O
Brasil de Dilma: mãos à obra
O Brasil vive sob o descompasso existente entre os avanços econômicos e
culturais alcançados nos últimos oito anos e um sistema político
arcaico, perpetuador de privilégios. Governos comandados por presidentes
populares sempre foram fustigados por essas estruturas arcaicas. Lula
não foi exceção e só sobreviveu graças a sua incontestável habilidade
política. Daí o seu empenho em, além de eleger a sucessora, dar a ela a
possibilidade de governar com um Congresso menos hostil. O Brasil
precisa de uma Reforma Política para a nossa democracia avançar. Mas ela
não terá efeitos práticos se os meios de comunicação seguirem tendo o
absurdo papel político-eleitoral de hoje. O artigo é de Laurindo Leal
Filho.
Laurindo Leal Filho
Fonte: Carta Maior
A vitória de Dilma Roussef é um recado da sociedade às forças
conservadoras que tentaram, por vários meios, impedir que isso
acontecesse. Entre eles destaque-se os meios de comunicação,
transformados em partido político, sem base social mas ainda com grande
poder persuasivo.
Foram eles os responsáveis pela realização do segundo turno em 2006
e 2010. Sem mandato, julgam-se no direito absoluto de impor à sociedade
suas visões de mundo, defendendo interesses restritos à classe social da
qual são parte e porta-vozes. Trata-se de uma distorção incompatível com
o
jogo democrático. O presidente Lula disse, em excelente
entrevista à
Carta Maior
(com Página 12, da Argentina e La Jornada, do México),
estar decidido a se empenhar, fora do governo, no trabalho de "primeiro
convencer o meu partido de que a reforma política é importante, (...) e
depois, convencer os partidos aliados de que a reforma política é
importante. Se tivermos maioria, poderemos votar a reforma política, eu
diria, nos próximos dois anos".
Tarefa imprescindível, sem dúvida. O Brasil vive sob o descompasso
existente entre os avanços econômicos e culturais alcançados nos últimos
oito anos e um sistema político arcaico, perpetuador de privilégios.
Executivos comandados por presidentes populares, afinados com as
aspirações maiores da sociedade, tiveram sempre a fustigá-los interesses
mesquinhos articulados por máquinas políticas instaladas no legislativo,
mais suscetível ao voto não-ideológico. Situações geradoras de crises
históricas que levaram, por exemplo, Getúlio à morte e Jango ao exílio.
Lula não foi exceção e só sobreviveu graças a sua incontestável
habilidade política. Daí o seu empenho em, além de eleger a sucessora,
dar a ela a possibilidade de governar com um Congresso menos hostil.
Talvez essa tenha sido a maior exasperação da mídia ao perceber que
muitos dos seus aliados e representantes tradicionais não voltariam,
como não voltarão, à Câmara e ao Senado no ano que vem.
No entanto, o país não pode mais ficar à mercê das circunstâncias de
ter, como hoje, um presidente disposto a enfrentar nas urnas esses
adversários. Para isso são necessárias novas formas, modernas e
democráticas, de se fazer política no Brasil. Financiamento público de
campanha, equilíbrio nas representações parlamentares estaduais na
Câmara e voto em lista, distrital ou misto, são pontos de partida para a
discussão proposta pelo presidente Lula.
Mas a reforma não terá efeitos práticos se os meios de comunicação
seguirem tendo o absurdo papel político-eleitoral de hoje. Não há
democracia que resista por muito tempo ao poder que tem quatro famílias
de estabelecer a agenda política nacional. Derrotadas, graças à força de
um governo que as superou nas ruas e nas praças, nada garante que não
voltem ainda mais dispostas a apoiar - como já fizerem em outras
oportunidades - aventuras golpistas.
Não é tarefa fácil. Exige alta dose de competência e muito sangue frio.
Qualquer ação corretiva nessa área é chamada de censura por aqueles que
defendem seus privilégios com unhas e dentes. Se arvoram senhores da
liberdade de expressão, de falarem o que querem, obrigando todos os
demais ao mutismo.
