhe
anuncia a firmeza do evangelho, e nem dos que lhe relatam o cotidiano,
destacam os avanços e apresentam parâmetros de juízo. Por isso, o tom
escatológico e fatídico. “Órgãos de imprensa e igrejas, jornalistas e
religiosos, têm todo o direito de escolher seus candidatos, fazer
campanhas por eles, detonar os adversários. Só não podem fingir que são
santos e pensar que nós todos somos bobos”, sentenciou. * Antonio Carlos Ribeiro é teólogo luterano, jornalista e professor universitário no Rio de Janeiro (antoniocarlosrib@gmail.com) |