‘Há uma ala do
eleitorado que é, em primeiro lugar, conservadora e, em segundo lugar,
religiosa’. Entrevista especial com Antônio Flávio Pierucci
Fonte: IHU
Link:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=38228
“O
voto religioso conservador tem muita afinidade com o pensamento
conservador quando se trata de condenar qualquer abertura no sentido de
liberalizar determinadas condutas e comportamentos. No entanto, a
questão é mascarada e, por isso, uma hora você pensa que é um voto
religioso, outra hora você tem certeza de que é um voto conservador”,
constata o sociólogo
Antônio Flávio Pierucci durante entrevista que concedeu à
IHU On-Line, por telefone.
Pierucci analisa o
movimento ultraconservador que se manifestou durante as eleições
presidenciais.
Segundo Pierucci, "termina-se esta eleição com uma enorme
interrogação, terminamos o primeiro turno acreditando que a religião
tivesse uma grande influência, iniciamos o segundo turno acreditando que
a influência iria crescer, mas a partir da metade do segundo turno os
próprios políticos e seus quartéis generais de campanha entenderam que
religião demais em uma campanha eleitoral atrapalha".
Antônio Flávio Pierucci é
graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
PUC-SP e especialista em Teologia pela Pontificia Università Gregoriana.
Na PUC-SP também realizou o mestrado em Ciências Sociais. É doutor em
Sociologia pela Universidade de São Paulo, onde é professor.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Podemos dizer que estas
eleições manifestaram o surgimento de um movimento ultraconservador no
Brasil?
Antônio Flávio Pierucci –
Podemos sim. Isso pode ter passado despercebido nos últimos anos, mas um
movimento que estava subterrâneo se formou e se apresentou já no final
do primeiro turno destas eleições na internet. Foi uma verdadeira
surpresa para muitos de nós, porque o movimento se manifestou de uma
forma tão grande que suspeitamos que seu discurso seria muito eficaz,
com efeito muito direto sobre as preferências eleitorais da candidata
Dilma Rousseff. Até o início da apuração dos votos do
primeiro turno, se imaginava que Dilma não tivesse sido
eleita diretamente no primeiro turno por causa do efeito
Erenice e do caso da violação dos segredos fiscais de alguns
tucanos.
Mas, então, se percebeu que, na verdade, havia um movimento religioso
agindo diretamente sobre o resultado das eleições. Levantou-se,
inclusive, a hipótese de um ressurgimento de um
voto evangélico. Com isso, comecei a receber telefonemas de muitos
jornalistas que falavam “professor, você, que sempre negou a existência
do
voto evangélico, não acha que este ano vai acontecer isto ou
aquilo?”. Eu respondia “Alguma coisa diferente está acontecendo neste
ano, mas talvez não seja o caso de chamar isso de voto evangélico e
muito menos de voto religioso, mas de voto puro e simplesmente
conservador”. Há uma ala conservadora do eleitorado que é, em primeiro
lugar, conservadora e, em segundo lugar, religiosa.
Não é pelo fato de as pessoas estarem se reunindo em igrejas e invocando
o nome de Deus que possamos chamar este voto de religioso. O
voto religioso progressista, ou de esquerda, nunca aparece com cara
de voto religioso. Porém, o voto religioso conservador tem muita
afinidade com o pensamento conservador quando se trata de condenar
qualquer abertura no sentido de liberalizar determinadas condutas e
comportamentos. No entanto, a questão é mascarada e, por isso, uma hora
você pensa que é um voto religioso, outra hora você tem certeza de que é
um voto conservador. Mas tanto na sua face religiosa ele é
religiosamente conservador, quanto na sua face política ele é
politicamente conservador.
IHU On-Line – Como surge esse
conservadorismo?
Antônio Flávio Pierucci – Não
nasce na Igreja, não nasce na estrutura hierárquica da Igreja no sentido
de sua configuração geral, não nasce da
CNBB, por exemplo, e não nasce de nenhuma organização das igrejas
evangélicas. Ele nasce de movimentos que tem vida e que tem expressão
dentro das igrejas. Por exemplo, este movimento que se manifestou sobre
a
questão do aborto está claramente ligado ao efeito de um movimento
internacional de direita conservadora em matérias de costumes que usa o
rótulo “pró-life”, ou seja, em defesa da vida.
