ENCONTRO REGIONAL DE FORMAÇÃO EM EDUCAÇÃO INDÍGENA
CASA SIMÃO BORORO, CHAPADA DOS GUIMARÃES
De
TEMA:
A EDUCAÇÃO INDÍGENA NA INTEGRIDADE DA CRIAÇÃO
DOCUMENTO FINAL
Nós, educadores e educadoras indígenas e indigenistas, nos
reunimos na Casa Simão Bororo
entre os dias 02 a 05 de novembro de 2010 para refletirmos sobre a
relação entre a Educação e o
Sumak Kawsay “Viver Bem”, proposta elaborada a partir dos povos
andinos para uma nova e harmônica forma de relacionamento entre as
pessoas, as sociedades e o meio ambiente. Essa reflexão foi fundamental
diante da constatação de que o modelo capitalista está levando à
destruição da Vida no planeta. A exploração desenfreada da natureza e
dos seres humanos, transformando tudo em mercadoria, tem gerado
acumulação de riqueza que é apropriada por uma minoria. Esse modelo vem
causando desmatamento e poluição das águas, do ar, do solo, com sérias
consequências para a saúde dos seres vivos e colocando em risco a
segurança alimentar.
As terras indígenas do Mato Grosso estão cercadas pelo
agronegócio e, por isso mesmo, os povos indígenas estão sofrendo sérios
impactos devido aos agrotóxicos despejados no solo, pulverizados
frequentemente sobre as plantações e levados aos rios pelas chuvas. As
aldeias bem como os rios que as atravessam são atingidos pelas nuvens de
agrotóxicos lançados pelos aviões e isso vem provocando doenças
respiratórias, cancerígenas, malformação de fetos e problemas
neurológicos e mentais.
O veneno lançado nos rios tem diminuído a quantidade de peixes,
pois provoca a morte dos filhotes e contamina os peixes adultos. O peixe
é um alimento fundamental na dieta dos povos indígenas e a sua
diminuição constitui um sério risco para a saúde destes povos. Por outro
lado, as mudanças dos hábitos alimentares vem causando a dependência de
produtos industrializados
que causam novas doenças
como diabetes, hipertensão, anemia entre outras.
Nós educadores preocupados com essa realidade consideramos
fundamental que as Escolas e as Comunidades Indígenas se mobilizem na
luta contra essas situações que colocam em risco a vida de nossos povos.
Esses temas precisam estar presentes nas atividades curriculares
desenvolvidas em nossas escolas.
Outro assunto tratado em nosso Encontro foram os Territórios
Etnoeducacionais, definidos pelo governo federal como uma nova forma de
gestão da educação escolar indígena em nosso país. Porém, vimos que
muitos pontos da organização e operacionalização dos territórios ainda
precisam ser melhor esclarecidos, especialmente quanto ao papel dos
Estados e municípios. Atualmente, temos sérios problemas na relação com
as secretarias municipais e a estadual, pois as exigências burocráticas
impedem a especificidade das escolas indígenas garantidas por várias
leis. Citamos como exemplos a forma de contratar os professores e
funcionários, as prestações de contas, o calendário, a matriz
curricular, o sistema on-line
de avaliação dos alunos e o lançamento do diário e dos conteúdos
trabalhados em sala de aula também no sistema
web. Destacamos também a
demora para construção e reforma das escolas, o que atrapalha o bom
funcionamento das atividades escolares.
A pactuação entre os entes federados não garante que os diferentes
órgãos cumpram as suas obrigações para com as escolas indígenas. Por
isso, consideramos que os territórios etnoeducacionais devem responder
efetivamente às demandas colocadas pelas comunidades indígenas, para não
se tornarem apenas mais uma instância burocrática.
Os sistemas de educação dos povos indígenas nos inspiram modelos
organizativos baseados na solidariedade e respeito mútuo. Por isso,
nossas expectativas é que os territórios etnoeducacionais sejam espaços
onde as comunidades possam exercer, de fato, a autonomia na gestão de
suas escolas.
Acreditamos que a proposta do
Viver Bem corresponde ao nosso modo de vida e traz luzes para toda a
humanidade ao propor uma forma respeitosa de se relacionar com a Mãe
Natureza e entre todos os povos do mundo.
Estivemos presentes neste encontro representantes do povo Karajá,
Bororo, Xavante, Kanela, Rikbaktsa, Paresi, Bakairi além de membros do
CIMI MT e convidados que atuam diretamente nas escolas indígenas.
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