A imprensa e as igrejas na eleição 2010

Por Antonio Carlos Ribeiro*

Conheci Ricardo Kotscho na campanha presidencial de 1989, nos comícios e carreatas, nos livros que humanizavam a profissão – na época em que algumas escolas de comunicação formavam “apresentadores” de TV, locutores de frases prontas e redatores de belas letras e textos sem alma – ao lado daqueles cuja assinatura era garantia de conteúdo e qualidade.

Num debate no Sindicato dos Jornalistas do Rio, perguntaram aos assessores dos candidatos à presidência, o que fariam se tivessem uma informação e a orientação de não repassá-la à imprensa. Kostcho disse que conhecia Lula desde as greves do ABC e tinha liberdade para assumir: “Se você tem uma informação que a imprensa não pode saber, não me conte, porque eu sou a imprensa”. Isso parece tê-lo acompanhado até a chegada de Lula ao Planalto, como assessor. E depois que deixou a função.

Isso lhe deu autoridade para afirmar, antes do pleito, independente de quem vencesse já se sabia quem “foram os grandes derrotados desta inacreditável campanha eleitoral de 2010: a imprensa da velha mídia, mais engajada e sem pudor do que nunca, e as igrejas em geral, com amplos setores medievais de evangélicos e católicos transformando templos em palanques e colocando a religião a soldo da política”, sem dúvidas.

Jovem há mais tempo que este redator, atestou que foram “as mesmas instituições que se uniram em 1964 para derrubar o governo de João Goulart e jogar o Brasil nas profundezas da ditadura militar por mais de duas décadas”. Lembrou até dos “celerados e ensandecidos combatentes das redações e dos púlpitos”, das ênfases do “perigo vermelho” e da “degradação dos costumes”, chegando a dizer que “só faltou uma nova ‘Marcha da Família, com Deus pela Liberdade’”, aterrorizou.

Houve matérias de jornais, capas de revistas e chamadas em telejornais que empurraram o público a outros veículos. “Nem parece que se passou quase meio século, que o Brasil lutou e reconquistou a democracia e vivemos em pleno Estado de Direito, um dos mais longos períodos de amplas liberdades públicas de nossa história, com crescimento econômico, distribuição de renda e desenvolvimento social”. Se o crime era o desrespeito à inteligência, lucraram uma TV, além da pública, algumas revistas, os jornais e blogs da internet, e a imprensa estrangeira. Até o conservador francês Le Figaro elogiou os avanços alcançados.

A explicação era tão lógica quanto simples. Ele já era católico quando dom Paulo Evaristo Arns vendeu o palácio episcopal, viveu num sobrado e implementou as pastorais sociais, antes que a Arquidiocese de São Paulo tivesse sido dividida em quatro. E já era jornalista quando a redação da Folha de S. Paulo era comandada por Cláudio Abramo. Era como comparar o Éden do relato bíblico à visão da danação eterna, de Dante Alighieri, na Divina Comédia.

Sem comédia, que exige arte no relato, a situação beirou o dramático, o bizarro e o grotesco. Por isso, fez sua “constatação com muita tristeza, com dor na alma, pois a imprensa e a religião católica são importantes na minha vida desde menino, foram duas instituições fundamentais na minha formação. Sempre tive muito orgulho de ser jornalista e de professar a fé católica. Agora, confesso, que muitas vezes sinto vergonha”, admitiu.

Quem tem a profissão de compreender o cotidiano e relatá-lo ao público sofre nesses momentos. “Acabei optando muito cedo por outro tipo de sacerdócio, o jornalismo, profissão na qual comecei com 16 anos, trabalhando em jornais de bairro de São Paulo. Nunca me arrependi. Nestes 46 anos de ofício, passei pelas mais diferentes funções, de repórter a diretor, nas redações de praticamente todas as principais empresas de comunicação do país”. Mesmo assim se recusava a admitir o que via, lia e ouvia.

Misto de incredulidade e estupefação, o jornalista disse que “jamais tinha visto nada parecido na cobertura de uma eleição - tamanhas baixarias, tantos preconceitos, discursos tão vis e cínicos, textos inacreditavelmente sórdidos publicados em blogs e colunas - desde os tempos em que não podíamos votar para prefeito, governador e nem presidente da República”. E ainda numa experiência profissional rara, quando “no melhor momento social e econômico da história recente do país, chegamos ao fundo do poço na política. O Brasil não merecia isso”, lamentou. O desrespeito foi pior que a derrota.

Talvez, dá a entender o velho repórter, a sociedade suporte esse comportamento de qualquer setor da sociedade, mas não de quem lhe anuncia a firmeza do evangelho, e nem dos que lhe relatam o cotidiano, destacam os avanços e apresentam parâmetros de juízo. Por isso, o tom escatológico e fatídico. “Órgãos de imprensa e igrejas, jornalistas e religiosos, têm todo o direito de escolher seus candidatos, fazer campanhas por eles, detonar os adversários. Só não podem fingir que são santos e pensar que nós todos somos bobos”, sentenciou.


* Antonio Carlos Ribeiro é teólogo luterano, jornalista e professor universitário no Rio de Janeiro (antoniocarlosrib@gmail.com)




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