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Acampados à margem da campanha
Reforma agrária e acampamentos improvisados não são tema de discurso
dos candidatos a presidente
* Por Tatiana Farah
SÃO PAULO - Uma coleção de bonecas enfeita o quarto de Antonia
Belarmina Santos, de 61 anos. A luz do barraco é puxada por "gato" de
energia. Na sala, há um armário de garrafas plásticas cheias de
sementes. O tesouro é dividido com os vizinhos: 36 famílias sem terra,
há oito anos acampadas sob tapumes na periferia da Grande São Paulo. A
família de Antonia é uma das 90 mil que aguardam um lote de terra,
acampadas em terrenos públicos, à beira de estradas e em fazendas
invadidas.
Organizadas por movimentos como o MST, essas famílias são uma parcela
da carência de reforma agrária no Brasil. Há entre 2 milhões e 7
milhões delas habilitadas a receber um lote. A estimativa é do
geógrafo Bernardo Mançano Fernandes, coordenador do DataLuta, da
Unesp, maior banco de dados da questão agrária no país.
Segundo o DataLuta, nos últimos 22 anos, o país teve 8.128 ocupações
de terra, onde 1,15 milhão de famílias se instalaram precariamente. Em
16 anos, cerca de 1,1 milhão de famílias foram assentadas. Mas grande
parte dos assentamentos foi resultado de regularização de terras, e
não de desapropriação:
- Os governos Fernando Henrique e Lula usaram o mesmo procedimento de
incorporar a regularização como reforma agrária. É um critério de
decisão política - aponta Fernandes.
Para ele, se forem assentadas cem mil famílias por ano (a meta do
governo Lula em 2010 é 60 mil), nos próximos dez anos, os conflitos de
terra tendem a acabar. Mas o tema passa em branco no discurso de José
Serra e Dilma Rousseff.
O governo Lula assentou 584 mil famílias até setembro. A expectativa
do Incra é chegar a 630 mil assentadas. Nos oito anos do governo
anterior, foram 540 mil. A maior diferença entre os dois é o número de
hectares usados. Segundo o Incra, foram 21,1 milhões de hectares no
governo tucano, e 46,9 milhões no petista.
Embora tenha número superior ao governo tucano, Lula não atingiu as
metas do II Plano Nacional de Reforma Agrária, que previa, de 2003 a
2006, 400 mil novas famílias assentadas além da regularização de posse
de terra para 500 mil famílias. Quando o plano acabou, em 2007, não
foi renovado.
Com a questão relegada pelos candidatos e sequer mencionada pelos
históricos aliados do PT, o MST só decidiu a 15 dias do segundo turno
apoiar Dilma Rousseff. Os dois presidenciáveis, no entanto, evitam a
expressão "reforma agrária" para falar de "agricultura familiar".
José Serra (PSDB) defende que é preciso aumentar a produtividade dos
assentados e desenvolver a agricultura familiar. Ao GLOBO, a campanha
de Dilma disse que vai continuar o programa do governo e coloca a
reforma como "parte do modelo de desenvolvimento". Não estabelece
metas de assentamento e diz que vai seguir o ritmo do governo Lula.
Fonte: O GLOBO |