Circo armado para
confundir
Por Keka Werneck
O
modelo de conselho de comunicação, com o papel de monitorar a
programação, é amplamente defendido pela sociedade civil organizada, que
se mostra saturada dos abusos escandalosos da mídia.
Outros países estão muito avançados do que nós nisso.
Por exemplo, na Alemanha, a publicidade de produtos infantis é dirigida
aos pais e só pode ser veiculada após as 18 horas, horário que eles, em
geral, chegam em casa do trabalho. Isso é importante por quê? Para
impedir o embotamento da infância nessa sociedade de consumo, já que
brincar é uma atividade lúdica e não comercial. Por isso, não é vital
para a criança ter uma bicicleta que seja quase uma moto. Muitas vezes
um “camelo” – como a gente chamava a bicicleta quando eu era pequena -
faz a criança curtir muito mais, vibrar muito mais. A criança é
imaginativa! Brinca até com tampinhas de garrafa peti, que, presas por
um barbante, podem virar uma cobra divertida.
Outro exemplo. Para os psicólogos envolvidos na luta pela democratização
da mídia, a mulher brasileira está psiquicamente adoecida, porque as
TVs, via de regra, criaram um estereótipo feminino forjado no molde
norte-americano – alta, magra, branca – que não corresponde com a nossa
realidade. Além disso, a mulher tem sido objeto de consumo, por exemplo,
em propagandas de cerveja. Tem uma música da Rita Lee, chamada PAGU, que
desconstrói bem isso...Afinal, “nem toda brasileira é bunda” canta a
roqueira em nome de todas nós.
Já
os afrodescendentes reclamam que não aparecem nas TVs em todas as
posições sociais que podem e devem ocupar. Alegam que as novelas
massificam a idéia de que o negro deve ter um papel secundário na
sociedade e se conformar com isso.
Coletivos de direitos humanos também estão envolvidos com essa questão,
por entender que a mídia tem se especializado em ferir direitos alheios,
especialmente dos pretos e pobres. Muitos programas policialescos, por
exemplo, não medem o prejuízo que causam e o conflito que geram nos
lares empobrecidos quando expõem o tal “ladrão da galinha” fora de
contexto, como se os menos abastados não tivessem sentimentos, nem
valores, nem coisa nenhuma, sendo cidadãos de segunda classe.
O
pessoal do audiovisual, por sua vez, reclama porque a televisão
brasileira prefere dar espaço a enlatados de qualquer canto e de
qualquer qualidade a dar amplo espaço à produção local. Tem sábado à
noite, por exemplo, que passa cada filme de quinta, ignorando os tantos
excelentes filmes brasileiros e até mesmo filmes estrangeiros, mas que
acrescentem algo e não fiquem apenas no tiroteio clichê de sempre, nas
comédias medonhas de sempre, no subproduto.
Os
gays querem se ver na TV e se ouvir no rádio e não como seres bizarros.
Os estudantes também têm pautas, assim como as centrais de trabalhadores
e movimentos sociais e querem socializá-las com o povo.
Tudo isso aí e muito mais tem sido debatido de forma inconstante desde a
abertura do país, no período pós-ditadura, quando o povo precisava
apontar o que queria para construir uma nação livre, democrática. E
todos esses debates represados desaguaram na I Conferência Nacional de
Comunicação, realizada em dezembro de 2009, em Brasília, convocada pelo
presidente Lula. A criação de conselhos de comunicação é encaminhamento
dessa conferência, que, pelo bem e pelo mal, pela primeira vez colocou
esse assunto em pauta.
A
natureza de tais conselhos não é deliberativa, e portanto teriam o papel
de apontar caminhos, direções.
A
falsa polêmica criada agora, mediante um esboço de um pré-projeto do
deputado Mauro Savi (PR-MT), jamais apresentado, na verdade mostra
primeiramente que o empresariado não quer orientação alguma da
sociedade, nem quer prestar contas à sociedade, que é a verdadeira dona
de todas as televisões e rádios espalhadas pelo país, por hora
concessionadas. Tais falsas polêmicas mais confundem do que propõem o
debate. Mais tratoram o país do que abrem o diálogo franco.
E,
afinal, o que é censura? De que censura falam?
A
censura existe hoje amplamente nos meios de comunicação. É rotina na
vida dos jornalistas. Quem censura é o poder político, os governos e o
capital publicitário, em sintonia com a linha editorial do empresariado.
Portanto, não há liberdade de imprensa no Brasil. E não há como manter o
que não se tem. Temos sim é que lutar pela construção da verdadeira
liberdade de imprensa a todo tempo, sempre com responsabilidade.
Abaixo à boataria, à baixaria, às falácias, às mentiras e ao jogo sujo,
que ainda é prática comum aqui pelos trópicos, lamentavelmente.
Não queremos mais sentir mal estar, nojo, náusea. Queremos um lugar bom
de se viver a vida!
Keka Werneck é presidente do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso
(Sindjor-MT) |