QUEM ROUBOU MINHA MAÇÃ DE OURO?

Por Gilberto Vieira dos Santos*

Era uma vez um rei que tinha um belo e grande jardim. Lá cresciam muitas árvores raras, porém a mais preciosa delas era uma macieira que se encontrava no meio do jardim. Todo dia aparecia uma maçã de ouro. De manhã nascia a flor e durante o dia crescia o fruto que amadurecia ao anoitecer. No dia seguinte nascia outra maçã, mas nenhuma permanecia na árvore até a madrugada, desaparecia durante a noite e ninguém sabia como e nem quem a pegava. O rei ficou muito triste e pediu para seu filho mais velho que ficasse vigiando para ver quem roubava a maçã. E assim seguiu-se sucessivamente o filho do meio e o mais novo na tentativa de pegar o larápio, sem que os dois primeiros tivessem sucesso.

Este trecho faz parte de um conto tcheco chamado Pássaro de Fogo e Raposa Ruiva, tradução do título que pode não dizer muito para nós, não-tchecos.

O que pode parecer uma divagação é, no meu intento, uma provocação sobre as ações do governo federal, via Polícia federal e outros órgãos, de resolver os “problemas” da retirada ilegal de diamantes na terra indígena Roosevelt, do povo Cinta-Larga. Os meios foram semelhantes: montar guarda e para isso várias bases foram instaladas no território indígena para impedir que os tais diamantes saíssem. Indígenas absurdamente revistados para sair de suas terras, controle de entrada de pessoas e todo um aparato ‘logistico’ para cuidar das maçãs, quer dizer, dos diamantes.

Ironicamente, por muito tempo o garimpo instalado na terra indígena, clandestinamente claro, continuou existindo, mesmo com todo o aparato bélico universal materializado nas bases de nomes sugestivos. Prova concreta são as várias prisões que ocorreram e foram noticiadas de pessoas com as fatídicas pedras. Até uma ‘mulher da lei’, uma policial rodoviária federal foi presa com pouco mais de 100 pedrinhas. Ironias a parte, a policial, que carregava as pedras no absorvente íntimo, era mineira. Neste caso do estado de Minas Gerais mesmo e o povo desta terra não tem culpa nenhuma nisso.

Bom, certamente não é por conta da corrupção ou do encantamento que os diamantes podem causar que o ‘problema’ não foi resolvido. Pode ser por que as pedras saíssem voando, carregadas por um pássaro de fogo – aliás, é assim que as maçãs sumiam no conto tcheco – ou sabe lá quantos absorventes federais transitaram na região. O fato é que mesmo com as bases instaladas a partir de um decreto presidencial de 2004 a questão perdurou. Cabe lembrar que, por iniciativa dos próprios indígenas, um acordo foi recentemente firmado e o garimpo foi paralisado sob a condição de que as máquinas seriam retiradas pela Polícia Federal e que alternativas econômicas fossem desenvolvidas com as comunidades indígenas. Além disso, a fiscalização passaria a ser desenvolvida pela comunidade em colaboração com a PF. Fato também é que, até o momento, não se tem notícias de que a Polícia Federal tenha executado a ação de retirada dos maquinários. O motivo saberá a raposa do conto – lá também tem uma raposa, mas não é ela quem roupa os diamantes, quer dizer, as maçãs de ouro.

Pairam questões: por que não foram retiradas as máquinas que estavam na terra indígena ilegalmente? Por onde o combustível, controlado pelas bases, continuou entrando para funcionar as maquinas que eram usadas para a mineração? Como, apesar do extremo controle, que conta com helicóptero e toda infra-estrutura, as pedras continuaram a sair do garimpo?

Pistas podem estar nas notícias sobre o envolvimento do então ex-governador de Rondônia, Ivo Cassol, na retirada ilegal dos diamantes. Em 2004 o próprio Ministério Público de Rondônia entrou com uma ação contra o então governador por envolvimento na retirada e contrabando das pedras. Quer dizer, neste angu tem caroço?

Fica, no fim do conto e das contas, os prejuízos a serem pagos pelos indígenas que tiveram o ‘azar’ de estarem em um lugar onde se encontram as ‘problemáticas’ pedras. Certamente estes as conhecem há séculos, mas só passaram a significar a desgraça quando a outra sociedade volveu os olhos e as garras para lá.

Pedras que são vinculadas a sangue, no controverso caso da modelo Naomi e que, nas rodas do luxo esbanjado à custa deste sangue, são leiloadas a US$ 15 milhões como o anel da casa de leilões italiana Christie’s.

Enquanto isso, os Cinta-Larga, Yanomami e outros povos penam pela irresponsabilidade ou, no mínimo, inoperância do Estado na atenção aos problemas gerados pelos não- indígenas. Quem sabe terão que esperar alguém que não durma na função de vigiar as maçãs de ouro.

 

 * Gilberto Vieira é Coordenador do CIMI em MT



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