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Dia do Professor, um super-herói oprimido
Data suscita reflexões sobre prática da docência e o que o Brasil quer
dessa categoria
Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e
Justiça
Quem é esse profissional que, sob pressão, assume, em sua rotina, a
responsabilidade de levar a sociedade brasileira à frente de seu tempo?
É
possível cumprir esse grandioso papel sendo oprimido pelo sistema?
Observando o perfil dos professores e professoras da rede pública de
ensino em Mato Grosso, dá para notar de imediato que a maioria nessa
área é mulher (18.028). O número de homens é três vezes inferior
(5.439).
A
maioria dos efetivos tem entre 41 e 50 anos (48,50%), ou seja, está
envelhecendo. Entre os interinos (contratados), pelo contrário, a
maioria é jovem de 18 a 30 anos (70,53%).
Para lecionar em escolas estaduais, o professor entra na carreira já
recebendo o piso de R$ 1.135, por 30 horas, mas boa parte dos que
lecionam nas redes municipais ganha bem menos que isso.
A
maioria parte cumpre duas ou três jornadas de trabalho, para dar conta
de pagar suas contas e sobreviver. Muitos dobram na rede pública e
particular.
Acontece que a história não é feita somente pela maioria. Há uma
diversidade enorme a ser considerada para compreender essa classe, que
quer mais do que elogios da opinião pública.
Começa daí a complexidade dessa atividade feita por gente de todo jeito,
que aglutina mais de 30 mil trabalhadores em Mato Grosso, entre
mulheres, homens e pessoas de outras orientações sexuais, brancos,
pretos e de demais descendências e etnias, jovens e maduros, com
formação adequada ou não. É uma salada ideológica.
São muitos os assuntos que a data suscita, para além do salário. É
preciso discutir o preocupante viés do gradativo adoecimento do
professor em sala de aula. O cansaço físico e mental é um dos problemas
mais apontados pela categoria, de quem é cobrada postura heróica, de
salva-pátria.
Na
rede privada, assusta o assédio moral, praticado pelas diretorias e
também pelos alunos. Além disso, não há um projeto claro de formação
continuada e muito menos de gestão democrática.
Em
meio a essas complexidades, ao menos uma resposta é simples de dar: Não!
Nessas condições não é possível alavancar a sociedade com a urgência do
apelo que ela faz. O professor pode, no entanto, contribuir com avanços,
já que a docência é uma profissão que envolve – ou deve envolver -
paixão, esforço, entrega, solidariedade e senso de nação.
“A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a
sociedade muda”.
(Paulo Freire)
Angústias
A
professora Régia Cristina kottel, 39 anos, formou-se em Letras, pela
Universidade Estadual de Londrina (UEL). Lecionar é seu projeto de vida.
Em 2002, passou em concurso público, se efetivando na docência. Na
prática, esse sonho se transforma em pesadelo, quando percebe essa
insistente cobrança da sociedade. “Isso me angustia tanto. É tudo encima
da gente. É mesmo muita cobrança e, por outro lado, o que temos em troca
é desvalorização. Isso deixa a gente lá embaixo. Na escola estamos
reféns desses sentimentos, não temos autonomia”, reclama.
“Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas”.
(Rubem
Alves)
O
historiador Robinson Ciréia, 33, que leciona, como interino, em duas das
maiores escolas públicas de Mato Grosso, que é o Liceu Cuiabano e a
Escola Estadual Nilo Póvoas, critica o discurso que centraliza na
educação a resolução de todos os problemas sociais. Sobretudo aquele que
enxerga somente a relação entre o professor e o aluno. “Educação é algo
muito maior do que isso. Tem o pai e a mãe envolvidos. Tem o Governo e a
sociedade. Então, na verdade, vários fatores interferem na educação de
um povo”, explica. Segundo ele, o professor sozinho, nessa relação com o
aluno, contribui, mas não resolve o mundo.
Na
sala de aula, todas as questões sociais aparecem, porque há diversidade
entre os alunos e os docentes. “Então, é difícil mudar essa juventude
que já chega na escola carregada de cultura”. Ciréia cita, por exemplo,
que alguns pais vendem o voto e o aluno leva esse tipo de pensamento
para a sala de aula. “No meio disso, o que agonia o professor é querer
dar conta de tudo. Não dá. O que ele deve fazer, na minha opinião, é
respeitar a diversidade, combater idéias preconceituosas e trabalhar
para criar consciência crítica nos alunos”. Para Ciréia, isso em si já é
bastante trabalhoso.
Bandeiras de luta
Se
a sociedade quer, de fato, valorizar o professor, a categoria sabe
indicar como. O presidente do
Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso (Sintep/MT),
professor Gilmar Soares, aponta as quatro principais bandeiras de luta:
plano de carreira, salário, formação continuada e gestão democrática.
Essas bandeiras, juntas, fortalecem a luta central que é a valorização
profissional.
“Sem essas conquistas, o terreno fica fértil para as dificuldades no
exercício da profissão”, diz o sindicalista.