Os grupos
pró-vida não têm apenas inspiração globalizada, internacionalizada,
ou norte-americanizada, são grupos financiados por grupos
internacionais. E mais: são financiados e treinados. O pró-life
não funciona só no período eleitoral, ele funciona o ano inteiro dando
palestras, apresentado vídeos etc. Os vídeos horríveis que foram
colocados na Internet, com mulheres fazendo aborto, fetos sendo
atingidos por agulhas de crochê, sangrando, ou então com bonequinhos,
embriões humanos ou mesmo fetos maiores feitos de silicone para explicar
como o aborto assassina, como o aborto é um verdadeiro infanticídio,
tudo isso vem sendo veiculado há mais tempo. Eu mesmo já assisti a um
vídeo desses na internet cujo narrador acusa algumas tribos de índios
brasileiros de praticarem infanticídio, explicando que algumas meninas
são escolhidas para serem vítimas de rituais de infanticídio.
Nesta conjuntura das eleições uma outra coisa se sobrepôs e deu um pouco
mais de combustível para essa questão: a acusação de que a candidata do
governo faria restrições à liberdade de imprensa no país uma vez que o
Presidente da República vinha reclamando muito da imprensa. Havendo,
portanto, restrição da liberdade de imprensa, haveria restrições na
liberdade de pregação religiosa. A liberdade de pregação religiosa
seria, de alguma forma, não abolida completamente, mas seria restringida
e tutelada.
Então, se criou uma espécie de paranoia que se difundia com requintes de
imaginação. Chegaram a dizer, nesse sentido, que haveria uma restrição
aos horários de pregação evangélica na televisão brasileira. E isso foi
dito àqueles que participam dos cultos religiosos. No entanto, não são
as igrejas católicas ou evangélicas como um todo que se manifestaram
dessa forma, apenas algumas.
IHU On-Line – Por que o discurso
conservador ganhou tamanho espaço nos debates eleitorais?
Antônio Flávio Pierucci – As
políticas, as agendas, as pautas de intervenção, seja na economia, seja
na política internacional ou em qualquer setor que for do governo, dois
dois principais candidatos que se apresentaram é muito parecida. Hoje,
as diferenças entre eles não são tão nítidas como eram antigamente. Isso
faz com que você procure buscar em cada um dos dois lados aquilo que
diferencia mais um do outro, e então as questões morais parecem ser um
bom fator diferenciador e, desta forma, se tornam um grande operador de
distinção. Foi isso que aconteceu com Dilma e
Serra.
Se você olhar as propostas de governo da Dilma e do
Serra não verá muita diferença, tanto que o
Serra no início da campanha também começou a se apresentar como
também um continuador das políticas do Lula. Essa
semelhança cada vez maior das propostas políticas, das agendas de
governo, faz com que os marqueteiros procurem buscar no adversário um
elemento forte de distinção, de diferenciação. Isso está na religião, na
questão do aborto e do homossexualismo e por aí afora. Muitos cientistas
políticos, inclusive, pensam desta forma e afirmam que a tendência das
campanhas eleitorais daqui para frente vai atacar diretamente a
biografia de um ou de outro candidato.
IHU On-Line – Essa tendência
ultraconservadora encontrou espaço na internet. Sendo este um meio dito
“democrático”, o que isso pode significar?
Antônio Flávio Pierucci – A
internet é um espaço toscamente democrático porque não há nenhum
controle, você pode dizer qualquer coisa lá. Eu, como sociólogo, passo a
vida estudando, me apresentando em congressos para ver o que as pessoas
pensam das minhas ideias, para receber críticas. Na internet você está
sozinho em sua casa e pode jogar uma calúnia ou uma promessa
absolutamente irrealizável a respeito de qualquer coisa e enganar as
pessoas. Não estou sugerindo que os controles sejam de censura, mas que
abram a discussão. Ou seja, você deve se apresentar com nome e endereço,
dizendo “eu penso assim”.
A internet ainda permite muito o anonimato, permite que ideias de outros
sejam apropriadas por mim, por você, e, assim, nós passamos a vender
essas ideias como nossas próprias. A internet hoje abre espaço para
grupos excessivamente de direita, violentos, fascistas, grupos de
discriminação religiosa, de discriminação étnica. Isso está acontecendo
nesse momento, onde aparecem expressões de preconceito antinordestino na
internet por moradoras e moradores de São Paulo. Alguns escreveram algo
como “você já matou o seu nordestino hoje?”. Depois de mais uma vitória
de Lula o “anti nordestinismo” parece ter se
generalizado em São Paulo. Em que meio de comunicação você pode chegar e
dizer “você já matou seu nordestino hoje?”, só na internet você pode
fazer isto.
