Repúdio ao ZSEE pode ter repercussão mundial
Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e
Justiça
O manifesto pode ter repercussão mundial contra o ZSEE, devido às
relações dos ambientalistas em todo o planeta.
Cerca de 30 movimentos sociais, ambientalistas ou não, pedem, no
manifesto, o veto sensato do governador Silval Barbosa.
Uma comissão entregará o pedido de veto em mãos nesta sexta-feira (5).
O deputado estadual Alexandre César (PT), relator do projeto original,
informa que o parecer técnico da Procuradoria Geral do Estado (PGE) é
contrário ao substitutivo. E que isso deve nortear o governador.
Para a professora Michèle Sato, pós-doutora em Educação e referência na
luta ambiental em Mato Grosso, “o substitutivo 3 reforça inteiramente
grupos econômicos hegemônicos ligados ao agronegócio”. Ela avisa, porém,
que “eles mesmos serão vítimas, já que a economia internacional poderá
desprezar ou boicotar produtos oriundos de ordenamento territorial
inconsequente, sem nenhum cuidado ambiental”. Já se fala em tentar
provocar um boicote internacional e principalmente europeu aos produtos
do agronegócio, como a soja e a carne. A opinião pública europeia já é
sensibilizada contra ações que signifiquem ataque à Amazônia e ao meio
ambiente.
A professora destaca ainda que “ao impactar os diversos territórios
mato-grossenses, estaremos também acarretando problemas amazônicos,
mundiais e planetários. Tudo o que existe na Terra tem ligação
ecológica. O substitutivo 3 é totalmente desprovido de inteligência”,
reage Michèle Sato, que, por meio da Rede Mato-Grossense de Educação
Ambiental (Remtea), vem atuando nessa luta.
Todos os deputados da AL-MT seguiram o relator da Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ), deputado Dilceu Dal Bosco (DEM). Exceto o
deputado estadual Ságuas Moraes (PT), que, isolado, vetou o
substitutivo.
No manifesto, o projeto é apelidado de “substitutivo ruralista”.
Na visão de Alexandre César (PT), a forma como o ZSEE foi aprovado
demonstra a força do agronegócio na Assembleia Legislativa de Mato
Grosso.
“Infelizmente, tenho imensa dificuldade de achar benefícios no
substitutivo como ele foi aprovado”, lamenta Alexandre César,
visivelmente abalado com o rumo do projeto. Para ele, a Casa
desconsiderou todo o percurso de debates públicos, não atendeu às
reivindicações de ambientalistas nem da sociedade civil organizada, que,
na opinião dele, foram participativos e ativos para conduzir a questão
de forma democrática. “Os parlamentares estão apenas regulamentando as
coisas como estão. É a história do vale tudo. Do vamos deixar como é
para ver como que fica. Isso daí não tem efetividade”.
Segundo Inácio Werner, do Centro Burnier Fé e Justiça (CBFJ), que é
signatário do manifesto, essa discussão vem sendo feita deste o início
da década de 90. “Naquela época, de 200 milhões de dólares
disponibilizados pelo Prodeagro (Programa de Desenvolvimento
Agroambiental do Estado de Mato Grosso), 30 milhões foram destinados a
um estudo técnico. Ou seja, até mesmo o gasto de altas verbas públicas
em todo o processo foi ignorado pelos deputados”, rechaça Werner. O CBFJ
integra o Fórum Matogrossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento
(Formad).
Conforme o deputado Dilceu Dal Bosco (DEM), a matéria tramitou em um
processo legislativo perfeito. Foram feitas 15 audiências públicas. E,
segundo ele, a redação final contempla a realidade de Mato Grosso, ou
seja, “proteger o meio ambiente produzindo”. Ele disse não conseguir ver
discordância entre o que a sociedade pediu e a AL aprovou.
A diferença central está no que motivou as mudanças no projeto, que tem
como pano de fundo um estado que aloja o Pantanal, o Cerrado e a
Floresta Amazônica. “Ao invés de levar em consideração estudos técnicos
e discussões, que apontavam para uma mais ampla preservação, o
substitutivo 3 atende à pressão política do agronegócio”, explica
Werner. Reduz, segundo ele, áreas de conservação, sendo que algumas
delas simplesmente deixam de existir. Reduz áreas indígenas, acuando
ainda mais os povos. Permite o plantio de cana de açúcar em qualquer
área do Estado, contrariando legislação vigente que protege o Pantanal e
a Amazônia deste tipo de produção agrícola, que usa venenos altamente
poluentes. Um risco ao solo e aos rios. Enfim, mexe totalmente no uso da
terra e, na visão das entidades que assinam o manifesto de repúdio, vai
na contramão do pensamento ambiental que se amplifica no mundo.
Mas, conforme Dal Bosco, o governador, antes de decidir, irá apreciar o
parecer técnico da PGE e do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama),
que através de uma resolução poderá ou não indicar o projeto. Além
disso, segundo ele, a matéria exige ainda um decreto presidencial para
ter validade.
MANIFESTO DE REPÚDIO CONTRA A APROVAÇÃO SUBSTITUTIVO 3 DO ZSEE-MT
Desprezando os 20 anos de estudos técnicos, as 15 audiências públicas e
as inúmeras expressões do controle social participativo pela sociedade
civil, a Assembleia Legislativa [AL], entre as estratégias coloniais de
dominação e manutenção do status quo, aprovou o Substitutivo 3 do
Zoneamento Socioeconômico Ecológico [ZSEE] em 27 de outubro de 2010.
