Incêndios: caso de polícia, questão de saúde

Mato Grosso tem tratado o problema dos incêndios florestais como uma questão ambiental, isso é natural. Mas essa abordagem tem sido eficiente?

Por Augusto Pereira*

A cidade de Cuiabá está sob uma névoa insalubre a meses. Os cidadãos acham comum e ligam a fumaça ao clima, "fica assim quando está seco". É comum ouvir isso nas ruas e até na imprensa, mas é um grande engano. É justamente o contrário: clima seco deveria deixar o ar mais transparente. Havendo menos partículas de água em suspensão haveria mais transparência da atmosfera. Estamos tão acostumados à fumaça que apenas esperamos ela nos cobrir quando vem a seca. Nesse ano estamos vivendo uma das piores estações secas das últimas décadas.

A fumaça vem do fogo irresponsável de milhares de pessoas em Mato Grosso. Nas áreas urbanas pessoas queimam o lixo, reduzem a parte sólida em seus quintais e compartilham o lixo em forma de fumaça com seus vizinhos. As pessoas jogam o lixo para o ar. Da zona rural vem a maior quantidade de fumaça. Seguindo o ensinamento de que o fogo "limpa" o pasto, agricultores ou pecuaristas aplicam a técnica primitiva, desgastando o solo, perdendo mais água e jogando para o ar mais fumaça.

Digamos que um agricultor produtor ou pecuarista não conheça uma forma diferente de resolver seu problema, ainda assim ele tem a obrigação de impedir que o fogo não queime mais do que ele planejou. Técnicas de queimada segura foram ensinadas em muitas áreas do estado. O Programa Fogo e o Projeto Proteger, no início da década, mostravam técnicas de fazer uma queimada eficiente, abrindo uma roça do tamanho que o agricultor precisava. O fogo é uma ferramenta de trabalho da grande propriedade e da agricultura familiar. O mau uso dessa ferramenta transforma a queimada num incêndio.

Incêndios rurais causam prejuízos patrimoniais nos vizinhos e muitas vezes ao próprio causador. Há muitos relatos de canos de irrigação derretidos, roças queimadas e até casas destruídas. O procedimento para quem foi lesado é denunciar à polícia. O causador do incêndio vai dormir na cadeia algumas noites. Isso aconteceu em Sinop, Vera, mas não temos muitos exemplos desse tipo de punição. Na verdade os casos de punição a qualquer tipo de crime ambiental são exceção.

Esse não é o único motivo, mas possivelmente é o mais importante para continuarmos sofrendo com os incêndios. Apenas 1% das multas ambientais são pagas em Mato Grosso segundo uma reportagem publicada em abril deste ano em alguns veículos do estado.

As multas ambientais não são emergenciais para o Estado nem o meio ambiente é prioridade. Sabendo que Mato Grosso sofre anualmente com as queimadas e consideramos isso um problema ambiental. Mas esse tratamento continua ineficiente, parece razoável dar a atenção exigida encarando incêndios e queimadas como casos de segurança e saúde públicas.

 

* Augusto Pereira é Comunicador Social formado em Rádio e TV, atua com questões ambientais, com foco na valorização das relações comunitárias.




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