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QUEM ROUBOU MINHA MAÇÃ DE OURO? Por Gilberto Vieira dos Santos*
Este trecho faz parte de um conto tcheco chamado
Pássaro de Fogo e Raposa Ruiva,
tradução do título que pode não dizer muito para nós, não-tchecos.
O
que pode parecer uma divagação é, no meu intento, uma provocação sobre
as ações do governo federal, via Polícia federal e outros órgãos, de
resolver os “problemas” da retirada ilegal de diamantes na terra
indígena Roosevelt, do povo Cinta-Larga. Os meios foram semelhantes:
montar guarda e para isso várias bases foram instaladas no território
indígena para impedir que os tais diamantes saíssem. Indígenas
absurdamente revistados para sair de suas terras, controle de entrada de
pessoas e todo um aparato ‘logistico’ para cuidar das maçãs, quer dizer,
dos diamantes.
Ironicamente, por muito tempo o garimpo instalado na terra indígena,
clandestinamente claro, continuou existindo, mesmo com todo o
aparato bélico universal
materializado nas bases de nomes sugestivos. Prova concreta são as
várias prisões que ocorreram e foram noticiadas de pessoas com as
fatídicas pedras. Até uma ‘mulher da lei’, uma policial rodoviária
federal foi presa com pouco mais de 100 pedrinhas. Ironias a parte, a
policial, que carregava as pedras no absorvente íntimo, era mineira.
Neste caso do estado de Minas Gerais mesmo e o povo desta terra não tem
culpa nenhuma nisso.
Bom, certamente não é por conta da corrupção ou do encantamento que os
diamantes podem causar que o ‘problema’ não foi resolvido. Pode ser por
que as pedras saíssem voando, carregadas por um
pássaro de fogo – aliás, é
assim que as maçãs sumiam no conto tcheco – ou sabe lá quantos
absorventes federais transitaram na região. O fato é que mesmo com as
bases instaladas a partir de um decreto presidencial de 2004 a questão
perdurou. Cabe lembrar que, por iniciativa dos próprios indígenas, um
acordo foi recentemente firmado e o garimpo foi paralisado sob a
condição de que as máquinas seriam retiradas pela Polícia Federal e que
alternativas econômicas fossem desenvolvidas com as comunidades
indígenas. Além disso, a fiscalização passaria a ser desenvolvida pela
comunidade em colaboração com a PF. Fato também é que, até o momento,
não se tem notícias de que a Polícia Federal tenha executado a ação de
retirada dos maquinários. O motivo saberá a raposa do conto – lá também
tem uma raposa, mas não é ela quem roupa os diamantes, quer dizer, as
maçãs de ouro.
Pairam questões: por que não foram retiradas as máquinas que estavam na
terra indígena ilegalmente? Por onde o combustível, controlado pelas
bases, continuou entrando para funcionar as maquinas que eram usadas
para a mineração? Como, apesar do extremo controle, que conta com
helicóptero e toda infra-estrutura, as pedras continuaram a sair do
garimpo?
Pistas podem estar nas notícias sobre o envolvimento do então
ex-governador de Rondônia, Ivo Cassol, na retirada ilegal dos diamantes.
Em 2004 o próprio Ministério Público de Rondônia entrou com uma ação
contra o então governador por envolvimento na retirada e contrabando das
pedras. Quer dizer, neste angu tem caroço?
Fica, no fim do conto e das
contas, os prejuízos a serem pagos pelos indígenas que tiveram o ‘azar’
de estarem em um lugar onde se encontram as ‘problemáticas’ pedras.
Certamente estes as conhecem há séculos, mas só passaram a significar a
desgraça quando a outra sociedade volveu os olhos e as garras para lá.
Pedras que são vinculadas a sangue, no controverso caso da modelo Naomi
e que, nas rodas do luxo esbanjado à custa deste sangue, são leiloadas a
US$ 15 milhões como o anel da casa de leilões italiana Christie’s.
Enquanto isso, os Cinta-Larga, Yanomami e outros povos penam pela
irresponsabilidade ou, no mínimo, inoperância do Estado na atenção aos
problemas gerados pelos não- indígenas. Quem sabe terão que esperar
alguém que não durma na
função de vigiar as maçãs de ouro.
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