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Duas trajetórias distintas
Por Emir Sader*
No Brasil também, na hora negra da ditadura militar, formos todos
testados na nossa firmeza na decisão de lutar contra a ditadura, entre
aderir ao regime surgido do golpe, tentar ficar alheios a todas as
brutalidades que sucediam ou somar-se à resistência. Poderíamos olhar
para trás, para saber onde estava cada um naquele período.
Dois personagens que aparecem como pré-candidatos à presidência são
casos opostos de comportamento e daí podemos julgar seu caráter,
exatamente no momento mais difícil, quando não era possível esconder
seus comportamentos, sua personalidade, sua coragem para enfrentar
dificuldades, seus valores.
José Serra era dirigente estudantil, tinha sido presidente do Grêmio
Politécnico, da Escola de Engenharia da USP. Já com aquela ânsia de
poder que seguiu caracterizando-o por toda a vida, brigou duramente até
conseguir ser presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE) de São
Paulo e, com os mesmos meios de não se deter diante de nada, chegou a
ser presidente da UNE.
Com esse cargo participou do comício da Central do Brasil, em março de
1964, poucas semanas antes do golpe. Nesse evento, foi mais radical do
que todos os que discursaram, não apenas de Jango, mas de Miguel Arraes
e mesmo de Leonel Brizola.
No dia do golpe, poucos dias depois, da mesma forma que as outras
organizações de massa, a UNE, por seu presidente, decretou greve geral.
Esperava-se que iria comandar o processo de resistência estudantil, a
partir do cargo pelo qual havia lutado tanto e para o qual havia sido
eleito.
No entanto, Serra saiu do Brasil no primeiro grupo de pessoas que
abandonou o país. Deixou abandonada a UNE, abandonou a luta de
resistência dos estudantes contra a ditadura, abandonou o cargo para o
qual tinha sido eleito pelos estudantes. Essa a atitude de Serra diante
da primeira adversidade.
Por isso sua biografia só menciona que foi presidente da UNE, mas nunca
diz que não concluiu o mandato, abandonou a UNE e os estudantes
brasileiros. Nunca se pronunciou sobre esse episódio vergonhoso da sua
vida.
Os estudantes brasileiros foram em frente, rapidamente se reorganizaram
e protagonizaram, a parir de 1965, o primeiro grande ciclo de
mobilizações populares de resistência à ditadura, enquanto Serra vivia
no exílio, longe da luta dos estudantes. Ficou claro o caráter de Serra,
que só voltou ao Brasil quando já havia condições de trabalho legal da
oposição, sem maiores riscos.
Outra personalidade que aparece como pré-candidata à presidência também
teve que reagir diante das circunstâncias do golpe militar e da
ditadura. Dilma Rousseff, estudante mineira, fez outra escolha. Optou
por ficar no Brasil e participar ativamente da resistência à ditadura,
primeiro das mobilizações estudantis, depois das organizações
clandestinas, que buscavam criar as condições para uma luta armada
contra a ditadura militar.
No episódio da comissão do Senado em que ela foi questionada por ter
assumido que tinha dito mentido durante a ditadura – por um senador da
direita, aliado dos tucanos de Serra -, Dilma mostrou todo o seu
caráter, o mesmo com que tinha atuado na clandestinidade e resistido
duramente às torturas. Disse que mentiu diante das torturas que sofreu,
disse que o senador não tem idéia como é duro sofrer as torturas e
mentir para salvar aos companheiros. Que se orgulha de ter se comportado
dessa maneira, que na ditadura não há verdade, só mentira. Que ela e o
senador da base tucano-demo estavam em lados opostos: ela do lado da
resistência democrática, ele do lado da ditadura, do regime de terror,
que seqüestrada, desaparecia, fuzilava, torturava.
Dilma lutou na clandestinidade contra a ditadura, nessa luta foi presa,
torturada , condenada, ficando detida quatro anos. Saiu para retomar a
luta nas novas condições que a resistência à ditadura colocava. Entrou
para o PDT de Brizola, mais tarde ingressou no PT, onde participou como
secretária do governo do Rio Grande do Sul. Posteriormente foi Ministra
de Minas e Energia e Ministra-chefe da Casa Civil.
Essa trajetória, em particular aquela nas condições mais difíceis, é o
grande diploma de Dilma: a dignidade, a firmeza, a coerência, para
realizar os ideais que assume como seus. Quem pode revelar sua
trajetória com transparência e quem tem que esconder momentos
fundamentais da sua vida, porque vividos nas circunstâncias mais
difíceis?
*
Graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, mestre em
filosofia política e doutor em ciência política por essa mesma
instituição. Foi professor de Filosofia e Ciência Política da USP. Foi
também pesquisador do Centro de Estudos Sócio Econômicos da Universidade
do Chile e professor de Política na Unicamp. Atualmente, é professor
aposentado da Universidade de São Paulo e dirige o Laboratório de
Políticas Públicas (LPP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
onde é professor de sociologia. É autor de "A Vingança da História",
entre outros livros. |