Com a força das urnas, o novo governo pode acelerar algumas das
iniciativas esboçadas na gestão que se encerra. A mais urgente é dar
ordenação legal ao setor da radiodifusão, verdadeira terra de ninguém,
sem lei e sem ordem. O governo Lula deixará para a presidente Dilma o
embrião desse projeto calcado nas experiências mais avançadas existentes
hoje em todo o mundo e, claro, sintonizadas com a realidade brasileira.
Não é possível seguirmos, na era da digitalização e da crescente
convergência dos meios, com leis que tratam separadamente as
telecomunicações e a radiodifusão. E, esta, além disso datada de 1962,
época da chegada do vídeo-tape e da TV em preto e branco.
Quando o mundo convergia suas legislações para adaptar os marcos
legais a realidade tecnológica, o Brasil no governo tucano as separava
para permitir a privatização das telefônicas e preservar os privilégios
dos radiodifusores. Está mais do que na hora de acabar com isso.
Cabe lembrar que já em 2007, o documento final do 3º Congresso
Nacional dos Partidos dos Trabalhadores propunha "a imediata revisão
dos mecanismos de outorga de canais de rádio e TV, concessões públicas
que vêm sendo historicamente tratadas como propriedade absoluta por
parte das emissoras de radiodifusão. Esta atualização passa pelo
cumprimento da Lei, haja vista a flagrante ilegalidade em diversas
emissoras, por maior transparência e agilidade nos processos e pela
criação de critérios e mecanismos para que a população possa avaliar e
debater não somente a concessão, mas também a renovação de outorgas".
O PT deve se juntar à luta da sociedade organizada para concretizar os
preceitos da Constituição Federal de 1988 que estabelecem a proibição do
monopólio na mídia e definem como finalidade do conteúdo veicular a
educação, a cultura e a arte nacionais.
Que tal começar já, discutindo e aprofundando essas questões no período
de transição do governo Lula para o governo Dilma? Passo fundamental
nesse sentido é dotar o Ministério das Comunicações de transparência
absoluta, aberto à sociedade e aos seus reclamos quanto, por exemplo, a
qualidade dos serviços prestados pelas empresas de rádio, televisão e
telefonia. Tornando-o partícipe da elaboração e encaminhamento de
projetos de lei voltados para a democratização das comunicações, hoje
restritos a outras àreas de governo, como as Secretarias Especiais de
Direitos Humanos e de Comunicação da Presidência da República.
Mas um novo Ministério das Comunicações é apenas parte do enfrentamento
do problema. Por se tratar de questão-chave para a democracia a
empreitada deve ser vista como prioridade absoluta do governo como um
todo. Só assim haverá massa crítica e força suficientes para avançarmos
no projeto nacional de banda larga oferecido por sistema público,
acabarmos com a propriedade cruzada dos meios de comunicação, ampliarmos
a abrangência de cobertura da TV Brasil e das emissoras de rádio da EBC,
garantirmos a aplicação do dispositivo constitucional referente a
obrigatoriedade de um percentual de programas regionais na televisão,
criarmos uma agência reguladora para os serviços de radiodifusão capaz
de, por exemplo, coibir a violação constante dos direitos humanos
cometidos no rádio e na TV, entre tantas outras tarefas urgentes.
Sem esquecer a necessidade, prioritária, de impulsionarmos a existência
de um grande jornal diário nacional, capaz de oferecer ao brasileiro uma
outra visão de mundo, comprometida com a solidariedade e a justiça
social, como fazia a Última Hora na metade do século passado.
Vamos buscar aquilo que de melhor o século 20 nos legou para, com a
distribuição mais justa e acessível das novas tecnologias, passarmos a
oferecer melhor não só as nossas riquezas materiais, mas também nossos
preciosos bens simbólicos, fundamentais para a elevação do grau de
civilidade do nosso país.
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