“O seu seguimento do Cristo”

 

Marilza Lopes Schuina*

 

Uma reação – Depois da publicação do texto “Eleições 2010: entre o padre e o voto”, várias foram as manifestações, entre as quais, uma senhora de Campinas/SP, fazendo os seguintes questionamentos: “Se os escritos revelam um pouco do escritor, o seu seguimento do Cristo (grifo nosso) merece um profundo processo de discernimento. Seu artigo sobre as eleições revelam duas incongruências fatais. Se um padre não pode usar o púlpito para fazer política (o que, de fato, não está sendo feito, já que os padres e bispos tem falado de valores inegociáveis como a vida e, não, de política), como a senhora, valendo-se do cargo de presidente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB/Regional MT e vice-presidente do CNLB/Brasil, pode falar de política ??? (grifo nosso) Em segundo lugar, como ser um eleitor de Dilma Roussef e, depois, ir às ruas lutando contra o aborto??? Por fim, nossa arma não é o voto, mas uma vida pessoal coerente com o seguimento do evangelho!

Uma reflexão – Senhora R., o que é o seguimento de Jesus Cristo? O Documento de Aparecida (DA), n.139 traz uma afirmação que nos ajuda a compreender o significado do discipulado como seguimento. "No seguimento de Jesus Cristo, aprendemos e praticamos as bem aventuranças do Reino, o estilo de vida do mesmo Jesus Cristo: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão diante da dor humana, sua aproximação com os pobres e pequenos, sua fidelidade à missão recebida, seu amor serviçal até o dom de sua vida. Hoje, contemplamos a Jesus Cristo tal como nos transmitem os Evangelhos para conhecer o que ele fez e para discernir o que nós devemos fazer nos dias de hoje."

É o que nos recorda, Senhora R., a afirmação de Paulo: "Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo” (Fl. 2,5). Também a Gaudium et spes, 22, ajuda-nos a entender nossa profissão de fé em Jesus Cristo: "trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano. Nascido da Virgem Maria tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado”.

Ser discípulo e seguir a Jesus é viver a experiência do trabalho, ter compaixão do povo, solidarizar-se com as multidões, assumir suas dores, criticar seu abandono e dá a vida por suas ovelhas. (Mc 6,1-6; 3,14; Lc 10, 2-12; Jo 1, 38-39). Ser discípulo e seguir Jesus é assumir o anúncio do Reino aos pobres e que a salvação se faz presente na mudança de situação real de vida operada na ação evangelizadora e libertadora de Jesus (Paulo VI, Evangelii nuntiandi n.30; Lc 4, 16-21; Mt 11,2-6).

É nosso desafio hoje atualizar essa ação evangelizadora e libertadora de Jesus apoiando as lutas pela defesa da vida em todos os campos, seja dos sem terra, dos sem teto, dos desempregados, dos abandonados pelo Estado e, muitas vezes, pela própria Igreja, sendo solidários com os rostos sofredores do povo de rua, dos migrantes, dos doentes, dos dependentes químicos, dos presos, indo às ruas, praças e cidades, sem medo e sem vergonha, empunhando nossas bandeiras, sendo profetas "bocudos, zóiudos e oreiúdos", pois, como "discípulos e missionários somos chamados a contemplar, nos rostos sofredores de nossos irmãos e irmãs o rosto do Cristo que nos chama a servi-lo nele" (DA 393, Puebla, 31-39, Santo Domingo, 179), pois “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza” (DA, 392)

Jesus é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo. 14,6) um caminho de conflitos, confrontos e de posicionamento contra a ideologia dos dominantes que impede a possibilidade da vida florescer (Mc 8, 22 – 11,8) e, seguir a Cristo é fazer a escolha que ele fez, é viver a espiritualidade da cruz, assumindo-a até as últimas conseqüências, inclusive, fazendo o que Jesus fez: dar a vida por suas ovelhas.

Este, Senhora R., é o seu, o meu, o nosso seguimento do Cristo!

Saudações à senhora R. e sua família. Vemos-nos por esses caminhos da vida, nas ruas, praças e cidades, na luta pela defesa da vida plena e, se preciso for, dando a própria vida.


* Marilza Lopes Schuina – professora, presidente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB/Regional MT e vice-presidente do CNLB/Brasil.

 

 





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