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Falece Irmã Dineva Vanuzzi – exemplo de luta!
Faleceu aos 73 anos a professora aposentada da UFMT Irmã Dineva Vanuzzi.
Ela morreu ontem à tarde em Porto Alegre (RS), onde vivia. Irmã Dineva
era exemplo de luta contra desigualdades, pela educação e em defesa dos
direitos Humanos. Na carta divulgada pelo professor Luiz Augusto Passos,
é possível entender a dimensão humana dessa educadora ímpar.
Irmã Dineva Vanuzzi: radicalidade do Evangelho da Libertação*
"*Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e
Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes*" (I
Cor. 1, 27 ss)
*Luiz Augusto Passos
Chega a nós o anúncio da morte da Irmã Dineva Vanuzzi, 73. Irmã Dineva
nascida em Selbach, no Rio Grande do Sul, entrou na Congregração das
Irmãzinhas da Imaculada Conceição, e, fiel à sua fundadora, não foi
indiferente a nenhuma luta que valesse a pena em favor dos pobres e
oprimidos. Figura ímpar, cáustica e apaixonada, revolucionou sempre o
seu tempo, e, por onde andou, estabeleceu um novo tipo de presença da
vida religiosa feminina engajada nos movimentos sociais, em todas as
dimensões da política, e as grandes causas do povo na perspectiva da
Teologia da Libertação. Trabalhou em Rosário Oeste e regiões junto à
educação escolar.
Esteve no Araguaia junto à equipe Pastoral da Prelazia do São Felix sob
a coordenação do Bispo D. Pedro Casaldáliga, que nutria imenso respeito
e estima por Dineva. Veio para Cuiabá, de onde, no colégio das
Irmãzinhas, ao lado da Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito
atuou como professora concursada na Universidade Federal de Mato Grosso
(UFMT), da qual era professora aposentada. Exerceu, durante o mandato em
que Serys Slhessarenko era Secretária de Educação, a Coordenação do
Fundo Estadual de Educação. Trabalhou durante anos na Secretaria
Municipal de Educação. Teve importante contribuição na participação
direta nas lutas sociais, com vínculo especial à luta do Movimentos dos
Trabalhadores Sem Terra. Formou uma equipe de voluntários que tinham
presença marcante na pastoral da Igreja do Rosário, Arivonil que deixou
saudades; Lourenço Fernandes, Jesuíta Padre José Tem Cate e Maria
Benvinda todos já falecidos, eram, com Dineva, alma do apoio ao
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Dineva esteve à frente do
Movimento de Educação Popular Integral Fé e Alegria, e construiu, com
apoio de sua congregação, no seu espaço de residência das irmãzinhas, um
trabalho de horta comunitária e escolarização de crianças e adolescentes
em frente à Rodoviária onde hoje, em Cuiabá, está o CENE, espaço de
encontros da CNBB regional.
Dineva era pessoa fiel na luta pela verdade e justiça. Muitas vezes teve
sua vida ameaçada e perseguida de morte, na medida em que defendia
qualquer pessoa que sofresse perseguição por parte dos poderosos e, de
modo especial, quando a perseguição do Estado atingia crianças e jovens,
e, muitos dos quais, foram desaparecidos pela ação da Secretaria de
Segurança, atingindo o Movimento de Meninos e Meninas de Rua. Dineva
assumira o papel ativo nas estratégias de luta do Centro de Direitos
Humanos Henrique Trindade e a todas as redes e movimentos sociais que
tinham repercussão libertadora. Foi tão fiel a seus amigos, quanto foram
aqueles que se tornaram adversários, dada a rapidez da palavra aliada à
ação direta e atrevida; capacidade de denúncia permanente de toda
opressão, que a fez pessoa indispensável por onde quer que tenha andado.
Portadora de uma leucemia durante anos, sem ter contudo seus maus
efeitos, não perdeu sua presença nos grandes eventos no Partido dos
Trabalhadores no qual era filiada, no Sindicato (ADUFMAT) ao qual
pertencia, presente nas articulações do Fórum Social Mundial. Justa
homenagem lhe foi prestada, quando em 2008 foi impresso um livro no qual
narra parte de suas lutas. Pessoa absolutamente de bem com a vida,
feminista assumida, foi exemplar no que tange à sua autonomia, à
vivência da laicidade da vida religiosa, à inserção nos meios sociais
onde trabalhou. Não lhe faltaram criatividade para inventar formas de
mobilização e denúncia - eficaz, por vezes até espalhafatosa-,
imprescindível para a ocasião do cerceamento da injustiça pelo silêncio
imposto. Disciplinada em passar noites sem dormir quando necessário,
radicalidade que sempre a fez temida, e por isso inspira a todos nós, a
amizade celebrada com alegria, o anúncio do evangelho da liberdade, a
luta pela democracia e o humanismo com todas as suas consequências.
Dineva dava impressão de jamais ter pensamentos que não tivesse
revelado!
Maliciosa, astuta, todos sabiam muito bem, nos conflitos, de que lado
Dineva estava! Temida por isso por seus adversários, sobretudo os
Secretários de Segurança que utilizaram de violência sistemática contra
a criança e adolescentes e o povo da rua. Sofria, com imensa
generosidade, por isso, a intimidação permanente não divulgada dos
carros sem placa que a seguiam na rua, violência por vezes, explícita e
anunciada, por vezes, nos jornais por parte das autoridades
constituídas. Atuou como educadora em grandes projetos de currrículo
inovador, na perspectiva freireana. Tinha a doce e cruel "malícia das
serpentes" que Jesus elogiara em todos aqueles que abandonavam o estado
desprezível do equilíbrio insosso. Vi Dineva, pela última vez, quando
foi dar seu voto à Dilma.
Faleceu, dia 2 de novembro por volta do meio dia, não há de lhe faltar
flores, que tanto gostava! Foi para Deus de alma lavada pela primeira
mulher que a representaria também como presidenta do Brasil. Mencionava,
quando a vi, a preocupação
com uma igreja desfibrada, voltada para as sacristias, para o mundo
intímista e a perda de fogo do arrojo que o Evangelho reclama e seu
escândalo e tristeza com os movimentos reacionários que apoiavam em nome
de Deus, um projeto antipopular. Sobrava-lhe a grandeza da humanidade e
a combustão do Espírito que também a consumia, no mais charmoso e
indispensável anarquismo.
“*O Reino dos céus sofre violência e só **os violentos o arrebatam*” (Mt
11,12)
Dineva deve ter subido ao céu no turbilhão de fogo que levou Elias, que
nos deixe pequena parte da força do seu espírito!
Cuiabá, 02 de novembro 2011. |