É BOM NÃO ESQUECER
Por Teobaldo Witter*
Em nosso meio, muitas pessoas, individualmente, se dão bem com seu
passado. Amam sua vida, sua história, sua família, seu próximo.
Reconciliaram-se, perdoaram e foram perdoadas. Vivem muito felizes. Mas,
no Brasil, temos muita dificuldade em assumirmos nossa história
coletiva, a nossa história de nação. Explico com exemplos.
Em 1964, eu era um guri de 14 anos. Viviamos no interior. Trabalhávamos
na roça. Minha mãe e meu pai eram colonos, mas ouviam noticiários na
rádio e liam alguns jornais, dos poucos disponíveis, na época e na roça.
Mas eram pessoas bem informadas. Como eleitores de João Goulart e de
Leonel Brisola, sentiram-se derrotados com o golpe de 31 de março de
1964.
Apesar dos parcos meios de informações da época, eles comentaram a
atitude do jornal Correio da Manhã. O mesmo apoiou o golpe. Escrevia que
havia greves, insegurança econômica e social. Dizia que sindicalistas e
comunistas estariam tomando conta do poder.
Em dias alternados, o jornal trazia como editorial: Basta, Chega
e Fora. São tres editorias de peso forte contra o governo Goulart. Os
títulos inflamam, colocando fogo no circo. O jornal fortaleceu a idéia e
o próprio ato do golpe. Este veio para fazer uma “limpeza” no Brasil.
Menos de um mes após a instalação do regime militar, o jornal Correio da
Manhã já podia, ele mesmo, denunciar que os fantasmas da meia noite
estavam rondando pelo Brasil.
Ainda tentou denunciar violência, arbitrariedades e obscurantismo
que eram praticados. Mas era tarde. Iludiu-se. Iludiu a nação. E nós já
não tínhamos à disposição bons jornais, pois, foram fechados pelo
estado.
Precisa ser dito, também, que nesta época, enquanto que irmãos e irmãs
de diferentes igrejas eram presas e sofriam torturas e mortes nos
esconderijos da ditadura, uma ela à direita das igrejas fazia
manifestação de apoio ao golpe e à “limpeza”. É inacreditável que alguém
em sã consciência se preste a tamanha barbárie em nome de Jesus Cristo
ou de Maria. E isso bem perto de nós. Igrejas se dividiram e, até hoje,
ainda não se reconciliaram. Tragédia!
A partir de 1986 as emissoras de tv e rádio exibiam programação de
partidos políticos. Quando anunciavam a referida programação dos
partidos, alguns locutores diziam: “mesmo não concordando, somos
obrigados pela lei a ceder espaço para a programação política”.
Este comentário foi mau exemplo para a formação cidadã do povo
brasileiro. Como você pode ser cidadão se não conhece os programas dos
partidos de seu país? Nesta
época, eu já era pastor na Igreja Evangélica Luterana. Fazia minhas
anotações e, às vezes, as levava às reuniões do presbitério para ser
conversado. Tive sempre o cuidado de não ferir pessoas e de trazer
propostas de diferentes partidos para a discussão e reflexão.
As campanhas eleitorais, atualmente, ainda trazem o vício, o preconceito
e as trágicas compreensões políticas construidas no inconsciente
coletivo do povo brasileiro, durante os 21 anos (64-85) de ditadura. As
tentativas de satanizar partidos e candidatos são conseqüências de
interesses não revelados, a exemplo da ditadura. Primeiro satanizaram o
partido comunista, depois, o PTB do Brisola e de Goulart, depois o PV,
agora o PT. Quem será o próximo? Nesta satanização se unem adversários que diziam não ter nada em comum, ou seja: alguns pentecostais e neopentecostais evangélicos, alguns carismáticos e alguns da direita católica romana. Há alguns ministros, pastores e padres que, parece, receberam o dom da ordenação de Deus para fazer política partidária de acusação e repassar vídeos suspeitos. Há agressões mútuas muito graves entre algumas lideranças de igrejas e internamente, nas igrejas. É certa que a grande maioria daquilo que circula não passa de propagando para um e de acusação de outro candidato, sem nenhum fundamento de verdade. Onde já se viu gastar dinheiro da igreja para fazer propaganda eleitoral suspeita, dinheiro de fieis para evangelizar e socorrer pessoas necessitadas? Feridas estão sendo abertas. Onde se quer chegar com isso? Como ficam estas feridas? O que vão responder para Jesus, quando no futuro lhes perguntar pelo irmão, pela irmã? Vamos aprender com a história.
* Pastor Teobaldo Witter é Mestre
em Teologia, Pedagogo, professor universitário e ouvidor público, em
Cuiabá:
twitter@terra.com.br
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