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Eleição, agressividade e o Espírito
Jung Mo Sung *
É cristianismo uma religião da proibição, que impõe
sobre toda a população (seja cristã ou não) seus valores à base da
"espada" ou da lei do Estado? A história nos mostra que em parte foi e
continua tentando ser esse tipo de religião da imposição através da
proibição. Valores religiosos não podem ser impostos a não ser proibindo
alternativas, pois valores religiosos e éticos só são valores para as
pessoas que os praticam se assumidos livremente. Como não se pode impor
o assumir livremente, o que seria uma contradição, a única forma de
realizar o desejo da imposição dos seus valores é proibindo alternativas
- através da força, do medo do inferno ou da lei do Estado.
No fundo é isso que está acontecendo nesta eleição,
como também ocorreu nas anteriores, em torno da questão do aborto e do
casamento ou união civil dos homossexuais (tema que está, entrando agora
na polêmica). Setores da igreja católica e das igrejas evangélicas, que
fora da época das eleições se vêem como "inimigas", se unem contra um
mesmo inimigo proibindo os seus fiéis de votarem na figura que
representaria o mal por não querer obedecer às leis de Deus (leis essas
reduzidas ao campo da sexualidade humana e na forma interpretada pela
sua igreja).
(A teoria do desejo mimético de René Girard nos
oferece uma interpretação muito interessante de como esses dois setores
rivais do cristianismo estão, no fundo, imitando uns aos outros, sendo
iguais, tanto na eleição quando lutam contra o inimigo comum, quanto na
luta de um contra o outro na ausência desse inimigo. É por isso que
muitos desses setores evangélicos assumem discursos e ritos católicos,
como setores católicos -carismáticos ou mais conservadores- imitam as
igrejas evangélicas conservadoras e pentecostais.)
Esta imposição traz consigo uma contradição interna.
As pessoas que querem impor, em nome de Deus, os seus valores ou crenças
religiosas sobre outros grupos sabem, no fundo, que há algo de errado
neste processo. Sabem que tentar impor esses valores a toda população
através de proibições é no fundo reconhecer que são incapazes de
mostrar, através de testemunho e ensino, o valor dessas crenças e
valores morais. Ao tentar impor sobre os diferentes os seus valores,
reconhecem que estão falhando na sua missão de anunciar a boa-nova (o
evangelho) que só pode ser assumido livremente. Por isso, o discurso da
proibição vem acompanhado de tanta agressividade contra os ditos
"inimigos" de Deus ou das suas igrejas. No fundo é uma agressividade
dirigida contra o "inimigo" e ao mesmo tempo contra o seu sentimento de
fracasso no que pensa ser a sua missão.
Agressividade e falta de cuidado em verificar a
veracidade das informações difundidas (para dizer o mínimo) revelam que
há algo de errado no cristianismo vivido e defendido por esses grupos.
Se é verdade que historicamente o cristianismo foi
vivido e se expandiu através desses mecanismos de imposição e proibição
do alternativo, do diferente, também é verdade que nem toda a história
do cristianismo foi e é assim. Mais importante do que isso, não é
compatível com o cristianismo primitivo, muito menos com a vida de Jesus
de Nazaré.
A boa-nova aos pobres e às vítimas das situações e
estruturas opressivas (nisso resume a evangelização, cf. Lc 4) deve ser
anunciada e testemunhada de forma propositiva para que seja aceita e
vivida em liberdade. Pois como ensinou são Paulo, "onde está o Espírito,
está a liberdade" (2Cor 3,17).
Por isso, a atuação dos cristãos na política deve
ser fundamentalmente de modo propositivo e não acusatório e agressivo.
Pois estamos anunciando e lutando por valores que "valem por si"; e que
só são valores na medida em que são vividos com respeito e tolerância
aos diferentes, dentro de espírito da liberdade. Devemos apresentar e
lutar por propostas sociais e políticas, baseadas em nossa esperança de
um mundo mais justo e solidário, onde até os mais pobres possam viver
dignamente, com "respeito e mansidão" (cf 1Pe 3,15).
É claro que entre cristãos pode e deve haver
diversidade nas linhas de propostas políticas e sociais, pois o
evangelho não nos oferece programa político concreto para os nossos
dias, mas nos ensina que devemos lutar para que todos e todas tenham
vida em abundância (cf Jo 10,10). O que significa que lutar pelo "pão"
dos mais pobres e o reconhecimento da dignidade humana de todas as
pessoas devem ser uma prioridade na ação social e política dos cristãos
e das igrejas.
A forma como se faz a política e atua nas eleições
revela o verdadeiro espírito que move os seus agentes. É verdade que no
"mundo" há muitos políticos que crêem que tudo é válido para alcançar os
seus objetivos. Há muitos que acreditam que a agressividade nas
acusações (e calúnias) revela a seriedade do seu compromisso religioso e
ético. Mas, eu penso que a agressividade revela outra coisa, um outro
espírito, diferente do Espírito do Amor-solidário (ágape)que deveria
mover as comunidades e pessoas cristãs.
[Autor, junto com Hugo Assmann, do livro "Deus em
nós: o reinado que acontece no amor-solidário aos pobres", 2010,
Paulus].
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