Sem um salário digno, a tendência é a busca pela dupla ou tripla
jornada. “Se o professor estiver trabalhando em vários lugares, não dá
conta de se envolver com a escola e é por isso que o Sintep defende a
dedicação exclusiva”, explica Gilmar, reconhecendo, no entanto, que,
para sobreviver, hoje fica difícil romper com este comportamento.
O
piso na rede estadual de Mato Grosso é R$ 1.135, por 30 horas, sendo 10
de hora atividade, o que o coloca entre os quatro melhores do país. Mas
nem toda a classe é contemplada.
*
Hora atividade é o tempo que o professor usa para preparar as aulas e
outras atividades pedagógicas.
Nas redes municipais, o salário geralmente é menor que o piso estadual.
O
salário de Regina Kottel, por exemplo, é R$ 787. Ela leciona na Escola
Municipal Edson Ferreira de Carvalho, em Nova Canãa do Norte, a 696
quilômetros de Cuiabá. “Na nossa campanha salarial, foi o máximo que
conseguimos aproximar do piso estadual”, lamenta.
A
luta nacional é para que o piso do professor chegue a 1.312, sem levar
em consideração regionalidades. O entendimento é que, querendo um
professorado capaz de arcar com a responsabilidade diária, nenhum deve
receber menos que isso.
Gilmar acredita que a rede pública orienta o mercado de modo geral,
pedagogicamente e do ponto de vista salarial também.
O
que se faz no ensino público de alguma forma reflete no particular.
Há, porém, diferença de realidades.
No
ensino privado, professores, de modo geral, recebem menores salários,
sofrem mais com assédio moral e não têm estabilidade. Por outro lado,
trabalham, em geral, em ambiente mais equipados, salas climatizadas e
com acesso a computadores.
Isso, porém, não é alento, lembrando ainda que muitas escolas
particulares também têm infraestrutura precária.
“São
muitos os problemas no setor privado”. É o que diz a professora Nara
Teixeira, presidente do
Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino de Mato Grosso
(Sintrae-MT).
Segundo ela, há escolas que pagam bem, mas em geral o salário ainda é
inferior ao piso do Estado.
O ensino privado divide a categoria assim. Quem leciona para a Educação
Infantil está na base da pirâmide, com R$ 7,89 por hora-aula. No topo,
professores do Ensino Médio, que recebem R$ 12,20. Esses valores são
orientados pelo Sintrae, conforme acordo coletivo em vigor. Mas isso
também não se aplica em toda a base. E o pior, no setor privado os
professores não têm hora atividade. Por 30 horas em sala de aula, o piso
é R$ 1.228.
Jornadas duplas e triplas também são muito comuns. Por isso, os
professores da rede privada lutam para unificar o calendário de férias,
caso contrário, nunca conseguem descansar por 30 dias.
O assédio moral é uma constante. Há muitas denúncias registradas no
Sintrae. “Já aconteceu comigo. Ninguém me contou. O aluno mandou que eu
falasse sobre outras coisas, porque ele está me pagando”, conta Nara.
“De outra vez, você pede silêncio ou atenção e o aluno manda você ir
tomar no c...Quer dizer, os alunos filhos da burguesia também levam para
a sala de aula outros problemas sociais e isso também faz da nossa
profissão muito extenuante.”
Nara Teixeira, presidente do Sintrae-MT
A lógica de mercado é que permite tal ataque ao professor. É a escola
assumindo a posição de uma empresa qualquer, tendo que agradar ao
cliente. “Educação não é mercadoria. Para entrar nesse ramo, é preciso
entender o papel social de educar”, diz Nara.
No ensino particular, muitos reclamam da falta de liberdade em sala de
aula. Outros garantem que precisam bater meta, ou seja, passar o maior
número de alunos possível. A reprovação pode ser ruim para a imagem da
escola-empresa. “Isso é uma afronta à educação”, reage a sindicalista.
Pesquisas também apontam para o adoecimento de professores que lecionam
em escolas particulares. “Eles ficam muito tempo em pé. Há superlotação
das salas. Algumas têm até 50 alunos. Imagine falar para esse público,
muitas vezes sem o devido equipamento. Mas a depressão e a LER (Lesão
por Esforço Repetitivo) são as enfermidades mais constantes”, diz Nara.
Gestão democrática
O
ideário sobre gestão democrática na escola vem justamente para aliviar
os ombros dos professores, dando responsabilidades a toda a comunidade
escolar na construção do ensino. Seria a vivência em debates,
estabelecidos em espaços como conselhos deliberativos, formados pela
direção, por docentes, funcionários, alunos, pais e lideranças da
comunidade.
Para o professor Robinson Ciréia isso não ocorre por uma série de
questões. “O que vejo acontecer são imposições da secretaria e a falta
de entendimento do que seja uma gestão democrática”. Na visão dele, a
direção da escola pode até estar inclinada a ser mais democrática, porém
isso exige trabalho de mobilização e tempo disponível. No entanto, todos
estão sobrecarregados de trabalho, quase sempre. O modelo produtivista
imposto rouba tempo e impede que o modelo democrático se viabilize.
