Jornalismo rural é bem mais que agronegócio
Por Gibran Lachowski
O profissional teve contato com acadêmicos do 4º e 6º semestres e falou
basicamente do noticiário rural, sobremaneira do trabalho especializado,
que demanda mais tempo de apuração e produção.
Expôs de modo geral que o jornalismo rural se faz a partir de duas
abordagens: a romântica e a de mercado. A primeira tem como ícone,
segundo Cividini, o jornalista José Hamilton Ribeiro, que apresenta o
“Globo Rural”, pois mostra a vida do campo com seus personagens, sua
lida diária, os causos...
A de mercado remete ao agronegócio, marcada pelos indicadores
econômicos, grandes produções, perspectivas de exportação, informes
sobre novas pragas, cotações em bolsas de valores.
Conforme Cividini, em Mato Grosso o que se destaca é o jornalismo rural
de mercado, ou seja, o que cobre o agronegócio. É o que se fundamenta em
fontes de informação como o Instituto Mato-grossense de Economia
Agropecuária (Imea), a Fundação Mato Grosso e a Associação dos Criadores
de Mato Grosso (Acrimat).
Correspondem a organismos respeitados nos meios rural e jornalístico,
pois trazem dados atualizados e sistematizados para análise e reprodução
dos meios midiáticos e do público ligado aos vários setores da cadeia
produtiva do agronegócio, como empresários de semente, transporte,
maquinaria, armazenagem, fertilizantes, plantadores.
Por conseqüência,
observou Cividini, a outra abordagem rural tem menor espaço.
E além da visão romântica da “pessoa simples do campo”,
acrescento a abordagem que mostra a produtividade da agricultura
familiar e, também, a que elabora uma crítica ao modelo agropecuário de
Mato Grosso. Enfim, jornalismo rural pode ser mais amplo, com visões e
assuntos diversos.
Desse modo, pode-se falar da destacada exportação de soja do estado,
trabalho escravo presente no agronegócio, correto descarte das
embalagens de agrotóxico, excesso de utilização de “veneno” e suas
conseqüências ao meio ambiente,
inovações tecnológicas para combater pragas,
assentamentos-modelo, lavouras orgânicas...
No entanto, essa diversidade jornalística tem, no mínimo, dois
impedimentos. Um deles é a demanda, ou seja, como Mato Grosso é
entendido pela mídia como meio rural de mercado se produz um noticiário
voltado para esta perspectiva.
O outro decorre da primeira
observação: se o aparato jornalístico se volta para atender às
necessidades desse nicho, compreensível é que se ajuste aos interesses
do mesmo.
Portanto, o noticiário rural de Mato Grosso se orienta, obviamente, pelo
estatuto jornalístico, mas se faz, também, a partir de considerável
carga de pressão política, econômica e cultural do agronegócio. De modo
prático isso explica a quase inexistência de informações relativas a
movimentos que defendem a reforma agrária e o tom amenizador que recebem
as máculas do mercado.
Cividini, porém,
aponta para as alternativas ao modelo de jornalismo rural de
agronegócio. Menciona a importância de recorrer a outras fontes de
informação, como a Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e
Extensão Rural (Empaer), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e as
universidades. Ambas se dedicam ao micro e pequeno produtor ou
apresentam visões mais equilibradas quanto às principais questões do
ambiente rural.
Contudo, assinala Cividini, nem mesmo as universidades estão livres das
pressões do mercado. Mais uma pista de que o trabalho em nome de um
jornalismo rural com real responsabilidade social demanda inteligência
para “driblar” as amarras editoriais, articulação com pessoas e veículos
de mídias comunitárias ou alternativas, além de um profundo
comprometimento com o interesse público.
A palestra de Cividini foi esclarecedora.
Gibran Lachowski é jornalista, professor e coordenador do curso de
Comunicação da Faculdade Cenecista de Rondonópolis
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