IHU On-Line - Esses pequenos grupos que
encontraram na internet uma forma de disseminar esta posição podem se
expandir?
Antônio Flávio Pierucci – Podem,
pois não sabemos ainda como controlar a internet. Nem a polícia federal,
nem as polícias mais treinadas sabem como controlar os crimes digitais.
É muito complicado. No entanto, o resultado das eleições também serviu
como um teste quantitativo para ver se esses movimentos
ultraconservadores teriam poder de fogo suficiente para derrubar a
candidatura petista. E não conseguiram. As coisas continuaram normais.
Termina-se esta eleição com uma enorme interrogação, terminamos o
primeiro turno acreditando que a religião tivesse uma grande influência,
iniciamos o segundo turno acreditando que a influência iria crescer, mas
a partir da metade do segundo turno os próprios políticos e seus
quartéis generais de campanha entenderam que religião demais em uma
campanha eleitoral atrapalha. Quando a religião entra na política ela
entra com critérios religiosos que atrapalham a lógica de negociação da
política. Isto também aconteceu na campanha do Barack Obama.
O político precisa ter cabeça fria, você não pode ficar apaixonadamente
defendendo uma verdade e radicalizando esta verdade. É como se você
entrasse na campanha querendo ganhar a simpatia das pessoas religiosas,
mas você mesmo não é tão religioso assim quanto aquelas pessoas que
eventualmente podem se sensibilizar com o seu gesto cristão. E foi isso
que aconteceu com a Dilma que teve que aparecer em
igrejas. Já o Serra apareceu beijando um terço,
mostrando que ele era uma pessoa ultrarreligiosa. E todo mundo
sabe que a Dilma não é tão religiosa assim nem tão
católica, e que o Serra, desde jovem, não é religioso
nem católico. Isso leva a uma distorção da verdade.
IHU On-Line – Durante as eleições, o
senhor frequentou diferentes cultos religiosos. O senhor pode nos contar
o que viu nesses espaços?
Antônio Flávio Pierucci – Uma
coisa que chamou a atenção foi a ideia de que eles realmente “batiam na
tecla” do “Dilma não”. Eu ouvi algumas reuniões, noturnas, sobretudo, em
algumas igrejas onde, depois de falarem bastante contra a Dilma
durante a pregação, ao final chegavam e diziam o seguinte: “Todos de pé!
Em qual candidato vocês não vão votar?”, aí o pessoal erguia o braço
direito com o punho fechado e e respondiam: “Dilma, Dilma”. Isso deu uma
impressão de que a Dilma iria ser derrotada, era como
se você estivesse diante de pequenos exércitos em ordem de batalha, com
as pessoas gritando dentro de uma igreja. Aquilo me deu uma impressão de
que, de fato, seria um arraso. Quando veio a manifestação de
Bento XVI aos bispos brasileiros dizendo que era legítimo eles
entrarem na eleição para condenar os que defendem a liberalização do
aborto, eu falei: “Nossa, pronto, o Serra já é o
presidente do Brasil”.
No entanto, nem aquela mobilização evangélica que parecia tão calorosa
nas igrejas que eu frequentei, nem essa mobilização direta do
Papa acionando as cúpulas das igrejas no Brasil, deram um
efeito tão consistente que fizesse com que as preferências eleitorais
pela Dilma diminuíssem ao ponto de ela perder as
eleições.
IHU On-Line – Olhando o mapa de quem
votou na Dilma e no Serra, vemos que o Norte e Nordeste e também Minas
Gerais, votaram na Dilma, e os estados do Sul votaram no Serra. Isso tem
a ver com o conservadorismo?
Antônio Flávio Pierucci – Creio
que não. Esse mapa mostra que o fator religioso não é determinante,
porque o Nordeste é muito religioso, muito católico. O
Censo de 2000 apontou que os estados mais católicos do
Brasil são nordestinos. Este mapa mostra que o fator econômico é ainda o
grande fator que influencia na decisão do voto, as pessoas dos estados
mais ricos não aprovam tão entusiasticamente as políticas do
Lula e as pessoas dos estados mais pobres ainda confiam em
Lula para tirá-los de uma situação secular de atraso e
subdesenvolvimento. Isso para mim é a demonstração de que o que conta em
uma eleição para o eleitor são interesses materiais, de bem estar
material. Não são ideias, não são valores, não são dogmas religiosos; o
que conta é o progresso material, melhoria das condições de vida e assim
por diante.
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