"Se começássemos a dizer claramente que a democracia é uma piada, um
engano, uma fachada, uma falácia e uma mentira, talvez pudéssemos
nos entender melhor."
(José Saramago)
No
setor privado, segundo Nara Teixeira, gestão democrática é coisa que não
existe. Quem manda é a direção. Democratizar as relações é assunto que
ainda não está pautado.
Problemas em sala de aula
A
indisciplina e a falta de limites incomodam a professora Régia Kottel em
sala de aula. Segundo ela, no dia a dia, aluno que não para de falar,
que não tem atenção no assunto, que reage com falta de respeito e que
rejeita o não como resposta cansa demais. Somando isso à questão do
número excessivo de alunos por turma, a rotina do professor pode virar
um caos. “No interior acredito que a situação seja mais calma”, diz ela,
que mora em Nova Canãa. “Mas, mesmo assim, é uma carga muito pesada.
Imagina lidar com mais de 29 adolescentes de uma só vez, sem algumas
regras?”.
Por outro lado, alunos apáticos e facilmente domesticáveis, sem
iniciativa e intelectualmente frágeis é que incomoda o professor
Salvador Flávio Pereira da Silva, 47 anos, geógrafo. Salvador está se
especializando em Psicopedagogia. Ele leciona do 7º ao 9º ano na Escola
Municipal Dejane Ribeiro, no bairro Jardim Vitória, periferia de Cuiabá.
No entanto, lida bem com a agressividade, que poderia ser um problema
óbvio para o senso comum, por se tratar de uma unidade escolar
periférica. “Adolescentes têm essa – digamos – agressividade mesmo. Isso
é tranquilo, precisam ser compreendidos. O que me chateia é ver esses
meninos e meninas passivos, que não reagem. A gente não pode deixar isso
perpetuar, senão vamos formar que tipo de cidadãos?”- questiona
Salvador.
"A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de
fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações
já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A
segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de
criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe."
(Jean Piaget)
Segundo Salvador, na sala de aula o professor tem um papel fundamental,
transformador. Como geógrafo, busca, através de sua disciplina, falar
sobre tudo: sobre a família, a comunidade, a cidade e o mundo. “Sobre
meio ambiente, por exemplo, dá para tratar sobre camada de ozônio e
também sobre o lixo ali da esquina, ou seja, uma experiência que eles
têm todos os dias”.
"O saber que não vem da experiência não é realmente saber".
(Lev Vygotsky)
O
que não pode acontecer, na opinião de Salvador, mas acontece todos os
dias, é o professor e a professora terem que resolver assuntos
familiares. “Os pais vão repassando incumbências que seriam da família
e, ao mesmo tempo, não participam da vida escolar, para que esse projeto
de ensino seja construído junto. E, em alguns casos, ainda atacam a
escola, embora no dia a dia sejam omissos”.
Segundo Nara Teixeira, isso não é diferente no setor privado.
Salvador continua dizendo que muitos gestores e professores também se
acomodam e entram em um processo pragmático, que limita a visão sobre o
que seja educar em sua amplitude.
Desta forma, a comunidade se afasta da escola, vista apenas como
“depósito” de filhos, e a escola, por sua vez, não dá conta de chamar
essa comunidade para o diálogo.
Paixão por lecionar
A
contradição na docência se dá justamente porque é uma profissão de
extremos. Se por um lado trabalhista castiga, por outro realiza.
“A
gente vive bons momentos com os alunos e a maioria deles são muito
interessantes”, assegura Regina Kottel. Além disso, completa ela, “essa
paixão pela sala de aula está no sangue”.
“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.
(Cora
Coralina)
Regina fica triste quando vê o abandono da profissão. Segundo ela, é
muita gente indo embora, preferindo outros campos profissionais, menos
tensos, melhor remunerados. Ela diz ainda que outros colegas ficam, mas,
no íntimo, desejam largar tudo também, mudar de ofício, esquecer o
compromisso imposto, que agora, ao invés de alegria, adoece corpo e
alma.
“A
compreensão sobre a função social da docência resolve muitas angústias”,
afirma Nara Teixeira. Segundo ela, valorização financeira não há, mas
sim o compromisso transformador, que é muito realizador.
Apesar dos problemas, o professor Ciréia garante que isso não o
desanima. “Eu gosto muito de ser professor. Fico muito orgulhoso de ser
chamado na rua de professor, tomo isso como elogio. A maioria de nós já
teve um professor na vida e os professores são aqueles que ficam em
nosso imaginário, como pessoas importantes, que fizeram diferença para
nós. Isso é muito bom. Assim como é bom ter a oportunidade de dialogar
com essa juventude, ensinar e aprender com ela, nesse espaço de
liberdade que ainda é a sala de aula”. |