Apelidado como “substitutivo ruralista” pela sociedade civil, agora ele
deverá ser apreciado pelo Governador de Estado, e nas últimas
instâncias, pela Comissão Coordenadora do Zoneamento Nacional [CCZEE] e
pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente [CONAMA]. As entidades que
assinam este manifesto clamam pelo SENSATO VETO DO GOVERNADOR, pelos
seguintes motivos:
1. O processo
de construção e tramitação do terceiro substitutivo, desde a segunda
votação na plenária, atropela normas regimentais na questão da
transparência e lisura. O
deputado Dilceu Dal Bosco e as Lideranças Partidárias, desconsiderando a
diversidade das contribuições da sociedade mato-grossense que resultaram
no primeiro substitutivo, elaboraram um documento às pressas que
contempla o setor do agronegócio comprometido com seus próprios
interesses. Outro indício
de falta de transparência é atribuído ao fato de que o deputado Dilceu
Dal Bosco foi indicado, uma semana antes da segunda votação, como o
relator da própria proposta, o que evidencia uma demonstração de
conflito de interesse na aprovação dentro da comissão.
2. A versão
atual apresenta inconsistências técnicas, além de desperdiçar um grande
orçamento já destinado aos seus estudos e gerará conflitos
socioambientais na sociedade mato-grossense de várias ordens. Todo
zoneamento deve ser avaliado pela Coordenação Nacional do ZEE, ligada à
SDR/MMA, que já vem alertando, por meio de notas e entrevistas, para o
descumprimento às normas técnicas exigidas pelo governo federal, se nela
aprovado é encaminhado à CCZEE e ao CONAMA. O Ministério Público
Estadual [MPE] também entregou, em março de 2010, ao então governador
Blairo Maggi, um parecer técnico demonstrando sua preocupação com
inconsistências que ameaçam a aprovação e que, se levadas adiante, serão
motivo de intervenção da Instituição.
3. O ZSEE
aprovado pela AL é um contra-senso, pois além dos dilemas
socioambientais, exclusão social e manutenção da desigualdade no campo,
representa um ‘tiro no pé’ do próprio setor de base primária responsável
por liderar a desconfiguração da proposta inicial. O mercado
internacional de comodittes agrícolas, por pressão da sociedade, está
atento a uma produção que segue, minimamente, as leis. Um Estado sem um
Zoneamento reconhecido, fruto de um processo sem transparência,
enfrentará seguramente restrições à venda da sua produção.
É importante destacar que os ZSEE já aprovados [Acre, Rondônia e
BR163/PA] pelo CONAMA e CCZEE configuram-se como uma nova proposta
democrática de planejamento e ordenamento territorial, especialmente à
Amazônia, sempre visível aos organismos internacionais e transações
econômicas essencialmente relacionadas ao agronegócio.
Os movimentos sociais formados pelas instituições que assinam este
documento vêm se posicionando ao longo deste ano para evitar o
retrocesso que marcou o processo de aprovação por parte da Assembleia.
Além do nosso posicionamento que marca muito um enfrentamento a certos
setores econômicos, estamos acima de tudo preocupados com o rumo não
transparente, retrógado e irresponsável que configurou a aprovação do
ZSEE pela Assembleia e seus reflexos para o desenvolvimento no Estado.
Neste sentido, e pelos motivos expostos acima, repudiamos a aprovação do
substitutivo 3 do Zoneamento Socioeconômico Ecológico de Mato Grosso e
vimos pedir pelo veto do Governador a este substitutivo 3, com retomada
imediata na reformulação da proposta atual do ZSEE nos moldes do
primeiro substitutivo.
Pelo veto do governador!
Pelo repúdio à aprovação do substitutivo 3 ZSEE-MT pela assembleia
legislativa!
Cuiabá, 5 de novembro de 2010.
GRUPO DE TRABALHO DE MOBILIZAÇÃO SOCIAL, GTMS
E demais entidades e movimentos das redes socioambientais
Associação Brasileira de Homeopatia Popular, ABHP
Associação dos Docentes da Universidade de Estado de Mato Grosso,
ADUNEMAT
Associação Rondonopolitana de Proteção Ambiental, ARPA
Centro Burnier Fé e Justiça, CBFJ
Coletivo Jovem de Meio Ambiente, CJMT
Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental, CIEA-MT
Conselho Indigenista Missionário, CIMI
Entidade Nacional dos Estudantes de Biologia, ENEBio
FASE Mato Grosso - Educação e Solidariedade, FASE
Fórum de Lutas das Entidades de Cáceres, FLEC
Fórum Mato-Grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento, FORMAD
Grupo Cultural e Ambiental RAÍZES
Grupo de Estudos em Educação e Gestão Ambiental - UNEMAT
Grupo de Pesquisa de Movimentos Sociais e Educação, GPMSE-UFMT
Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, GPEA-UFMT
Instituto Caracol, iC
Instituto Centro da Vida, ICV
Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, IPAM
Instituto Gaia
Instituto Indígena Maiwu Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Operação Amazônia Nativa, OPAN
Rede Axe Dudu
Rede Mato-Grossense de Articulação dos Povos e Comunidades Tradicionais,
REMAR COMTRA
Rede Mato-Grossense de Educação Ambiental, REMTEA
Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso, SINTEP |